![]() | |
Ano 4, n.27, Novembro de 2005 | |
|
ÍNDICE A dívida pública e o paraíso da agiotagem Limite dos juros. Quem governa o país? Figura exponencial da República De onde provém a crise atual e no que resultará? E nos tornamos um país governado por alienados Greve em defesa da educação pública Rodoviários derrotam ministro da CUT Ato de desagravo repudia perseguição política a lideranças populares Tupiniquins e Guaranis x Aracruz Funcionários da Funasa estão envenenados "Russo" recebe solidariedade internacional Viva os 10 anos da resistência camponesa em Corumbiara Porque é justa a causa camponesa A questão do nióbio - ou diga não à doutrina da subjugação nacional Penitenciárias e Estado criminoso A construção das assembléias populares Evo Morales e García Linera Venezuela: camponeses impulsionam Revolução Agrária Bush quer que Israel seja o maior Estado do Oriente Médio Saddam Hussein está à altura do momento histórico do Iraque Cultura popular é marca brasileira na França O brasileiro Taiguara no Japão |
A Resistência das civilizações nativas do BrasilA rebelião do cacique Luminoso Rosana Bond A história “oficial” da conquista do Paraná e do Paraguai, pelos espanhóis, nos anos 1500, escrita pelas classes dominantes, sempre tentou esconder ou minimizar as bravas lutas de resistência travadas pelos índios, principalmente os guaranis. Uma delas, praticamente desconhecida pelos próprios paranaenses, foi a singular revolta comandada pelo cacique Oberá (Werá, em guarani, que significa Luminoso, Resplandescente).
As poucas informações existentes sobre a chamada Rebelião de Oberá vieram principalmente dos poemas de Martín Barco de Centenera, publicados em 1602, classificados por muitos estudiosos como artisticamente ruins e historicamente tendenciosos, pró-hispânicos. Segundo Bartomeu Meliá, em seu livro O guarani conquistado e reduzido (1993), o movimento indígena começou em 1578-1579, na região de Guarambaré, nas proximidades de Assunção, capital paraguaia. Mas logo se expandiu ao atual território paranaense, às margens do rio Paraná — provavelmente à grande área da província de Guaíra, que abrangia o oeste e também partes da região central, norte e todo o noroeste do atual Estado do Paraná. — ”Intérprete da opressão em que viviam os Guarani, Oberá, com rara eloquência, verdadeiro senhor da palavra, oferecia a seu povo a libertação da sujeição aos espanhóis”, diz Meliá. Liderados por este cacique, cujo nome em guarani era Werá, Luminoso, Resplandecente (os castelhanos pronunciavam Berá), os indígenas protagonizaram uma revolta extremamente singular. Uma espécie de “greve” geral, através da qual recusaram-se a continuar trabalhando para os dominadores, passando a cantar e dançar ininterruptamente — Meliá diz que eles praticavam a conhecida “dança ritual guarani”. Afirmou Barco de Centenera em seu poema: ”...(Os índios) já não iam ao serviço como antes, pois (Oberá) liberdade a todos prometia...Mandou ele que cantassem e bailassem, de sorte que outra coisa não faziam...” Outra marca do movimento guarani contra os espanhóis foi o rechaço à religião dos invasores, o catolicismo. Os rebeldes de Werá fizeram inúmeras cerimônias de “desbatismo”, renegando os nomes cristãos-europeus que haviam recebido dos opressores e voltando a utilizar seus nomes indígenas. Ainda hoje os rituais de nominação são muito importantes dentro da cultura guarani. Bartomeu Meliá explica que, diferentemente dos ocidentais, um índio dessa etnia não é “chamado” por este ou aquele nome, mas sim que ele “é” o seu próprio nome. Enquanto as autoridades castelhanas, sediadas em Assunção, mostravam seu desconcerto frente à tão inusitada rebelião, esta se expandia rapidamente não só rumo ao Paraná, mas também ao sul e ao norte da capital paraguaia, chegando à bacia do rio Ypané. Segundo Barco de Centenera, ”...estava a terra alvoroçada, em todo o (rio) Paraná e nos seus arredores...” Foi somente com a chegada do capitão Juan de Garay que os espanhóis reagiram. As tropas seguiram às aldeias para trazer os índios de volta ao trabalho. Mas, ao contrário do que planejavam os atacantes, o líder dos revoltosos, o cacique Luminoso, nunca foi encontrado. Conta Barco de Centenera, com sua ótica pró-hispânica: “...Assim se foi atrás dele à mão armada, mas como este tinha (índios) corredores e gente sempre posta em tocaia, vendo a pujança conhecida do inimigo, se pôs em fuga...” Werá simplesmente desapareceu, sem deixar rastros — diz Meliá. Mas é possível que tenha continuado atuando de algum modo, pois o próprio Meliá registra, como interessante, o fato de que quatro mestiços — entre eles um filho de português — tentaram manter a Rebelião de Oberá durante algum tempo, após o ataque de Garay. O exemplo de Werá parece realmente ter permanecido, pois em 1589, no Paraguai, os índios de Acahay, Tebicuary e Yvyturusú se rebelaram, nos mesmos moldes. Tudo “por causa de certos cantores que, com seus cantos, os levam a cometer algumas cerimônias e ritos através dos quais se apartam do serviço de Deus e não vêm mais servir a seus encomendeiros (patrões espanhóis)”, relata o antigo diário de um capitão, reproduzido por Juan Francisco Aguirre, em 1949, na Revista da Biblioteca Nacional da Argentina. Nos Andes É curioso constatar que mais ou menos na mesma época da revolta dos guaranis paraguaios e paranaenses — com poucos anos de diferença — houve um movimento semelhante entre os índios dos Andes. O peruano Manuel Burga em seu livro Nascimento de uma utopia — Morte e ressurreição dos incas (1988) registra a ocorrência de uma rebelião chamada de Taki Onqoy — a expressão é quêchua, língua falada pelos incas e por boa parte das etnias andinas, significando “Enfermidade da Dança” ou “Dança Enferma”. Com uma longa duração (entre 1564 e 1572), a Taki Onqoy também envolvia uma espécie de “greve”, com a prática ininterrupta de cantos e danças. Segundo Burga, os chefes da revolta, denominados de taquiongos, pregavam o fim da cooperação indígena com os invasores castelhanos e sua igreja, a destruição do mundo criado pelos europeus, o término das injustiças e o regresso à reciprocidade e a outros valores culturais e religiosos dos povos nativos dos Andes. O movimento, iniciado provavelmente em Huamanga, no Peru, alastrou-se a outras localidades peruanas como Arequipa e Lima, chegando também a La Paz e Chuquisaca, na atual Bolívia. E dele participaram “mulheres, homens, jovens, velhos, curacas (espécie de caciques), camponeses, índios dos ayllus (comunidades originárias do sistema incaico) e yanaconas (índios serviçais)”, relata Burga. De acordo com ele, “o peculiar é que mais da metade dos taquiongos foram mulheres”. Os dominadores espanhóis, comandados por Cristóbal de Albornoz, só conseguiram sufocar a revolta sete anos após iniciada.
|
|