Depois do 11 de setembro, da invasão do Afeganistão pelo USA
e a consequente invasão do Iraque, sempre que vemos árabes, particularmente
os líderes e combatentes, retratados nas telas de Hollywood como atrasados,
fanáticos e desumanos. No entanto, nem sempre foi assim, o filme O
Leão do Deserto , retrata com bastante fidelidade
a resistência líbia contra a ocupação italiana.
Resistência esta liderada pelo professor Omar Mukhtar.
Na verdade, a
explicação para o fato é bastante simples. O filme foi às
telas em 1981, menos de dois anos depois da invasão do social imperialismo
russo no Afeganistão. O momento era, portanto, de enaltecer o Alcorão,
os árabes e tudo que fosse contra os russos. Afinal, a política
do USA foi de apoiar armar e orientar a resistência, inclusive Bin Laden
e o Taliban para defender seus interesses em área tão importante
para sua estratégia política. O tempo passou e os aliados viraram
inimigos. Sem problemas Hollywood está aí para isso mesmo, agora é só difamá-los.
Como não é sempre que se pode contar com o cinema do USA para
produzir bons filmes, muito pelo contrário, O Leão
do Deserto é um filme que merece ser visto,
pois permite uma melhor compreensão do fascismo italiano, do avanço
do imperialismo sobre a África e o esforço das potências
pela partilha do mundo, cujas contradições viriam a se agravar,
provocando a Segunda Guerra Mundial, que teve no Norte da África um
de seus teatros. O filme retrata muito bem os últimos anos finais do
líder da resistência Omar Mukhtar, mas peca em não mostrar
com mais elementos o contexto histórico da ocupação italiana.
A Itália na Líbia

Omar Mukhtar foi exposto publicamente após sua prisão
A ocupação italiana na Líbia se inicia em outubro de
1911, durante a guerra entre Itália e a Turquia. Um contingente naval
italiano desembarca na costa da Líbia, em um território então
submetido ao domínio Turco Otomano. O líder da esquadra, almirante
Luigi Faravelli exigiu que os líbios entregassem seu território
aos italianos, incluindo a imediata destruição da cidade de Trípoli.
Os líbios resistem e os italianos bombardeiam a cidade por 3 dias, ao
fim dos quais declararam que os tripolitanos estariam submetidos e firmemente
ligados à Itália. Este foi o início da resistência
armada Líbia liderada por Omar Mukhtar.
Como não poderia deixar de ser, quando uma força pequena enfrenta
um exército poderoso, a estratégia usada foi a guerra de guerrilhas.
Prevalecendo-se de seu maior conhecimento do terreno e de sua maior mobilidade,
a resistência líbia infligiu severos golpes na força de
ocupação fascista. Emboscavam tropas, cortavam linhas de abastecimento
e comunicação, levando as tropas italianas a constante humilhação.
Em 1924 o então governador italiano Ernestro Bombelli criou uma força
anti-guerrilha que em 1925 conseguiu infligir severos golpes na resistência.
Mukhtar e seus seguidores conseguiram, com apoio constante da população
egípcia, se refazer rapidamente tendo suas forças plenamente
reorganizadas entre 1927 e 1928. Os governadores fascistas tinham que ser trocados
praticamente todo ano dada sua ineficiência em combater a resistência
nacional líbia.
Em 1930, Mussolini nomeia como governador da Tripolitânia/Cirenaica,
Rodolfo Graziani, conhecido por sua truculência nos assuntos coloniais.
Profundamente integrados à população, os combatentes passavam
parte do ano lutando e parte produzindo com suas famílias, com o imenso
apoio da população. Sabedor disso, Graziani optou por isolar
a população, se valendo da criação de imensos campos
de concentração, onde mais de 100 mil líbios foram encarcerados.
Dadas as condições subumanas de alimentação, higiene
e a falta de assistência médica, muitos pereceram. Visando ganhar
tempo, a Itália instalou processos de negociação de fachada,
tentou comprar Mukhtar e desembarcou grandes tropas e equipamentos. Mesmo assim
a resistência deu grandes mostras de gênio militar, derrotando
inúmeras vezes o exército fascista italiano.
Quando alguns jornais denunciaram pelo mundo o odioso tratamento que os líbios
recebiam nos campos de concentração, os italianos começaram
a fornecer ração seca para os prisioneiros em quantidades insuficientes,
o que obviamente não impediu que a mortandade continuasse.
Se dentro dos campos, sob a mais terrível opressão, a luta não
parava, fora a guerra não cessava. Nas montanhas a guerrilha continuava,
mas com grandes dificuldades de abastecimento. Omar Mukhtar, então
com quase 80, anos adoeceu algumas vezes e muitos de seus companheiros insistiram
em que ele fosse para o exílio, mas o “Leão do Deserto” se recusou
e seguiu combatendo até sua prisão em Solouq em 16 de setembro
de 1931. Depois de um simulacro que os fascistas denominaram julgamento, Omar
Mukhtar foi assassinado em praça pública.
Em 1943, com a derrota da Itália na Segunda Guerra Mundial, a Líbia
passa a ser ocupada pelas forças aliadas até 1951 quando é declarada
independente. Como Omar Mukhtar afirmou quando de sua prisão, ele sobreviveu
a seus algozes, sendo o herói nacional mais reverenciado pelo povo líbio.
O filme
O filme O Leão do Deserto é uma
obra de qualidade impressionante tanto pelo fato de surpreendentemente falar
a verdade quanto tecnicamente. As cenas de batalha são impressionantes,
os campos de concentração são retratados com imensa fidelidade
e os personagens principais da trama são retratados não como
os super-heróis ou super-vilões tão comuns no cinema imperialista,
mas como homens que lutavam em lados opostos da luta de classes.
Antony Quinn, em uma interpretação impecável, é um
Omar Mukhtar sereno e inteligente, sem o esteriótipo do fanático
de olhos vermelhos que se tornou tão comum ao retratar lideranças
muçulmanas depois. Neste sentido, merece destaque uma cena na qual Mukhtar
está ensinando o Alcorão para alguns meninos. A serenidade e
o carinho com que trata as crianças mostram o quanto era comprometido
com seu povo.
O povo líbio em luta por sua independência é mostrado
com o esplendor de sua elevada moral. Nos pelotões de fuzilamento, ninguém
pede por sua própria vida, porque sabe que está morrendo pela
independência de seu povo. Igualmente os traidores do povo são
retratados com toda sua covardia.
Outra cena que é necessário mencionar é a da captura
de um tenente italiano após um combate. Um membro da resistência
estava pronto a maltratá-lo quando é interrompido por Omar Mukhtar.
O guerrilheiro questiona dizendo que os fascistas fazem pior com os líbios
que são capturados e Mukhtar responde
– Sim, mas os italianos não são nossos professores.
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