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Ano V. nº 32, Dezembro de 2006

Índice

Editorial

Opiniões

Passada a farsa eleitoral...

Experiências de um candidato

Os bastidores do cartel Farma

Apertem os cintos: a nossa segurança sequer existe!

Até a praia eles roubam

O crime organizado... pelo Estado

Correios banca lucro do Bradesco

Sistema carcerário de Rondônia: Máquina de moer carne humana

Morador de rua defende o povo

Luta estudantil derruba a "Lei da mordaça" na UNIR

... Depois punir os explorados. Eis a lógica da justiça da burguesia e do latifúndio

Quando homens livres produzem

O povo pode, faz e governa

Chacina de Cumaru não ficará impune

Projeto urbano para a burguesia porca

A "reestruturação" mundial da Volkswagen

São os "cooperativistas" mineiros de Huanuni novos burgueses ou pequenos burgueses?

Eleições na América Latina: Entre o show, a demagogia e o fascismo

Líbano:
...Mas é a resistência quem dá ordens

Elton Medeiros:
Um esteio popular do samba

Só imperialismo ganha com invenção brasileira

Saudações a quem tem coragem

Teatro na companhia do povo

Como se fazem os endereços

Fernando Gasparian:
Um empresário que nunca se vendeu

O caráter popular no coração caipira de Jackson Antunes

O sapateiro e o alfaiate da Nova Democracia

Expediente

A autoridade das massas

Chacina de Cumaru não ficará impune

Antônio Seabra

Segunda-feira, 04 de setembro, os camponeses Almir, Cícero e Marivaldo deixam o Acampamento Gabriel Pimenta, em Cumaru do Norte — sul do Pará, para participar da libertação das terras do latifúndio conhecido como Cumaru do Sul. Poucos dias depois da entrada no latifúndio, outras 100 famílias aderiram ao acampamento, exigindo que as terras fossem repartidas.

As terras de Cumaru sempre foram palco de sangrentas batalhas entre camponeses e latifundiários. A fazenda Estrela de Maceió, por exemplo, é um grande latifúndio improdutivo e não-documentado onde centenas de pessoas já morreram em busca de suas boas terras. Na fazenda Cumaru do Sul, a história é a mesma, sendo o mandante o latifundiário conhecido como Cássio Durval. Claro, nunca houve apuração dos casos.

Almir, Cícero e Marivaldo foram interceptados na estrada, logo na saída da fazenda, por seis homens fortemente armados, vestidos com coletes e fardas da polícia e do exército. Durante mais de 3 horas os camponeses, sob a mira das armas, foram interrogados e humilhados covardemente.

Almir e Cícero foram executados com disparos à queima-roupa. Marivaldo, baleado, foi solto para que pudesse viver e espalhar pânico entre as demais famílias.

Por três dias os corpos de Almir e Cícero ficaram expostos à beira da estrada que liga o acampamento à cidade, enquanto os acampados se protegiam de outros jagunços que continuavam rondando a região.

Toda a população de Cumaru acompanhou o processo e a espera pelo resgate dos corpos. Não houve quem não se indignasse com a morosidade dos órgãos responsáveis.

Após feitos os procedimentos de praxe, não se teve mais notícias. Ainda não se sabe com certeza onde os corpos foram enterrados. As viúvas, os filhos e os parentes não puderam sequer velar seus mortos. Esse é o tratamento dispensado aos filhos do povo.

“A culpa é do povo!”

Os camponeses acampados cobraram com revolta e ódio a punição severa dos envolvidos no bárbaro crime. Imediatamente foi marcada uma reunião com a Ouvidoria Agrária na cidade de Redenção.

Ao ser indagado sobre a documentação das terras do latifúndio, Celso Florêncio, ouvidor agrário regional disse:

— Todos sabem que a maioria dessas terras são griladas.

Diante da contundente cobrança de um camponês que exigia providências concretas para a apuração da chacina, dizendo que todos na região sabiam quem foi o mandante e os executores, o ouvidor agrário regional em Marabá, Celso Florêncio, ficou acuado, e respondeu como um digno policial:

— Aliás, foi você quem levou as famílias para lá? Saiba que os responsáveis pela mobilização das famílias serão todos duramente punidos.

Essa é a lógica dos órgãos do Estado: rastejar perante o latifúndio e acusar o povo por suas desgraças e por levantar a cabeça por justiça.

Marivaldo encontra-se sob tutela da justiça. Além de ter seu braço amputado em decorrência da bala, agora ele precisa ficar escondido, porque é a única testemunha e corre risco de vida. Será que de fato ele receberá “proteção” do mesmo Estado que acoita os responsáveis pela chacina? Por que o camponês, que é a vítima, tem que ficar se escondendo como se fosse o réu, enquanto o latifundiário e seus pistoleiros circulam livres e são recebidos amigavelmente nas eternas ‘mesas de negociação' com o governo? Viver foi a sorte de Marivaldo? Ou seu castigo?

O Incra gagueja

Como a notícia do acontecimento repercutiu por todo o Brasil e a Ouvidoria de Marabá fracassou em sua tentativa de ‘pacificação', veio mais uma vez à região o Ouvidor Agrário Nacional Gercino Filho.

Enquanto Raimundo de Oliveira, gerente do Incra de Marabá, respondia com balbucios a firme exigência dos camponeses para que se realizasse a vistoria nos latifúndios Cumaru do Sul e Estrela de Maceió, foi entregue nas mãos do Ouvidor Agrário Nacional um documento escrito por um dos coordenadores da Liga dos Camponeses Pobres onde eram relatados os fatos ocorridos em Cumaru e se cobravam medidas. Letras mal articuladas por mãos embrutecidas pelo trabalho pesado, mas cheias de significados, sentimentos e indignação.

Passados mais de dois meses, nenhuma resposta foi dada, como já era de se esperar.

Cumaru em chamas

O Prefeito da cidade se suicidou. Os pistoleiros assassinos estão soltos e, mesmo reconhecidos, andam livremente pelas ruas intimidando a todos. Notícias de toda sorte se espalham: ... que o vice já recebeu telefonema de apoio e solidariedade do ‘coronel' Cássio Durval; ... que o gerente e os jagunços, travestidos de vaqueiros e funcionários, retiraram suas mulheres da área prevendo um possível conflito de grandes proporções, um revide dos camponeses.

Existe uma situação de guerra em Cumaru, uma tensão que parece a todo momento querer explodir. Paira pela cidade um silêncio e um balbucio que não deve, de forma alguma, ser confundido com medo ou inércia. É a revolta se gestando. É muita revolta que se acumula e arde por virar ação!


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