Ano 1, n.7, março de 2003

Ao preço do Galpão...

É uma infinidade de monitores, teclados, impressoras, scanners, enfim, todo tipo de quinquilharia tecnológica empilhada ordenadamente em um galpão na Rua do Livramento. Ali, num espaço de 1200 m², Luiz Eduardo Villa e seu sócio, Altair Costa, comandam uma curiosa fábrica que, funcionando atualmente com 13 empregados, se especializou na reciclagem e revenda de computadores e afins.

“A idéia surgiu há dez anos, quando eu, com alguns amigos, decidi repassar sobras de formulários contínuos de uma empresa multinacional.” — conta Luiz. A partir daí, visitando depósitos de outras empresas, ele notou a existência de um vasto mercado potencial de remanejamento de tecnologia, do chamado “lixo tecnológico”, e resolveu apostar nesse filão.

Luiz adquiria equipamentos obsoletos e, em seguida, fornecia-os a técnicos e empresas de manutenção. Com o tempo, a sociedade em geral — o que compreendia uma gama enorme de estudantes, professores, profissionais liberais, cursos de computação, etc. — passou a requisitá-lo cada vez mais, na esperança de comprar um computador que, apesar de recauchutado, poderia ser tão eficiente quanto um novo, embora tivesse um preço bem mais em conta.

“Se você é um expert na área de informática, é importante que tenha um computador de última geração, que possua mais recursos, mas se você é um mero usuário, vale muito mais a pena adquirir um dos nossos, visto que não adianta nada dirigir uma Ferrari em meio a um engarrafamento.” — compara Luiz.

Passou, dessa forma, a desenvolver um criterioso processo de reciclagem de máquinas, o qual consistia, basicamente, em comprar esse material, definir o que podia ser refeito e, após um trabalho de revisão, relançá-lo no mercado.

"A tecnologia está avançando mais rápido do que a sua própria necessidade"

Hoje, a All Business (mais conhecida como Galpão) vende cerca de 100 computadores por mês, a preços que variam de 200 a 1000 reais (financiados em até 12 vezes), concorrendo a valer com o comércio de máquinas novas. “Qualquer um compra aqui. Desde uma empregada doméstica até uma empresa. Por exemplo: agora um cliente está comprando uma máquina que já não é tão nova, no entanto, ele tem um curso de informática que é como uma auto-escola: coloca dez fusquinhas lá dentro e ensina o pessoal a dirigir, depois cada um compra seu carro novo. Não é preciso comprar uma máquina de 2 mil reais para ensinar Windows a ninguém” — explica o sucateiro.

Para Luiz, no entanto, o maior acerto do empreendimento está no fato dele ter democratizado, de certa forma, o acesso de pessoas de menor poder aquisitivo ao mundo da informática, concedendo-lhes mais uma ferramenta para competir no mercado de trabalho: “Se você vai fazer uma entrevista para ser balconista, vão te perguntar se tem, pelo menos, alguma noção de informática”. Nesse sentido, ele define para seu negócio três tipos de consumidores: o que deseja adquirir um computador, mas que não tem dinheiro para comprar um, o pessoal da área técnica e determinadas espécies de empresas.

De acordo com o Censo 2000, mais de 10% da população brasileira possui um computador em casa, número bastante expressivo, se levarmos em conta que o percentual de domicílios que possuem ar-condicionado, por exemplo, é ainda menor. Diante disso, fica evidente que o micro está se tornando uma necessidade cada vez mais premente, e iniciativas como essa só contribuem para que mais gente se situe em meio a esse enovelado de chips. Contudo, Luiz Eduardo alerta: “Nós não compramos de particulares, só de empresas. Não queremos correr o risco de adquirir mercadoria roubada”. Portanto, nem pense em se desfazer de seu cacareco por ali. E em face de tanta sucata, conclui: “A tecnologia está avançando mais rápido do que sua própria necessidade”.