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Ano V. nº 30, julho de 2006

Índice

Editorial

Opiniões

A água: quem é o dono?

A dominação da economia e do País

A falácia da auto-suficiência

...isso está se transformando num Estado policial fascista

Direita reedita Plano Cohen

Castelinho, o prelúdio

Dr. Hélio Bicudo:
“O Esquadrão da Morte está institucionalizado”

Governo usou PCC contra mudanças na Febem

O promotor e a engrenagem

Quatro anos de matança

A programada alta
anti-trabalhista

Um encontro de grandes bandidos

São vilões os manifestantes?

Estudantes defendem bravamente a democracia nas universidades

Finalmente, o congresso operário (parte II)

Os que trabalham x os que roubam e implantam o terror

Desabamento da Gameleira:
Criminosos à solta

Os camponeses não mais suplicam; agora, ordenam

Justiça premia assassino

As hostes do latifúndio

Brilham os raios de um novo dia no movimento camponês

Criar pânico para melhor reprimir

A infância e a juventude
sob o Estado criminoso

Um império...
um só projeto

Em defesa do povo

As pantomimas nacionalizantes de Evo Morales e algo sobre o sub-imperialismo brasileiro

Nada alegre o Iraque de Bush

Após a morte de
al-Zarqaui

Os limites do pensamento burguês

A irreverência política de Ary Toledo

... e o teatro é do povo, é do povo

Rosa dos Ventos

Florianópolis:
o paraíso conflagrado

Uma “língua” em extinção

A alegria brasileira de Serginho Leite para o povo

Joga a rede no mar... deixe a onda bater

Expediente

Teatro político

... e o teatro é do povo, é do povo

Rosa Minine

O Grupo Galpão viaja pelo Brasil apresentando a peça Um homem é um homem, de Bertolt Brecht, com todo o talento que caracteriza o grupo e a atualidade da obra do dramaturgo alemão, que interpretou com rara perspicácia os acontecimentos mais marcantes de seu tempo. O que lhe dá esta atualidade é justamente a maneira dialética de entender o mundo, com as contradições entre os homens, mas, principalmente entre as classes em luta no capitalismo, sobretudo na fase imperialista.

Foto: Guto Muniz - www.casadafoto.art.br
Cena da peça Um homem é um homem

A direção de Paulo José é um toque especial na adaptação do texto que revela como um homem pode se transformar em outro, bastando para isso uma fraca vontade (ausência de visão crítica) ou a sedução por vantagens materiais.

É inevitável a lembrança da mais recente guerra de rapina promovida pelo imperialismo ianque, em coalizão com a Inglaterra e outros países, na invasão ao Iraque e tentativa de submissão de mais um povo pela força das armas. Tal menção é por vezes sutil, outras nem tanto, como a cidade onde se desenvolve a trama, que "sugestivamente" se chama "Dagbá".

Segundo Eduardo Moreira, um dos principais atores do Galpão, e um dos fundadores do grupo em 1982, essa montagem faz uma união entre a reflexão e a diversão, conseguindo com isso um texto crítico, politizado e ao mesmo tempo cheio de humor. O lado político está na base e no centro do trabalho de Brecht (Ausburgo, 1898 a Berlim, 1956) sempre preocupado em estimular o raciocínio do público, elevando sua consciência diante da opressão, da exploração e manipulação ideológica.

- A nossa peça é uma adaptação de um texto que foi reescrito por Brecht várias vezes, ao longo de sua vida. Brecht estreou essa peça em 1926, e a reescreveu pelo menos mais umas dez vezes, sempre procurando adaptá-la ao contexto da situação que ele estava vivendo. A versão que pegamos é de 1932 - diz Eduardo - Brecht foi um homem que viveu muito de dentro a guerra, no caso, as duas guerras mundiais, e isso é muito presente em sua vida, na sua militância política, na sua luta contra o capitalismo. Então seu teatro busca sempre trazer uma análise e uma crítica sobre essa sociedade. É o ser humano vivendo permanentemente uma situação de conflito, dialético.

O dramaturgo e poeta alemão Brecht revolucionou o teatro mundial, opondo-se ao 'teatro dramático', ilusionista ou naturalista, que transportava o público para uma realidade distante, alienante da sua própria realidade, da sociedade em que se está vivendo, com frequentes embates entre as classes sociais opostas.

O Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio de Janeiro, acolheu o Galpão, que utilizou até o saguão para uma homenagem ao teatro. Uma exposição de fotos dos atores encarnando diversos personagens recebe os espectadores, que podem também adquirir o recém lançado DVD do grupo direto com a produção.

Na peça, o exército imperialista entra em Dagbá e um grupo desses bandidos se entrega ao saque a um templo pagão para comprar bebida. O desaparecimento de um membro do grupo impõe aos outros que 'transformem' uma pessoa comum, um civil capaz de substituir o ausente, para servir à mesma máquina de guerra; tornando-o um assassino.

