![]() | |
Ano 3, n.25, Julho de 2005 | |
|
ÍNDICE Editorial Colônia do sistema financeiro mundial: Thmoskhenko e José Ferreira de Alencar na velha praça e nos corações Nova entrega do território brasileiro As viagens dos presidentes-camelôs Laboratórios estrangeiros: vacinas A transposição para o latifúndio Amazônia Sonho Real na paz dos cemitérios Os bravos homens do mar enfrentam ganância e opressão Índios Tapebas: Trabalhadores enfrentam livre trânsito dos trustes Censura tenta encobrir a história Bolívia Mais protestos, mais eleições! O presidente Saddam e a resistência Festival de futebol popular A música latina na voz do Tarancón Ruy Faria e Carlinhos Vergueiro: |
A questão indígena
Os valentes chiriguanos A história da pouco conhecida nação indígena da Bolívia, cuja origem pode ser brasileira, do litoral de Santa Catarina, que no século 19 optou pela resistência armada. Como toda verdadeira nacionalidade que pretende converter-se em nação, a Chiriguana (Ava) tem sua própria história e também naturalmente momentos especiais nos quais se manifestam, com toda a força, as aspirações de autodeterminação. Rosana Bond Jorge Echazú Alvarado registra, em sua obra El desafío de las naciones, que os chiriguanos supostamente foram ocupantes de uma área do Chaco bem próxima às montanhas andinas, “são um ramo importante dos tupi-guaranis que migraram a partir do Brasil, passando pelo Paraguai e paulatinamente vieram em direção à zona de assentamento atual, buscando o que eles chamaram, e chamam, de ´terra sem mal”. É possível que assim seja. Para escrever nosso mais recente livro, A saga de Aleixo Garcia: o descobridor do império inca, publicado há pouco pela Coedita, obrigatoriamente tivemos que pesquisar algo sobre os chiriguanos. Mas é preciso que façamos uma breve introdução. Aleixo Garcia, um marujo português que naufragou em Santa Catarina em 1516, personagem quase desconhecido no Brasil, realmente foi o “descobridor” dos incas. Adotado pelos guaranis-cariós catarinenses, viveu anos nas redondezas da atual Florianópolis, junto a esses índios. Por volta de 1523, os guaranis contaram a Aleixo um precioso segredo: havia um caminho sagrado, conhecido como Peabiru ou Tape Avirú, que saía do litoral de Santa Catarina e levava até os Andes. Lá habitava um povo que tinha cidades de pedra e também muito ouro e prata. Eram os incas. Aleixo, acompanhado de uma multidão de índios, fez a enorme caminhada. Atravessando Santa Catarina, Paraná e Paraguai, finalmente chegou ao Alto Peru (atual Bolívia), em pleno império inca, descobrindo aquela importante civilização pelo menos sete anos antes do espanhol Pizarro. Em nosso livro, levanto a questão: como os cariós de S. Catarina, ponto situado a milhares de quilômetros da cordilheira dos Andes, tinham informações tão precisas? A resposta é relativamente simples. Acontece que os cariós do Paraguai e outros grupos guaranis faziam entradas aos Andes há centenas de anos, provavelmente através do fácil Caminho de Peabiru. Portanto, diz o paraguaio Júlio Cesar Chaves, “era lógico que os índios da costa brasileira e do estuário (do rio da Prata) tivessem uma boa informação, pois pertenciam à grande família dos guaranis”. Como os cariós de Santa Catarina e os cariós de Assunção faziam parte do mesmo grupo, era de supor que os conhecimentos sobre a área andina fossem partilhados por ambos, não se podendo descartar, inclusive, que alguns guaranis do litoral catarinense tivessem participado pessoalmente de tais viagens. Os autores que estudaram a freqüente presença dos guaranis na cordilheira andina a classificaram de diversas formas: como migração, invasão, ofensiva, guerra ou tentativa de conquista. “...Pode-se dizer que estes grandes movimentos não integram tanto a proto-história dos povos guaranis como sua própria história, pois até sua cronologia é possível reconstruir, embora não com muita certeza, devido à confusão e contradição documental”, diz Efraim Cardozo. Por volta do ano 1400, aproximadamente cem anos antes da conquista da América, teria havido um notável ataque dos guaranis às terras incas. “...Haverá como cem anos que, daquela parte onde está a cidade de Assunção, saíram companhias e quadrilhas deles (guaranis), os quais passaram por grandes bosques e povoações e chegaram às serras do Peru onde fizeram grandes guerras...”, diz um antigo documento anônimo, da respeitada coleção de D. Blas Garay. O grupo guarani, de acordo com relato do padre Diego de Alcaya, era bastante numeroso: ”...Alistaram-se até oito mil índios guaranis, grandes flecheiros, com suas mulheres e filhos e uma intenção de não voltar mais a seu (território) natural...”