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Ano 1, n.6, janeiro de 2003 |
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Movimento camponêsExploração e miséria no rastro das mineradoras
Rogério Morais
São mais de quatro mil homens que, em dezembro de 2002, chegaram atraídos pela notícia da reabertura do garimpo. Vindos de várias localidades do Brasil, na esperança de reviver os tempos áureos da extração de imensas riquezas da terra, este contingente enorme de pessoas que chega, passa a viver de forma precária, agravando a já terrível situação de Serra Pelada — uma comunidade com duas mil residências miseráveis e que abriga, atualmente, cerca de seis mil pessoas. A aprovação no Senado, do decreto de tombamento da Serra, no final de 2002, trouxe vários grupos de garimpeiros, iludidos, para viver em condições subumanas, embaixo de lonas plásticas e tábuas, acomodados entre as casas, becos e buracos, nas proximidades do antigo garimpo. Desse jeito, as doenças só proliferam. Segundo moradores da região, em poucos dias, mais de 500 pessoas foram acometidas pela dengue. Essa moléstia tem deixado prostrados, no fundo de sujas redes, homens robustos, que, além de doentes, não têm trabalho ou comida. Instalações sanitárias, também, não existem. Na opinião da cozinheira do acampamento, “banheiro aqui é mais difícil do que jumento com chifre.” O problema maior é mesmo a falta de emprego, pois, tecnicamente, o futuro do garimpo é incerto. E ainda pode ficar pior. Se já é um absurdo que 10 mil pessoas vivam sem ter o que fazer e comer, imagine-se 50 mil, ou mais. E, talvez, seja isso o que acontecerá em Serra Pelada. Segundo Edvaldo Severino da Silva, da Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp), nos próximos dias a cidade deve receber 11 mil garimpeiros de todas as partes do Brasil. Conforme ele, os 43 mil que trabalharam no garimpo no início dos anos 80, “vão vir sim, para cá”. Ele está colhendo os dados dos visitantes, cadastrando e filiando os garimpeiros na cooperativa. Os homens preenchem um formulário e vão embora. Mas, nesse momento, o fluxo de chegada é maior do que o de saída e muitos já estão lá há mais de um mês. Mulheres, homens, jovens, crianças e idosos se misturam, dia e noite, em um só ambiente de escassez. A Polícia Militar está presente, mas, na comunidade não existe hospital e o médico só aparece uma vez por semana. A PM impôs uma espécie de lei seca à partir das 22 horas, horário máximo da festa que, diariamente, acontece na praça. Em poucos locais do país a situação é tão grave. O trabalhador garimpeiro envelheceu. Muitos aparentam mais que os 60 ou 70 anos que têm. Grande parte, com doenças graves que precisam de atendimento médico e hospitalar, tendo apenas a cooperativa para buscar um tipo qualquer de ajuda. Na entidade, eles procuram transporte para Marabá ou outra cidade mais distante, remédios, alimentos e até auxilio funeral. Porém, a solidariedade parece ser grande entre eles. Repórteres são bem recebidos e ainda há muita esperança entre os trabalhadores. Sem abater nenhum dos 50 mil bois que descansam nos pastos em todas as direções, às margens da comunidade, mesmo com a fome que ronda o lugar, os garimpeiros só querem trabalhar e ser respeitados, sem sofrer ameaças. Uma das maiores, segundo eles, é o todo poderoso Sebastião Curió, prefeito de Curionópolis, antes tido como benfeitor da comunidade. Hoje, ao que parece, sem nenhum prestígio no local, Curió é conhecido como mandante de vários crimes. Os 43.450 garimpeiros filiados à Cooperativa, hoje, são um grande problema para o governo Luís Inácio da Silva. Uma questão social que, neste momento, afeta diretamente 12 mil pessoas, agravada dia-a-dia. Uma miséria sem fim que grassa na região, contrastando violentamente com a imponência do trem de carga da CVRD (Companhia Vale do Rio Doce), que corta a selva várias vezes ao dia levando para longe as riquezas minerais arrancadas do solo do complexo de Carajás. E não é somente o inchaço da cidade e a falta de infra-estrutura que transtornam a vida dos garimpeiros. Há, também, o citado coronel Sebastião Curió, prefeito de Curionópolis, mandante mais provável do assassinato do presidente Sindicato dos Garimpeiros de Curionópolis, Antônio Clênio Cunha Lemos — crime ocorrido em 16 de novembro de 2002, na sede da entidade, conforme afirmações feitas, em reuniões, por dezenas de trabalhadores. Muita tensãoEm 21 de dezembro, às 10 horas da manhã, quando uma ambulância de sirene ligada descia a rua principal