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Ano VI. nº 36, Agosto de 2007
A Nova Democracia en Español
Índice

Editorial

Opiniões

O crime tem sua origem

A chacina do Complexo do Alemão

A violência que a burguesia gosta

Povo repudia a demagogia fascista

Soberania e dignidade, legado de Jango

Crimes de guerra em tempos de "paz"

Luiz Inácio: serviçal das transnacionais

A rendição consumada

Grandes paralisações respondem ameaças da gerência FMI-PT

Nas ruas contra o Pan

Encontro indígena decide: é hora de unir forças

O caminho da libertação dos camponeses pobres

Rondônia
Ao Norte, camponeses se rebelam

Gerência FMI-PT trata profissional de alta relevância como bandido

Para as corporações a vida só vale quando dá lucro

A lucrativa e legalizada extorsão

Mercosul
Três momentos da integração subordinada

Cidades repressivas e muradas:
Entre a Tolerância Zero e os fortins burgueses

Povo peruano diz sim à resistência

O terrorismo da OTAN

As agressões imperialistas vistas de perto

Sina de grande artista

A construção artística para um Brasil do povo

Esporte é fachada para mentiras e agressões ao povo

Hoje vai ter casa cheia de novo, Jorge

O terror imperialista não pode deter o caminho dos povos

O sistema do proletariado e a restauração capitalista na China

Expediente

Movimento camponês

O caminho da libertação dos camponeses pobres

Uma localidade rural de Campina Verde, mais propriamente a região do Córrego Fundo, quase na divisa dos município de Prata e de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, tem vivido verdadeiras transformações com a agitação das massas camponesas elevando sua consciência e fazendo a verdadeira revolução agrária.

Ana Lúcia Nunes

Faz algum tempo. Foi ainda nos dias 2 e 3 de junho, que AND esteve presente em duas localidades vizinhas e pode presenciar mais uma vez a intensa alegria de dezenas de famílias camponesas durante as comemorações da organização do lote de produção coletiva na área revolucionária Conquista dos Palmares e também o sorteio dos lotes para as famílias da área Cachoeirinha.

Os camponeses dessas áreas são remanescentes da expulsão dos latifundiários da Fazenda Salitre, em Patrocínio. De lá, eles foram várias vezes despejados pela polícia, violentamente, mas sempre a retomaram. Por fim, ainda que não tenham permanecido naquela fazenda, estão em terra sua, se preparando para novos desafios.

Uma queima de fogos dá o sinal para a reunião geral. O clima é de intensa felicidade. Poucas vezes essas pessoas puderam transitar em sua terra, festejar, comemorar vitórias tão grandes. Após uma disputada, porém, muito fraterna partida de futebol entre os moradores da região o almoço é servido. A comida é farta e boa.

A intensa programação incluiu um pequeno ato, onde se pronunciaram os camponeses, os visitantes e os apoiadores. Uma seleção de vídeos e fotos de suas conquistas revela que em outras regiões igualmente o povo se ergue em várias frentes contra o latifúndio e o imperialismo. Durante todo o tempo são ouvidas canções populares.

No dia seguinte, foi a vez dos camponeses da área Cachoeirinha receberem os convidados. Os intensos preparativos se estenderam até a manhã da festa, mas tudo estava pronto na hora certa.

O local era um latifúndio — antes, só pasto e mato —, que começa a produzir alimentos, de uma forma bem mais avançada que nas relações semifeudais de produção. Justamente ali, onde os camponeses se associaram livremente.

A chegada dos convidados da Conquista dos Palmares guardava uma surpresa. O ônibus surge vazio.

Antes que todos se assustassem, uma canção irrompe na estrada. Em colunas, os companheiros de tantas lutas aparecem cantando Conquistar a terra e, erguendo os braços, saudando os camponeses de Cachoeirinha.

A entrada em Cachoeirinha torna-se triunfal. Todos se confraternizam e se repete a euforia do dia anterior.

No local de realização da assembléia, onde se reuniriam as famílias para o sorteio dos lotes, um camponês com o seu violão cantava músicas de sua própria autoria, muitas que contavam episódios do tempo de acampamento. As famílias conheciam aquelas canções cujas letras falavam de sua história.

Na mesa dá-se a abertura da assembléia com representantes das organizações que apóiam o movimento camponês combativo: a Liga dos Camponeses Pobres, Comitês de Defesa da Revolução Agrária da região, Liga Operária de Belo Horizonte, núcleo da Liga Operária de Senador Canedo (GO), Movimento Estudantil Popular Revolucionário, Movimento Feminino Popular, Socorro Popular, Núcleo dos Advogados do Povo/Associação Internacional dos Advogados do Povo.

Durante a abertura, a palavra foi cedida a cada organização, que ressaltou a importância política do momento e manifestou seu completo apoio à Revolução Agrária.

O suspense tomou conta da assembléia. O sorteio dos lotes era o culminar de uma grande vitória, o momento em que cada família poderia dizer que aquele tão sonhado pedaço de terra era, por direito conquistado, de fato então, seu. Propriedade reconhecida pela Assembléia Popular e pelos vizinhos, o que confere um certificado com muito mais credibilidade que qualquer papel arrumado em cartório.

Foi como num bingo, com bolinhas em um globo, mas o sorteio não tinha prêmios maiores e menores. Os próprios camponeses fizeram a demarcação dos lotes — sem saber qual deles seria ocupado por cada um —, é claro, da maneira mais justa que coube fazer. Dessa forma, o sorteio serve apenas para decidir a localização de cada família. Nenhuma delas se sentiu prejudicada ou privilegiada em relação a outra.

O mapa aberto, com a localização de cada lote, permaneceu nas mãos de dois camponeses durante todo o sorteio. Cada família examinava seu lote imediatamente.

O primeiro a ser sorteado foi o de uma camponesa que participou ativamente dos trabalhos do corte popular. Emocionada, ela deu seu recado:

— Eu quero dizer para todos os companheiros que estão aqui, que estão na luta ou que tem família na luta, para não desistirem. Lutem, insistam. A nossa luta foi grande, houve momentos de tristeza, mas agora estamos nos vingando com o corte popular. Eu falo vingança porque a gente sofreu muito, mas nós estamos vencendo.

Em meio ao sorteio, foi lida uma carta escrita por uma jovem de 13 anos. Com suas palavras, explicava a importância do corte popular, da luta pela terra e da transformação na vida de sua família após conhecer o movimento dirigido pela Liga.

A emoção embargou a voz de muitos, e houve quem aproveitou a oportunidade e transmitiu a todos a felicidade que sentia. O camponês José Carlos foi um deles:

— Eu vim lá do Norte de Minas, e aqui com muita luta, junto com os companheiros, nós conseguimos nosso pedaço de terra. Eu trabalhei minha vida inteira. Tenho duas carteiras de trabalho cheias, mas nunca consegui juntar dinheiro para adquirir um pedacinho de terra, porque a gente vive sendo explorado. Eu estou muito contente, principalmente porque vou prosseguir na luta.


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