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Ano 1, n.10, junho de 2003 |
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Personalidades do cinema nacionalA arte fiel ao povoRosa Minine
Nascido em Alegrete-RS, em 19 de outubro de 1940, Paulo César de Campos Velho, aos 16 anos iniciou, em Porto Alegre, a carreira de ator, adotando como nome artístico Paulo César Peréio, um antigo apelido. O Arena, uma grande escola"Eu me interessei e procurei alguém que pudesse me ajudar. Assim, me aproximei de um vizinho que fazia teatro e, através dele, fiz um teste e entrei para uma peça. Logo, ainda em Porto Alegre, fundei um grupo de teatro chamado Teatro de Equipe, que tinha como modelo o Teatro de Arena de São Paulo", conta o ator, que mais tarde foi trabalhar no próprio Teatro de Arena. "O Teatro de Arena criou uma dramaturgia no Brasil. Dali surgiram peças brasileiras com um tipo de teatro de influência naturalista." Fundado em São Paulo, em 1953, o Teatro de Arena teve como principal característica a nacionalização do palco brasileiro, onde jovens atores representavam e discutiam concretamente a vida do povo brasileiro.
A partir da estréia de Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958, um farto estoque de peças surgiu no Arena, em meio a um estrondoso sucesso de público e casa cheia, como Arena conta Zumbi, A semente, Roda-viva, Revolução na América do Sul, entre outras. O Arena também foi o primeiro grupo teatral da América Latina a utilizar a cena circular - envolvida pelo público -, dispensando os grandes cenários e atuando em locais improvisados. Além disso, influenciado pela obra brechtiana, o grupo se preocupava em conceber um teatro político em que o espectador se deparasse com a realidade feita das mais agudas contradições sociais. E não bastava revelar a esse espectador o rosto inteiramente descoberto, "puro e terrível" do capital, mas elevar seus sentimentos ao nível do raciocínio. Produzindo e aprendendoPaulo César Peréio conta que um ator quase não se envolvia com cursos, entrando em cena porque tinha "jeito para o negócio", e aprendendo no próprio palco: "mais tarde tive oportunidade de frequentar cursos de teatro, mas me encontrava tão envolvido no procedimento profissional, que mais parecia uma convivência com professores; entre eles Eugênio Kusnet, Klaus Viana e Fauzi Arap." "Houve um período do teatro brasileiro, décadas de 50/60 principalmente, que existiam pessoas espetaculares, grandes mestres, como Fausi Arap. Trabalhei com o Fauzi e tenho impressão que muita coisa que desenvolvi em artes dramáticas foi graças a ele. É claro que tínhamos estilo semelhante, tanto que Eugênio Kusnet criou o seu método, segundo ele, inspirado no Fauzi Arap e também em mim", comenta Peréio, acrescentando que recebeu, ainda no rascunho, o método de Eugênio Kusnet: Método da Ação Inconsciente, que depois se transformou em livro. O ator e diretor de teatro Eugênio Kusnet, (1898-1975) foi um dos poucos artistas no Brasil a juntar, de forma satisfatória, os conceitos de interpretação de Stanislavki - segundo os quais o ator deve buscar inspiração na emoção e na dramaticidade -, e de Bertolt Brecht - que defendia uma atuação marcada pela racionalidade, pelo distanciamento (ou "estranhamento"), colocando a narrativa em primeiro plano. Como ator, participou da mudança no estilo de encenação teatral no Brasil na década de 50, quando texto, diretor e atores eram conjugados em uma unidade artística. Esse diretor teve grande influência na carreira de Peréio, que se orgulha de ter convivido e trabalhado com ele na peça Os inimigos, de Máximo Gorki, no Teatro Oficina, em São Paulo. Escolhendo personagensPeréio, mantendo a coerência entre as suas opinião e atitude diante da vida, "escolhe" os personagens que interpreta: "Acredito que não tenho me comportado de uma maneira frívola em relação à política, história, cinema, teatro, televisão, minha carreira e tudo que está a minha volta. Portanto, quem encara essas coisas com frivolidade não me chama para um trabalho. É desta maneira que escolho indiretamente um personagem", explica. O valor monetário da arteSendo um combatente chamado a expressar abertamente os ideais da liberdade, Peréio conheceu a prisão no período do gerenciamento militar no Brasil. Acidentes de trabalho à parte, Peréio é um desses milhares de artistas aptos a responder, sob diversos aspectos, o quanto se deve pagar para assistir a verdade, inclusive do ponto de vista monetário. Se para o repressor o preço da liberdade "é a eterna vigilância", um de seus vizinhos, o artista "neutro", ao sustentar a valorização do espetáculo através de ingressos caríssimos, consegue transformar até mesmo a mais feroz crítica ao explorador num "conselho de amigo".
Na relação entre arte e povo, Peréio é um tenaz defensor de ingressos a preços compatíveis com a renda do trabalhador brasileiro, utilizando-se, para isso, dos mais diversos recursos, como por exemplo, de espetáculos organizados em temporadas populares, sem prejudicar os trabalhadores da arte e o próprio empreendimento. Em hipótese alguma isso encerra a questão da sobrevivência da arte nos dias atuais - tanto mais que as relações da arte com a economia mundial na fase mais degenerada são conflitantes - e o comodismo que defende a impossibilidade de encenar boas obras para o povo não se justifica. "Há pouco, produzi um espetáculo de teatro e o exibi por toda a periferia do Rio de Janeiro a preços populares. Mas para continuar um trabalho como esse, é necessário que exista um Estado que tenha obrigação para com a arte, bem como contar com governos que se preocupem em divulgar a cultura, porque a identidade cultural de um país é o seu próprio povo fazendo a cultura." Circuitos também aproximamPaulo César Peréio tem trabalhado intensamente no teatro e no cinema. Recentemente atuou no Teatro Oficina, na peça As bacantes, do grego Eurípides.
Peréio também não pára de aparecer nas telas de cinema. Somente no ano passado participou de doze curtas metragens e quatro longas, que ainda não foram lançados. São eles: Harmada, de Maurice Cappovila; O piadista, de Sérgio Resende; O apostador, de Gilberto Loureiro e O homem do ano, de José Henrique Fonseca.
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