Gally Gay é um estivador que sai de manhã para comprar peixe para o almoço. Antes de se afastar da casa, sua esposa o alerta de que, sendo um homem "sem vontade", pode cair nas garras de alguma peixeira do porto, ou, quem sabe, dos selvagens soldados do exército imperialista que enchem a cidade e não respeitam nada nem ninguém.

Influenciado pela viúva Leocádia, prostituta e dona da cantina no acampamento militar, Gally Gay, à tarde, ao invés de um peixe, está com um pepino comprado à viúva. À noite, aceita se passar pelo soldado ausente na revista da tropa em troca de bebida e charutos.

Mas a transformação só será completa se Gally Gay realmente acreditar que é outra pessoa, negando-se a si próprio. A morte de Gally Gay então ocorre e o próprio Gally Gay profere a oração fúnebre:

- Aqui jaz Gally Gay. De manhã saiu para comprar um peixe; à tarde tinha comprado um pepino e no dia seguinte foi condenado à morte. Ele não sabia dizer "não", mas era um homem bom."[Não é fiel ao texto]

- Brecht discute muito essa questão da manipulação do ser humano, porque este texto é uma fábula sobre um homem que não sabe dizer não, porém é importante a pessoa aprender a dizer não. Ou seja, pensar, refletir sobre o mundo em que vive e ter uma opinião própria e coerente - diz Eduardo - Eu acho que é uma peça que tem uma atualidade incrível, porque vivemos em uma época profundamente individualista, mas que, ao mesmo tempo, despreza totalmente a individualidade. As pessoas não têm um pensamento próprio.

Segundo Eduardo, a adaptação de Paulo José e do grupo Galpão, em conjunto, procurou manter a estrutura de fábula do texto, que acreditam ser importante para que o público tenha uma aproximação crítica da realidade. Ao mesmo tempo, criou alguns elementos que tornaram a história mais próxima à atualidade. Assim, ao invés de um leilão de elefante, presente no texto original, o Galpão adaptou para um leilão de uma arma de destruição em massa, disfarçada de carrocinha de leite.

- O texto tem toda uma contextualização voltada para a atualidade, para aproximar a platéia da história. E esse leilão tem uma ligação com os motivos que levaram o USA a invadir o Iraque.

Um Homem é Um Homem é a tradução fiel do título original em alemão. Eduardo diz que Brecht brinca com esse título, que pode ter várias interpretações, mas que a sua interpretação é de que qualquer homem pode ser manipulado, por ser simplesmente um homem.

- Ele trata o tempo inteiro disso na peça: um homem é um homem e o sistema pode fazer dele o que quiser, entre manipulá-lo, transformá-lo, como um objeto qualquer, uma arma, um brinquedo, algo útil, porque 'um homem é um homem' - diz um dos fundadores do Galpão.

Para essa peça, o Galpão conta com onze atores no palco, interpretando, cantando e tocando. Isso faz parte do trabalho do grupo, que tem atores músicos. Além disso, a sonoplastia também é feita do palco.

- Nós temos em nossa linguagem, já há muitos anos, um estudo musical e nos utilizamos disso em quase todas as nossas peças. A música é toda feita ao vivo. Em Um Homem é Um Homem temos bastante música e todas são cantadas e tocadas pelos próprios atores - diz Eduardo.

Elementos circenses também foram adicionados aos espetáculos. Os soldados, por exemplo, caminham sobre pernas de pau de diferentes tamanhos ou em uma cadeira de rodas.

O grupo ficará até o final do ano em cartaz com esse espetáculo, que deve passar por várias capitais de todo o país. Até o momento, já a apresentaram em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, além da estréia em Belo Horizonte, que é a cidade onde o grupo nasceu e reside. Em junho, o grupo fará uma temporada em Brasília.

Eduardo Moreira conta que, por todos os lugares onde o Galpão tem passado com Um Homem é Um Homem, a acolhida é excelente e que o público expressa uma reação positiva diante da idéia de Brecht e do próprio Galpão.

- Durante a temporada, não dá para fazer debates sempre, mas os achamos muito importantes. No Rio, promovemos um debate com uma turma de alunos da escola estadual de teatro Martins Pena, que assistiu ao espetáculo, e foi muito interessante - diz o ator - E essa peça sugere muito um debate, oferece uma discussão muito forte, atual, presente. Acho que a maneira como Brecht coloca a situação é realmente para fazer todo o público pensar. E sentimos que isso acontece. Existe uma reação no público. Acho que a platéia sai um pouco 'fora do eixo', para dizer assim. É maravilhoso quando o teatro consegue elevar esse espírito crítico.

O grupo Galpão tem muita experiência com teatro de rua e durante seus 24 anos de estrada se acostumou também a representar para público de todas as idades, sempre com espetáculos bem humorados e de elevado nível político.

Poema da peça Um Homem é Um Homem, adaptado de A Hiena, de Heiner Müller

A hiena ama os tanques que encalham no deserto porque a tripulação morre.
Ela pode esperar. Ela espera até que a milésima
tempestade corroa o aço.
Nesse momento é chegada sua hora.
A hiena é o animal da prova dos nove da
matemática, sabe que não pode sobrar resto.
Seu deus é o zero.



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