da cidade, todos sentiam que o clima era muito tenso, dentro e fora da Cooperativa. Era mais um que não resistia. Desta vez um velho, portador de hanseníase. A morte está na mente de muitos. Ronda Serra Pelada, mas, ninguém ainda se acostumou com ela, apesar da miséria e da ameaça permanente de confrontos armados que podem vir a qualquer momento. No galpão da cooperativa, quando cerca de 200 garimpeiros eram cadastrados, o assassinato do sindicalista era o único comentário: “Ele (Curió) não convive mais com os garimpeiros... Lugar de bandido é na cadeia... É ele o mandante da morte de Clênio.” Todas as acusações desse crime recaem sobre Sebastião Rodrigues de Moura, o famigerado Curió, ex-oficial do Exército que atuou durante o regime militar, notório pela crueldade empregada no combate à Guerrilha do Araguaia. Hoje prefeito e manda-chuva da região de Serra Pelada, continua a praticar crimes, até agora, impunemente. Atualmente, é consenso entre os garimpeiros o repúdio a essa figura, especialmente depois da morte do sindicalista Clênio. Ao passo em que cresce o ódio a Curió, cresce também o espírito de luta dos garimpeiros. “Estão aqui hoje os verdadeiros donos (do garimpo) e ninguém aceita mais ele (Curió) aqui dentro.” Muitos ali não têm medo de represálias. Um clima de revolta é latente nas expressões daqueles homens que chegaram ao limite da tolerância. Muitos já estão condenados, devido ao intenso contato com o mercúrio, mas, pretendem se manter ali até o fim. Outros temposSerra Pelada nem sempre foi assim. Tempo houve em que muita gente conseguiu alguma coisa mais, além do suficiente para a sobrevivência, na região. Era o início dos anos 80, quando circulavam dentro e fora do garimpo (nas cidades em torno) cerca de 100 mil pessoas e o próprio ouro era moeda corrente nesta parte do Brasil, servindo para comprar de tudo. Era, também, o tempo em que atuavam mais destacadamente a “fedeca” e a PE — como eram conhecidas entre os trabalhadores a Polícia Federal e a Polícia do Exército — extorquindo moradores e importunando a toda a gente. Nesse tempo, a cava (local do garimpo, um imenso buraco) possuía mais de 40 metros de profundidade e a Cooperativa registrava 43.450 garimpeiros, que, somados aos milhares de outros habitantes — que atuavam como donos de barranco, meia-praça, fornecedor, diarista, porcentista livre, renqueiro, além dos biscateiros, ambulantes, prostitutas, policiais, soldados, entre outros — iam prestar seus serviços na comunidade. O progresso de Marabá, hoje dividida em Cidade Nova, a emancipação de vários distritos e a criação de outras cidades como Eldorado de Carajás, Parauapebas, Ourilândia e Curionópolis, indica que o metal precioso montou a estrutura que hoje faz o visível PIB (Produto Interno Bruto) da região circular em enormes carretas de gado, madeiras e outros produtos para o resto do Brasil. Uma viagem à terra do ouroA cidade, que fica a 200 quilômetros de Marabá através de uma rodovia estadual asfaltada, mas, com cerca de 50 km em estrada de barro, se formou à borda do garimpo. Na rodoviária de Marabá o homem grita mais alto do que os seus concorrentes: “Olha o Serra Pelada! Olha o Serra! Olha o Serra! ...Serra Pelada, Serra Pelada...” Uma confusão generalizada, mas, ninguém se apressa. Faz parte do negócio, o alerta é de praxe. Aos desatentos, já parece ser a “corrida do ouro”. Mas, não é bem assim. Atualmente, não há nenhuma garantia de que o garimpo voltará a funcionar. Por enquanto, só há promessas. A cava de Serra Pelada está afundada num poço de mais de 40 metros de profundidade, devido ao abandono da área. Tudo isso, somado aos desmandos de Curió e ao desinteresse do Estado na resolução do problema da região, coloca as coisas bastante indefinidas. Há mais de 10 anos a garimpagem foi proibida. Não há, nem em Serra Pelada nem nas cidades à sua volta, atividades econômicas que garantam a vida do local. Nem mesmo agricultura de subsistência é praticada, pois, a cada dia, minguam mais as pequenas propriedades, destruídas pela sanha dos latifundiários da região — criadores de gado na sua maioria. A única coisa que se vê — uma constante durante todo o caminho — são as várias empresas mineradoras que vieram surgindo ao lado das carvoarias e madeireiras. A infra-estrutura que a CVRD criou na região para transportar as riquezas da região, como a Ferrovia de Carajás, que vai direto ao Porto de Itaqui, em São Luís do Maranhão, dá à paisagem local alguns traços de civilização. No mais, é abandono geral. Quem