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Ano 1, n.6, janeiro de 2003 |
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Esporte como atividade livreO futebol 24 horasWilson de Carvalho
Quem passa pelo Aterro do Flamengo de automóvel ou de ônibus, principalmente durante a madrugada, se surpreende com os oito campos constantemente ocupados. Mas, que tipo de gente vai correr atrás de uma bola, num horário desses? Desocupados? Maníacos? De forma alguma. São garçons, pessoal de apoio das churrascarias, dos hotéis e, basicamente, os profissionais que trabalham em horários ingratos. Terminado o expediente, nada de mais encarar um campinho. A bem da verdade, há alguns outros que retificam, por conta própria, o conceito científico de tempo necessário e incluem como afazeres bater uma bolinha em plena madrugada. O horário é livre de lh às 6h. Mas, nesta época do ano não é nada fácil encontrar vaga naquelas quadras, porque, afinal, é verão. Durante o dia, é bem mais difícil. Não se pode jogar sem antes irà sede da administração do parque, em frente à rua Correia Dutra, no Flamengo, e procurar a administradora, Ana Cícero Machado, ou o assessor Maurício de Carvalho, às terças-feiras. Cumpridas algumas exigências, que incluem apresentação de documentos originais, o responsável pelo horário liberado, recebe uma cópia da autorização com os telefones da administração do parque, da Guarda Municipal, Corpo de Bombeiros, hospitais mais próximos, os chamados serviços de segurança e pronto. Que vá ocupar, com seus amigos, o campo que lhes é de direito. “Sem essa providência, ninguém pode jogar no Aterro. O controle é total e, para isso, há também a exigência de renovação mensal da autorização concedida aos responsáveis. O cadastramento é feito há cinco anos”, explica Ana Cícero. Em média, há 50 pessoas representando dezenas de equipes. Todas registradas, incluindo escolinhas e times de veteranos. “Nós, da administração, sabemos quem está jogando em qualquer horário, a não ser de 1h às 6h, quando o futebol é livre, de quem chegar na frente”. A prioridade, e não poderia ser de outra forma, é para as escolinhas. Só é permitido jogar com tênis ou descalço, para não danificar a grama sintética, garantiu o assessor Maurício de Carvalho. Poder público nega material de jogoHá 18 anos, José Calixto, um cearense que chegou ao Rio com apenas quatro anos de idade, freqüenta o parque. Antes, jogando por times da rede hoteleira. Hoje, como diretor de esportes do Sindicato do Trabalho no Comércio Hoteleiro e Similares do Rio. Por isso mesmo, conhece todos os segredos do futebol do Aterro. Calixto, sem exagero, é o homem-chave de toda a organização, desde a elaboração de tabelas e regulamentos de campeonatos, rateio para as despesas gerais, bolas, redes, até uniformes —o que é negado pelo poder público, exceto quando se aproximam as eleições. “Às vezes, mesmo quando há material de sobra, eles nos negam. Isto aconteceu no Miécimo da Silva, na Zona Oeste. Por mais que explicássemos a finalidade — futebol no Aterro — e nossa militância, sempre correta e construtiva há quase 20 anos. Depois de muitos apelos, conseguimos algum material, ao contrário de um político que, apenas numa leva, pegou 500 uniformes. Mas, é assim mesmo em todas as partes desse país. Quando é para ajudar o povo, ainda que se trate das coisas mais simples, não sai nada. Ou dão uma esmolinha um dia ou outro, sem nenhum resultado prático. Já fizemos um projeto piloto para a Fundação São Martinho, que dizem ser de amparo à criança de rua, mas, nada conseguimos. Mas, se você for lá, verá uma sala com todo o conforto para a pessoa que dirige o setor, enquanto as crianças ficam jogadas. Os órgãos públicos chegam a nos humilhar. Deveriam ser do povo, mas, são deles”. É assim que funciona este país, protesta José Calixto. Antes, vigoravam o crime e as máfias no AterroNão fosse a ajuda mútua dos participantes, que se cotizam para as despesas com redes, bolas, taxas de arbitragem, pagamento de