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Ano 4, n.27, Novembro de 2005 | |
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ÍNDICE A dívida pública e o paraíso da agiotagem Limite dos juros. Quem governa o país? Figura exponencial da República De onde provém a crise atual e no que resultará? E nos tornamos um país governado por alienados Greve em defesa da educação pública Rodoviários derrotam ministro da CUT Ato de desagravo repudia perseguição política a lideranças populares Tupiniquins e Guaranis x Aracruz Funcionários da Funasa estão envenenados "Russo" recebe solidariedade internacional Viva os 10 anos da resistência camponesa em Corumbiara Porque é justa a causa camponesa A questão do nióbio - ou diga não à doutrina da subjugação nacional Penitenciárias e Estado criminoso A construção das assembléias populares Evo Morales e García Linera Venezuela: camponeses impulsionam Revolução Agrária Bush quer que Israel seja o maior Estado do Oriente Médio Saddam Hussein está à altura do momento histórico do Iraque Cultura popular é marca brasileira na França O brasileiro Taiguara no Japão |
Cultura brasileira
Cultura popular é marca brasileira na França Personagens do ideário nordestino estão sendo apresentados em exposições itinerantes
Universo da Literatura de Cordel. Este é o título de uma exposição itinerante sobre cordéis, xilogravuras e o mundo da cantoria do nordeste brasileiro que circulará por três cidades francesas até janeiro do ano que vem, como parte das festividades programadas durante o ano Brasil-França. Segundo a pesquisadora Andréa Lago, da produtora paulistana Vide o Verso que concebeu o projeto, a exposição apresenta uma visão panorâmica — e atual — de temas regionais (e universais), tomando como ponto de partida a literatura popular em verso (cordel) e a xilogravura, manifestações da arte popular que ajudam a compor a fisionomia cultural do nordeste brasileiro e fazem refletir sobre a campanha de preservação do patrimônio imaterial da humanidade. Um dos principais enfoques da exposição é a existência de antecedentes franceses nas matrizes do nosso tradicional folheto ou cordel, chamado de littérature de colportage “que é, nada mais nada menos que a expressão literária da cultura popular medieval francesa, cujos traços, porém, são facilmente identificáveis na produção cordelística do nosso País”, lembra Andréa Lago. Com ambientação associada à cantoria e outras expressões de oralidade popular, o mundo das feiras livres e da poética de folhetos somada a imagens xilográficas da vida nordestina, a exposição Universo da Literatura de Cordel evoca, de roldão, a França medieval a partir do século 12 — o marco da canção de gesta — com personagens saídos das histórias de cavalaria para o imaginário brasileiro e, consequentemente, para a literatura de cordel centralizados na figura do imperador do Ocidente Carlos Magno, rei dos francos, e nos lendários Pares de França que levaria Miguel de Cervantes a criar a chamada triste figura de dom Quixote muitos séculos depois. O fio condutor da exposição é a trajetória pessoal do homenageado do evento, o xilógrafo e cordelista pernambucano J. Borges e o acervo do professor Raymond Cantel (1914-86). Cantel esteve no Brasil várias vexes e foi quem levou a obra de Patativa do Assaré (1909-2002) — o mais importante poeta popular do Brasil — para ser estudada na Cadeira Popular de Literatura Universal da Sorbonne, nos fins dos anos 70. Os curadores da mostra são o folclorista Roberto Benjamin e a diretora do Fonds Raymond Cantel, Ria Lemaire. O projeto está sendo patrocinado pelo Banco do Nordeste do Brasil, com o apoio da Natura e da Rexam. E depois do carnaval... Além de J. Borges, o projeto levou à França os xilogravuristas Ivan Borges, Marcelo Soares e o cantador repentista pernambucano Oliveira de Panelas. A iconografia da exposição, inaugurada no dia 7 de setembro, na Bibliothèque Alcazar, em Marseille, inspira-se na obra de J. Borges. Quem assina a expografia é o designer Clóvis Arruda, que contou com a orientação