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Ano IV, nº 26, setembro de 2005
4o Congresso da Liga em Minas - A construção da revolução agrária | 4o Congresso da Liga em Minas - A construção da revolução agrária |
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| José Ricardo Prieto | |
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Aí está. Desse ponto, ainda na margem direita do Velho São Francisco, se divisa a cidade de Manga, uma localidade do norte de Minas Gerais, mais nordeste do que Sudeste, menos em razão da divisão política do que por imposição da catástrofe latifundiária, nunca varrida de nosso país. O acesso à cidade é possível de duas maneiras: através de balsas, sobre o rio São Francisco, ou por estrada de terra. Nem asfalto beneficia a população da cidade, que sobrevive essencialmente da agricultura e em luta contra o latifúndio. À chegada do ônibus, já se ouve a saudação do operador da balsa:
O camponês também se tornou piloto, cujo trabalho assalariado de idas e vindas de ágeis manobras entre as duas margens do São Francisco, há anos, divide seu tempo com a produção agrícola. Venham, podem virA travessia não expressa apenas a sensação de cortar o Velho Chico, mas a de percorrer todo o imenso território da Liga dos Camponeses Pobres, nas Gerais, que não acaba nunca. Manga é mais um ponto de um movimento que se alastra inexorável e irredutível, e assim será enquanto perdurar a contradição entre latifúndio e camponeses pobres. A margem se oferece aos recém chegados, escancarando uma cidade de aproximadamente 20 mil habitantes hospitaleiros do movimento camponês, para sediar em 18 e 19 de junho, o 4º Congresso da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas, com a presença de 2.500 pessoas, um encontro de dois dias que marcou um novo grande salto na organização do mais combativo movimento popular. No colégio público que sediou o encontro, a intendência aguardava os camponeses e suas famílias para o primeiro almoço, seguindo-se a preparação para a manifestação, pelas suas proporções, jamais vista naquela localidade. Tem início o desfile. À sua frente vão motos, cavalos, charretes e carroças, seguidos pelo camponeses e suas famílias. São quatro colunas que se estendem por quase um quilômetro de bandeiras vermelhas. A população da cidade, acostumada às demonstrações da organização dos combativos camponeses, aflui às ruas e apóia, como de costume, mais um ato público daqueles que decidiram tomar as rédeas da própria vida. A marcha vitoriosa — com suas palavras de ordem, pronunciamentos das lideranças e músicas revolucionárias — prossegue percorrendo a cidade, anunciando o seu programa de lutas. O que todos sabemO longo processo de debates das teses foi realizado durante vários meses. Um encontro de delegados camponeses em maio, na cidade de Jaíba, foi a última etapa que antecedeu a realização do Congresso e compôs a nova direção da Liga, elegendo os mais capacitados e combativos militantes entre os que se dispõem a destruir o latifúndio. O credenciamento é obrigatório, tanto para delegados como para convidados. A segurança não pode ser negligenciada, bem como a limpeza, a alimentação de todos, etc. Para tal são formadas comissões que contam com a participação entusiasta e voluntária de muitos companheiros. Por exemplo, para que os adultos, especialmente as mulheres, estivessem liberadas das tarefas do Congresso, as crianças foram encaminhadas à creche estruturada no evento. Organizada e administrada a creche por membros do MEPR, os estudantes revolucionários demonstraram ser dignos da confiança dos camponeses, revelando sua capacidade de integrar-se, das mais simples as mais complexas formas, aos movimentos das classes trabalhadoras. Várias entidades de outras localidades também prestigiaram o Congresso da LCP-NM, caso dos sindicatos dos rodoviários e trabalhadores da construção civil, a Frente Cultural, alunos e professores da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves, todos de Belo Horizonte, bem como membros do Socorro Popular, do Movimento Estudantil Popular Revolucionário MEPR, Movimento pela E ducação Popular, representantes dos índios tapebas, do Ceará, e da Frente Revolucionária do Povo, da Bolívia. De volta ao local do Congresso, enquanto era providenciado o jantar, foram apresentadas danças tradicionais da região e uma peça teatral sobre a importância decisiva da presença das mulheres nos movimentos populares. Durante toda a noite, um forró contagiou os presentes, tendo alguns desistido de dormir, ao som do acordeon, do triângulo e da zabumba. Não há tempo a perderNo domingo os primeiros raios solares já encontraram todos de pé. A espera do café é mais rápida com o trabalho da comissão de propaganda, que não dá descanso ao violão, animando a todos com as músicas que embalam a luta pela terra e palavras de ordem de destruição de todo latifúndio, desenvolvimento das forças produtivas e o estabelecimento de um novo poder; em suma, o cumprimento cabal do programa da revolução agrária. Após a primeira refeição do dia, as mulheres realizaram uma reunião do Movimento Feminino Popular, onde se reafirmou, a partir de novas experiências, a posição da mulher na luta pela terra. As intervenções das companheiras, mesmo com a