mesários e outros profissionais imprescindíveis à organização, além do apoio de sindicatos, em especial o de hoteleiros e similares, presidido por Raimundo Cassiano de Sousa, o futebol do Aterro não teria sobrevivido, a exemplo do que já ocorre nas praias, onde os campeonatos praticamente foram extintos. “Os hotéis também nos ajudam na parte financeira e facilitam, liberando os funcionários para as competições, ou mesmo, liberando do trabalho em caso de alguma contusão durante os jogos. Como era antes de chegarmos, as máfias negociavam autorizações, monopolizavam tudo. Aconteceu até de um cara ser assassinado a facadas. Era uma terra sem lei. Um dia, encostou um carro, dele saíram três caras armados, e levaram os troféus que seriam entregues, momentos depois, aos campeões. Já teve briga de fechar o trânsito. Hoje, está tudo tranqüilo, muito bem organizado. Bem ao contrário do futebol profissional”, assegurou Calixto. Apesar do ótimo exemplo dos enormes benefícios que o futebol no Aterro proporciona a centenas de pessoas, não há similar no Estado do Rio. Ao contrário, extinguiram praticamente todos os espaços para a prática de esportes. E, além do poder público, avesso, principalmente ao ensino para as massas, as grandes empresas privadas também negam apoio. Por isso mesmo, as promoções de competições dificilmente voltarão a acontecer. “Mais lamentável ainda: tomamos conhecimento do apoio que órgãos públicos dão a atletas profissionais que têm salários milionários. Agora, prestigiar um trabalho como o nosso, de valorização do ser humano, de fortalecimento de amizade, companheirismo, de melhorar a própria produção no trabalho, ou até afastando pessoas dos vícios... para isso não há dinheiro. Já presenciamos times inteiros chorando de alegria e emoção depois da conquista de títulos. Quanto bem isso faz ao ser humano... As mulheres que disputam amistosos, estão reivindicando um campeonato — viabilidade já em estudo para programação. Para o poder público nada disso interessa. O que interessa mesmo, todo o povo sabe”, protesta Calixto. “Há doze anos, participo do futebol do Aterro. Funciona, sobretudo, como atividade prazerosa, indispensável para o ser humano. Fazemos e solidificamos amizades, o que ajuda muito no trabalho. Neste tempo todo, tenho visto, também, muitos futuros craques se perderem por falta de “padrinhos” para ingressarem nos chamados clubes grandes. Em geral, acabam indo para o exterior, anonimamente, ou aproveitados nas divisões inferiores dos campeonatos profissionais. O modelo que praticamos no Aterro, poderia servir para todo o país, ajudaria muito a milhões de pessoas, disse Rodrigo, do Hotel Novo Mundo. “Precisava ter mais campos, porque sobra muita gente. Às terças e quintas-feiras, das 15h às 17h, estou sempre jogando, o que me faz sentir muito bem no próprio trabalho. É uma grande terapia, a melhor que existe. Antes, vivia nervoso, tantos os problemas das cidades inchadas. Moro em Gramacho, mas, depois do trabalho, num prédio de Botafogo, venho jogar”, afirmou o porteiro Manoel Ferreira da Silva. Café com leite e pão para os mais pobresEntre as muitas iniciativas de José Calixto, a Escolinha de Futebol Ouro Preto é a que mais o deixa orgulhoso. Fundada em 1978, foi a primeira do Aterro. Hoje, existem mais sete, entre elas a JJ, CN Seleção e o Centro Esportivo Infantil do Pedro II. Esta, com um trabalho, também, no hospital psiquiátrico que lhe empresta o nome, no bairro do Engenho de Dentro. “Na escolinha do Pedro II, fornecemos café com leite, pão, principalmente para crianças negligenciadas pelo Estado, já que a prática de esporte sem alimentação regular traz um efeito retroativo. Temos equipes de voluntários se revezando 24 horas, sem qualquer recompensa financeira. Eu pediria até que vocês publicassem os telefones, para que mais crianças cheguem às nossas escolinhas. Esse é o trabalho que mais nos gratifica”, conclui Calixto. Os telefones da escolinha são:
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