do cenógrafo e artista plástico Guto Lacaz. Depois de Marseille, a exposição seguiu para Poitiers, cenário de grande e vitoriosa batalha liderada por Carlos Martel (avô de Carlos Magno e fundador da dinastia dos carolíngios) contra os árabes, no ano de 778. A última etapa da exposição ocorrerá em Paris, no dia 26 de dezembro. A mesma exposição circulará por algumas cidades brasileiras, “provavelmente após o carnaval”, informa Andréa Lago. Bonecos em tamanho natural e grandes painéis em tecidos rústicos convidam para a imersão num universo diferente aos olhares estrangeiros. É assim que os franceses estão vendo a exposição Universo da Literatura de Cordel. Figuras que lembram personagens históricos como padre Cícero, Lampião, vaqueiros encourados, romeiros e cantadores repentistas povoam o local da exposição, atraindo atenções para os textos explicativos que oferecem pistas claras sobre o mundo do cordel. — É uma exposição lúdica, viva e envolvente que procura atingir todos os sentidos do visitante — resume Andréa Lago, acrescentando: — Patrícia Palumbo assina a trilha sonora da exposição que foi desenvolvida visando cada ambiente expositivo através de pesquisa entre cantadores nordestinos e músicos contemporâneos de forma a contemplar toda a diversidade musical do Nordeste. Além disso, temas importantes de nossa MPB que tiveram inspiração nas histórias ou na métrica do cordel também compõem essa trilha. Cantoria, cordel e xilogravura são componentes de uma arte trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses e que se desenvolveu no Nordeste, uma das cinco regiões do Brasil formada por 9 Estados e que apresenta um mundo de beleza excepcional, tanto pelas paisagens impressionantes quanto pela riqueza e diversidade de sua cultura. No Brasil, desde o final do século 19, os poetas imprimiam poesias nas tipografias para vendê-las sob a forma de livretos ou folhetos de cordel, assim chamados por serem expostos à venda em cordões ou barbantes esticados entre um ponto e outro. Além de poesia, esses folhetos abrigavam pequenos textos em prosa nas suas origens portuguesas, depois brasileiras. Na impressão dos poemas juntou-se a necessidade de oferecer ao público uma capa que resumisse o seu conteúdo, a sua história, já que os poemas contavam e ainda contam histórias. Foi assim que os poetas tornaram-se também gravadores. O passar do tempo fez com que se colocassem nas capas desses folhetos fotos de artistas do cinema americano e desenhos estilizados e coloridos, mas isso não foi uma generalização. A partir dos anos 60, um pouco antes talvez, após a publicação de luxuosos álbuns de gravuras feitas por iniciativa de pesquisadores e intelectuais, a xilografia passou a ganhar autonomia e o status de arte, com direito à projeção nacional e internacional. Hoje, é reconhecida como uma das maiores contribuições do Nordeste ao cenário das artes plásticas brasileiras, especialmente à arte naïf ou primitivista, como mais das vezes é chamado esse tipo de arte popular. J. BORGES — Além da boa reputação que angariou durante anos e anos como poeta de cordel, José Francisco Borges, o J. Borges, é considerado hoje como um dos maiores gravadores brasileiros. Pernambucano de Bezerros, ele já foi comparado até a Picasso pelo jornal nova-iorquino The New York Times. Ilustrou livros do uruguaio Eduardo Galeano, de escritores brasileiros e de outros estrangeiros, além do relatório anual do Centro David Rockfelller, dos Estados Unidos. A maior biblioteca do mundo, a do Senado norte-americano, sediado em Washington, possui uma coleção de seus trabalhos. J. Borges é o principal artista popular brasileiro na área de xilogravura e cordel. No próximo dia 20 de dezembro completará 70 anos (começou a trabalhar aos 10 anos de idade na agricultura e profissionalizou-se como poeta de bancada aos 25). Já expôs em vários países. Por seu trabalho, recebeu a Medalha de Honra ao Mérito Cultural da Presidência da República do Brasil e o Prêmio UNESCO 2000. |
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