limitação do tempo, foram cheias de emoção, com todas as oradoras destacando a necessidade de compreender a origem da opressão da mulher, o caráter de classe dessa opressão e, portanto, sua luta de emancipação, que coincide com a dos homens de sua classe. — Olha, companheiras, eu sempre fui evangélica, mas desde que a Liga chegou por aqui eu entendi que Deus não faz tudo pela gente, não. Tem muita coisa que nós mesmo é que temos que fazer, sem depender de nada nem de ninguém — disse Luzia, uma camponesa. Iniciada a plenária, foram lidas as teses do Congresso, que apontam para o impetuoso desenvolvimento da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e para os principais problemas que precisam ser solucionados para esse processo ganhar ainda mais vigor. Resumidamente, são esses os pontos do documento distribuído aos presentes no IV Congresso da LCP-NM: Fortalecer a coordenação geral, as coordenações regionais e os grupos de base como forma de combater o oportunismo e o espontaneísmo nas suas tentativas de se aproximar e sabotar o movimento. Desenvolver a produção centrando nos grupos de ajuda mútua e avançar na auto-sustentação para assegurar o abastecimento das áreas livres do latifúndio e a independência do movimento camponês revolucionário. A contribuição mensal mínima de cada membro do movimento também foi levantada como importante medida. Ampliar a propaganda da Liga e da revolução agrária para compensar a pressão feita pelos monopólios contra o movimento e assegurar às massas o conhecimento da verdade da luta pela terra. Dar um grande salto na construção das escolas populares, centros de alfabetização e politização das massas, aliando estudo, produção e luta. A Liga informou já ter realizado um curso de formação de professores, considerado um grande passo para a construção das escolas. Construir comitês de apoio nas cidades para organizar e ampliar todo o contingente de apoiadores da luta camponesa nas áreas urbanas, como os pequenos comerciantes, estudantes, professores, etc. Os comitês são a forma de que se reveste a aliança dos setores urbanos com os camponeses em uma frente contra o latifúndio e o imperialismo. Movimento de novo tipoApós a leitura das teses, o microfone foi aberto para que os camponeses manifestassem suas opiniões acerca da Liga, da luta pela terra e do Congresso. — O melhor órgão que eu encontrei de democracia, democracia mesmo, é a Liga. Sou pequeno produtor e trabalho com honra. Já andei em Rondônia, no Centro-Oeste e não existe outro movimento que trabalhe dessa forma — diz um camponês se referindo às demais ligas de camponeses pobres. Uma camponesa se dirige ao microfone e desfere: — Quando a Liga apareceu por aqui, ninguém sabia de onde vinha, parece até que veio do céu. O recurso a expressões religiosas, presentes em algumas falas, na verdade se referem a fenômenos bem terrenos, que expressam em cada ação da Liga, no sentido da destruição do latifúndio e construção do novo poder, toda a autoridade que os próprios camponeses têm para planejar, legislar e executar. Sucedendo-se rapidamente, os oradores esgotam o tempo. Uma pena, todos o sentem, porque seria ótimo falar e ouvir por mais um longo período. Chamada à mesa, a nova coordenação da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas se perfila perante à plenária e é reconhecida unanimemente como legítima. Suas atribuições são claras, de acordo com as teses aprovadas pelo Congresso soberano, a ponto de, a qualquer momento, ser eleita outra direção caso a atual se desvie da linha adotada, porque assim se desenvolve a democracia entre os camponeses revolucionários. A solenidade do juramento é um momento especial para todos. De pé, os camponeses repetem o texto em coro (ver box). A altivez dos camponeses expressa exatamente o conteúdo do juramento, carregado de compromissos de fazer triunfar a revolução agrária. Ao final, os camponeses entoam a Internacional. Impossível não se emocionar. De cor e em uníssono, duas mil vozes cantaram o hino maior dos trabalhadores de todo o mundo, ouvido para além do ginásio da cidade. O moral desses bravos guerreiros das massas é tão elevado quanto o tamanho dos problemas que eles se propuseram a resolver. A paciência e disciplina com que se comportam nas filas para alimentação, tendo a certeza de que não faltará alimento para nenhum companheiro; a organização com que celebraram seu congresso às próprias custas; a intensidade e confiança com que olham nos olhos de todos os que se alinham a eles na sua luta contra o latifúndio, dando duro golpe também no imperialismo e na grande burguesia; o natural com que empunham o microfone numa grande plenária e dizem o que pensam sobre o movimento que eles mesmos constroem; o poder que eles mesmos exercem; tudo isso faz vislumbrar o promissor futuro de um povo livre, de uma nova economia, nova política, nova cultura: de uma nova democracia. Era hora de partir. E por que tinham compromissos diversos a cumprir, as delegações recebiam o almoço, separadamente. Algumas comissões procediam a limpeza do colégio cedido para o Congresso, para que fosse entregue mais limpo do que quando o receberam.
O que a Liga faz
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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