ganhou e quem ainda ganha com Serra Pelada?No auge da extração aurífera, muitos enriqueceram em Serra Pelada. Donos de terra, militares, empresários, políticos, grandes comerciantes e uns poucos garimpeiros. Depois desse momento, aqueles trabalhadores que ficaram na região e os que voltaram para suas casas, em outros estados, ficaram na miséria. Porém, um dossiê feito pelo Sindicato dos Garimpeiros de Curionópolis (Singarc), entregue ao Presidente Luís Inácio da Silva, dá conta da existência de um ativo de R$ 150 milhões pertencente aos garimpeiros, depositado na Caixa Econômica Federal (CEF). Este ativo corresponde ao paládio, prata e outros minerais preciosos, que eram as “sobras” do ouro, retidas pela CEF numa espécie de Fundo comum aos garimpeiros, usada para a promoção de benfeitorias na cava. Acontece que, depois do fechamento do garimpo, estas últimas “sobras” não foram restituídas aos donos, causando prejuízos a milhares de trabalhadores. Entretanto, esse valor (R$ 150 milhões), que deverá ser liberado para a Cooperativa, pode não corresponder aos valores exatos da dívida, considerando que só foram contabilizados valores depositados de um certo período em diante. Pode haver muito mais: “Existe muito dinheiro no Banco Central e na Casa da Moeda”, revela o presidente do Sindicato, Raimundo Benigno Moreira, acrescentando que “o garimpeiro só quer saber a verdade.” Transcrevemos parte do Dossiê do Sindicato dos Garimpeiros: Todo esse dinheiro, fruto do trabalho de milhares de garimpeiros, hoje se constitui num dos objetos de acirrada disputa entre o governo federal (através da CEF), os remanescentes do garimpo e os mandatários locais, com o ex-major Curió a frente. A disputa política entre o Sindicato e a Cooperativa, em torno da representação dos mais de 43 mil garimpeiros, movimenta muitos outros interesses. O recadastramento dos garimpeiros acampados em Marabá desde março de 2002, era o pomo da discórdia. Isso porque, quem estivesse recadastrado, eventualmente, teria participação nos próximos acontecimentos do garimpo. A princípio, a cooperativa era contra, e o sindicato a favor. Depois do assassinato do sindicalista Clênio, o consenso foi estabelecido e o serviço está sendo feito. Cabe ressaltar, que este crime é apenas um dos muitos cometidos em função desta disputa, para a qual concorrem forças poderosas da região. Curió, novamente, é acusado de ser o mandante também da morte do sindicalista Mauro Eurípedes Martins, em março de 1996 — outro que, também, se opôs, abertamente, ao seu projeto de dominar a Serra. Indo ao fundo da questão, percebe-se, claramente, que não são os interesses dos garimpeiros que estão em disputa. Há uma manipulação feita por Curió para jogar povo contra povo, como ressaltamos na edição n.º 5 de AND. São os milhões de reais que se pode lucrar em Serra Pelada os motivos do conflito. Hoje, os garimpeiros reivindicam o pagamento de indenização ou título de posse da terra e das benfeitorias, aposentadoria especial para os trabalhadores, reintegração à Cooperativa dos que voltaram para suas cidades, destituição de diretoria através de ação judicial simples, não pagamento de taxas mensais à Cooperativa e, o principal, a utilização dos R$150 milhões da CEF no rebaixamento da cava e futura mecanização do garimpo. Elas são justas e não representam nada, perto da quantidade de riqueza que foi e ainda pode ser extraída de Serra Pelada. Sobre o futuro do garimpo, uma coisa é certa: há muita coisa a extrair ainda de Serra Pelada. Conforme ouvimos no local, somente a Companhia Vale do Rio Doce sabe o valor real da mina. “Sabemos que a CVRD foi a única empresa a efetuar trabalho de sondagens na área ultimamente, cabendo a esta informar ao DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral) o resultado da pesquisa”. O pensamento das lideranças é o funcionamento do garimpo através de uma parceria com empresa. A mecanização do garimpo viria e os garimpeiros ficariam em casa recebendo os lucros, diz o Secretário da Cooperativa. Como isso seria posto em prática, é ainda uma incógnita. Uma das grandes divergências entre as duas entidades é, justamente, a dívida de quase R$ 100 milhões — considerada fraudulenta — adquirida pela Cooperativa na gestão Curió. A Justiça quer condicionar a liberação dos recursos da Caixa Econômica Federal ao pagamento desses credores. Ninguém sabe como essa história de exploração, miséria e violência contra trabalhadores pode terminar.
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