. Essa descrição de Alcaya nos leva a pensar que esse deslocamento teve como objetivo a migração e não um ataque guerreiro, já que os guaranis levavam consigo mulheres e crianças. De qualquer forma, no interior da atual Bolívia acabou acontecendo o primeiro confronto armado, no qual os guaranis mataram os capitães incas Guacané e seu irmão Condori, a quem chamaram “os filhos do Sol”. Esses dois peruanos teriam sido enviados pelo soberano Tupac Inca Yupanqui para conquistar aquela área boliviana e usavam vestes muito ricas. ”...aos dois capitães puseram o nome de filhos do sol, pelo tipo de vestimenta que tinham e pelas chapas de ouro e prata fixadas em suas túnicas...”, observa Alcaya (Nota da autora: se a data de 1400 está correta o monarca era, então, Pachacútec Inca Yupanqui.) Ao saber, em Cuzco, capital do império, da morte de seus dois comandados, o Inca (soberano) enfureceu-se e enviou “mais de seis legiões” para conter os invasores guaranis, diz Alcaya. O encontro das tropas adversárias teria se dado em plena cordilheira. Quinhentos guaranis teriam morrido e 200 presos. Outros teriam conseguido escapar de volta ao Paraguai e uma parte teria ficado dispersa nos sopés da cordilheira, dando então origem aos índios chiriguanos (chiriguanás). Os 200 prisioneiros teriam sido conduzidos a Cuzco e, por ordem de Tupac Yupanqui (ou de Pachacútec), atados num cume nevado, completamente nus e com as mãos e os pés amarrados. Como os guaranis eram oriundos de terras quentes, acabaram morrendo de frio. ”Ao saber disso, o Inca levantou-se de seu trono, muito contente e exclamou em voz alta: Halla, halla, Chiripiguanachiri!” conta o autor anônimo da Descripción del rio de la Plata. Acreditamos que a exclamação do Inca tenha sido: “Allallau! Chiripiguanachiri!” No idioma quêchua, praticado pelos incas, allallau é a mais corriqueira interjeição exprimindo o sentir frio. Expressão sem correspondente em português, seria algo parecido com “brrr! brrr!”. Assim, a frase de Yupanqui poderia ser traduzida como: “Brrr! Brrr! Foram castigados pelo frio! ou “Brrr! Brrr! Não agüentaram o frio!”. O vocábulo chiri-piguanachiri é derivado de chiriguanaj (pronuncia-se chiriguaná), que significa “aquele que não agüenta o frio” ou “aquele que se amedronta com o frio”. Os cronistas Pedro Sarmiento de Gamboa (1570) e Miguel Cabello Balboa (1586) dizem que o episódio relatado acima ocorreu no reinado de Huayna Capac, portanto bem mais tarde. E Erland Nordenskiöld no artigo A invasão guarani ao império inca no século 16: uma histórica migração indígena também dá a entender que essa invasão aconteceu na época de Huayna e que se refere àquela realizada por Aleixo Garcia e os indígenas da Ilha de Santa Catarina. Como se vê, é grande a confusão de datas e protagonistas. Mas, quanto ao fato em si, uma coisa é certa: ele efetivamente aconteceu. Os guaranis remanescentes dessa guerra — que segundo Gandia durou dois anos — e que ficaram dispersos nas encostas da cordilheira boliviana, receberam o nome de chiriguanás (chiriguanos, chiriuanos). Por serem considerados pelos incas, de forma geral, como o povo cujo organismo não suporta temperaturas baixas. Com o tempo, o designativo chiriguanos parece ter se ampliado entre os andinos, servindo para nomear genericamente todos os guaranis, incluindo os do Paraguai e do Brasil. Sobre a busca da Terra Sem Mal pelos chiriguanos, mencionada por Echazú Alvarado, em nosso livro consideramos importante levantar a seguinte questão: O que teria motivado as entradas dos guaranis nos Andes durante centenas de anos? A resposta constitui um desafio. Enquanto as migrações em direção ao leste, ao oceano Atlântico, foram exaustivamente estudadas e parecem ter um componente religioso — a busca do paraíso, chamado de Terra Sem Mal — os movimentos no rumo do oeste, para os lados da cordilheira andina e do oceano Pacífico, ainda estão no terreno das hipóteses. Uma delas seria a de que as caminhadas guaranis ao oeste também teriam um viés religioso. Seria a tentativa de aproximarem-se do deus Tupã, ou Tupá. Uma divindade “cuja morada se localiza na direção oeste, no poente” (Maria Dorothea Post Darella, Ore Roipota Yvy Porã — Índios guarani, terras, meio ambiente e cultura no litoral de Santa Catarina). Os pontos cardeais, vistos pelos guaranis em conformidade com o sol e com seu trânsito pelo céu, serviriam de morada a deuses e deusas — também conhecidos como “pais” e “mães” das almas. Esses indígenas identificavam e ainda identificam, segundo Maria Dorothea, cinco regiões celestes: o nascente do sol (leste), o poente (oeste), o norte, o sul e o zênite. As quais, respectivamente, seriam moradas dos deuses Karai, Tupã, Jakaira, Kuaray e Nhanderu. O astrônomo Germano Bruno Afonso, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em palestra no 6º Encontro Brasileiro de Planetários e 6º Encontro Brasileiro de Ensino de Astronomia, realizado em Florianópolis em outubro de 2001, afirmou que tanto o leste quanto o oeste ocupam lugar de destaque na religião e no mito guarani. Uma antiga história fala de dois irmãos (Tupi e Guarani) que viviam juntos e um dia tiveram que separar-se. Os deuses então recomendaram que Tupi procurasse estar sempre perto do nascente (leste) e que Guarani se dirigisse ao poente (oeste). O cacique Werá Tupã (Leonardo), da aldeia do Morro dos Cavalos (SC), em depoimento que reproduzimos em nosso livro, disse que os guaranis procuravam a Terra Sem Mal em todas as direções. “A Terra Sem Mal não existe na Terra, está em outra dimensão. A busca desse Caminho da Terra Sem Mal para cada grupo guarani era diferente. Buscavam em todas as direções. Uns no leste, outros no oeste, norte e sul.” |
|