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Ano 1, n.10, junho de 2003 |
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Administração imperialista na América LatinaChávez é ou não uma fraude?Domingo Alberto Rangel
Hugo Chávez não apareceu em 1992, nem chegou à presidência da Venezuela em 1998, por obra do azar. O crescimento de 1992 revelou a existência, no modelo petroleiro prevalecente na Venezuela, de uma profunda crise capaz de sacudir as estruturas dominantes. E a vitória eleitoral de Chávez em 1998 nos indica como os sistemas capitalistas, ainda os dependentes, como o da Venezuela, são capazes de cooptar e aproveitar qualquer insurgente que não seja revolucionário. O modelo petroleiro de crescimento capitalista vigente na Venezuela sofre, em 1983, um golpe mortal. Em fevereiro desse ano o governo venezuelano se vê obrigado a desvalorizar o bolívar, símbolo nacional de pagamento e a instaurar um controle de câmbio. A Venezuela era, até aquele momento, o único país latino americano que não conhecia o controle de câmbio introduzido por razões econômicas e cuja moeda nacional havia logrado ser mais forte que o dólar. Um só dado basta para comprovar a força do bolívar para aquele momento. Em 1900, oitenta e três anos antes, a cotação do dólar em Caracas era de 5,20 bolívares; para 1983, às vésperas da chamada Sexta-feira Negra, sua cotação era de 4,3 bolívares. Nenhuma outra moeda latino-americana conseguiu valorizar-se frente ao dólar como o bolívar, como provam estas cifras. Chávez e os militaresAs desvalorizações, que começam a se suceder desde 1983 em um país de proverbial estabilidade de câmbio até então, golpeiam com crueza tanto os militares de baixa patente como os marginais e os operários. Na Venezuela, a oficialidade do exército vem dos estratos mais humildes da classe média. Famílias deserdadas, sem recursos para enviar seus filhos para a universidade, optam por mandá-los para as escolas militares, onde têm ensino, alimentação, vestuário e alojamento gratuitos. Mas os militares, até chegar aos graus superiores da carreira, levam vida modesta. Não têm acesso aos frutos da corrupção que na Venezuela é endêmica e eterna, só quando alcançam os graus de coronel e general, já nos cumes da hierarquia, os militares mergulham nas águas deliciosas e proveitosas da corrupção.
A Sexta-feira Negra, e as desvalorizações que se seguiram em cadeia incessante, semearam o mal-estar entre os militares de baixa graduação a partir de 1983. Ali estão as raízes da insurgência militar de 4 de fevereiro de 1992, acaudilhada por Hugo Chávez. Foi a dramática advertência acerca da crise que vinha sofrendo o modelo petroleiro desde muito antes. Quando as crises saltam ao terreno militar é porque já despertaram a velha parteira da história, da qual falava Marx. O 4 de fevereiro foi o ápice do descontentamento e o canhonaço de um vulcão que entrava em erupção. Chávez é cooptadoNo momento em que Chávez, cabeça militar, irrompe aquele 4 de fevereiro de 1992, dentro da burguesia venezuelana há uma pugna crucial entre alguns estratos dessa classe. Deve advertir-se algo elementar, mas sempre suscetível de ser esquecido: nenhuma burguesia é homogênea ou monolítica, como tampouco o são as outras classes de uma sociedade. Em toda burguesia há frações ascendentes, estancadas ou declinantes, segundo o volume de sua acumulação de capital e os ramos da economia em que elas atuem. Chávez e a esquerda cansadaQuando Chávez emerge do cárcere, em 1995, anistiado por Rafael Caldera, que havia tomado posse da presidência em 1994, há na Venezuela um arquipélago de grupos e personalidades de esquerda cansados de esperar o poder mediante a luta eleitoral, decepcionados com o papel de coadjuvantes na vida parlamentar, desmoralizados pela corrupção, que na Venezuela é universal. Devemos dizer que na Venezuela é corrompida a sociedade antes que o Estado, nela radica a primeira fonte da corrupção e uma esquerda, ou toda a esquerda legal, termina se corrompendo. Para essas parcelas da esquerda já corrompidas, desenganadas ou fatigadas, em 1995, Chávez foi a estrela de Belém. Prometia tirar-lhes do papel de coadjuvantes da Ação Democrática ou da COPEI, Chávez prometia resgatá-los do pequeno pântano em que viviam com pequenos roubos, para levá-los a grandes roubos. Assim veio a possível vitória de Chávez, já possível em 1998. E correram a rodeá-lo. Como se pode ver, Chávez, no poder desde 1999, é produto de uma aliança tácita ou expressa entre certa burguesia emergente e os resíduos de uma esquerda já sem princípios nem dignidade. Desse híbrido nasce seu governo. O campo internacionalNo tempo em que vivemos, todo enfoque político que não contemple ou valorize a incidência do campo internacional sobre um país estaria viciado de nulidade absoluta. Ainda nos tempos do imperialismo clássico, quando o sistema internacional era tutelado pela Grã Bretanha, esse axioma era evidente. Hoje, é indiscutível. A crescente integração de todas as economias, já irreversível e a crescente gravitação dos pólos dominantes sobre a vida nacional torna quase nulo o Estado-Nação ou o mantém na medida ou até o ponto em que responda às necessidades do grande complexo internacional imperialista. Estes postulados, de recordação obrigatória quando se faz qualquer análise, resultam mais imperativos quando se trata de um país latino-americano e, por semelhança, caribenho, como a Venezuela, onde o império norte-americano tem seu backyard tradicional. O desenlaceChávez enfrenta a oposição conspirativa dos velhos troncos oligárquicos favorecidos pela AD e COPEI. Na aparência, a Venezuela de Chávez está em guerra civil. Isso não é certo. Para que haja uma guerra civil em nosso tempo é preciso que dos dois bandos políticos contrários em um país, um deles seja autônomo ou independente do imperialismo ianque. Nem Chávez nem a oposição são autônomos frente ao imperialismo. A ambos os maneja ou supervisiona a embaixada norte-americana.
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