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A ‘Voz da Favela’ em vez da Voz de Brasília PDF Imprimir E-mail

AND - O Governo Federal?

Misael - Isso! Quatro eu entreguei nas mãos do Lula. Aliás, oito. Quatro lá em Betim, nas mãos dele, quando falei: "Aqui, ó presidente!” Aliás, nem presidente. Eu não uso esta palavra com ele, porque, na época em que ele era peão, o operador de saramadaia era eu. Ele me conhece e eu conheço ele. Falei: " Aqui ó, companheiro, o presente de grego que você me deu. Eu estou te devolvendo." E agora veio mais quatro porque eu não transmiti "A Voz...". Não transmitimos a voz do "excelentíssimo senhor ministro da Justiça", num sei o que... Naquele horário, a gente estava pagando, transmitindo o jogo do bicho. Por quê? Quero que as pessoas entendam e que o cara da edição escreva isso em letras garrafais: É porque o jogo do bicho é uma coisa ilegal. Outra coisa ilegal é a gente ver as nossas crianças sem saber ler e escrever. Então, o cara do bicho paga para a gente 300 reais por mês, que é o salário que a gente dá à professora para ensinar 20 meninos na sala de aula.

AND - Aqui mesmo na Rádio Favela?

Misael - Aqui dentro da Rádio Favela tem três salas de aula! E o que acontece? O crime combate o crime, certo? Chumbo trocado nunca doeu! Para que eu vou pegar o veneno da fala da voz do ministro? É crime não transmitir a fala do ministro, mas é crime também a gente deixar as crianças sem saber ler e escrever, entendeu? Quem que está mais errado? A Rádio Favela , ou eles?

AND - A Rádio está desenvolvendo o Projeto TV Favela. Como é isso?

Misael - Nós vamos colocar na parada uma televisão só de preto. A coisa vai ser interessante, como eu estava explicando aos meninos adolescentes, na hora que vocês chegaram. A Cauê, uma empresa de cimento de Minas Gerais, num projeto de lei de incentivo à cultura se sensibilizou com um pedido que eu fiz. No ano passado a Rádio Favela ganhou prêmio de Melhor Programa de Incentivo à Cidadania da América Latina, lá em Genebra. Então eles deram o dinheiro para a gente comprar os equipamentos e fazer uma televisão. Aí eu chamei os adolescentes para fazer minha visão deles... Entendeu? Para a gente mostrar o lado legal da favela, não o lado de crime. A gente vai combater o crime com o crime. O crime que eles querem que a gente cometa é nós matando nós mesmos, um atirando em si próprio. Então o crime que eles cometem é não deixar a gente aparecer na televisão, é não deixar a gente participar de nada. Isto passa desapercebido. Mas a gente vai mostrar na TV Favela como que é o Brasil colônia que ainda não acabou. Nós vamos mostrar a nossa cara, não um programa do Betinho financiado por crentes de mentirinha para fazer média. Não será uma televisão que vai dar brindes. Princesa por um dia, não tem porra nenhuma na favela, tem príncipe, tem rainha o ano inteiro...

AND- Conte um pouco da luta destes anos todos para firmar a voz do povo através da Rádio Favela.

Misael -Quando começamos, esqueci de falar uma coisa muito interessante: Quando eu vou lá no Palácio da Liberdade ou na Prefeitura, os caras falam: "Misael, você é doido! A Rádio Favela é uma Rádio boa daquela, vocês têm uma audiência danada, mas põem os caras do Sindicato dos Rodoviários, aqueles caras da Liga Camponesa..." Aí eu falo: "Mas o quê que tem?" E eles: "Pô, mas os caras só jogam pedra no prefeito! Os caras da Liga são muito ruins!" Aí eu digo: "Pô parceiro, Rádio a gente conversa, favela a gente realiza, mas tem de ser leve". Aí um problema sério, quando eu chego lá, ali naquele palácio da Polícia, como é que chama... ali na praça da Liberdade, os caras: "Pô você junta com aqueles caras do Sindicato dos Rodoviários, aqueles caras são bons, mas tem hora que eles falam umas coisas que nem Jesus Cristo consegue ouvir!" Eu falei: "Pois é, o Rádio ferve naquela hora!" Aí um belo dia estou subindo ali na avenida Carandaí, um cara chegou e falou assim: "Ô cara, aquela rádio sua, tem uma coisa lá que eu não perco por dinheiro nenhum. É o programa do Sindicato dos Rodoviários de Belo Horizonte! Aqueles caras lá têm sangue nos olhos! Eu gosto deles!". Esses anos todos tenho quebrado o pau com os caras de tudo quanto é lugar. Por causa disso, a CUT não aceita e não engole a Rádio Favela. Eles estão fazendo um programa na televisão. Pagam num sei quantos milhões, mas não dá nem um centavo para a Rádio Favela. Mas nem por isso a Rádio vai parar de existir!

AND - Interessante é que o programa da CUT é financiado pelo Governo e pelos banqueiros!

Misael- Com certeza! E os caras da CUT não gostam da Rádio Favela , mas ficam mandando releases. Aí, o que acontece? Fizemos parceria com os caras do Sindicato. Interessante também que as pessoas achem que a rádio Favela só deve ter uma opinião, não pode irradiar a opinião de diversas pessoas. A Universidade Católica fez uma pesquisa. Comprovou que, na hora do programa do Sindicato, muita gente da Prefeitura não gosta, porque os caras pegam firme. E até recebi ameaças. Tem aquela ameaça do Djalma, que eu mostrei para você... O vice-governador falando que ia cortar a onda da Rádio. Cortou mesmo os comerciais. Nem por isso a Rádio deixou de existir. A gente não tem o que estava previsto para ter, mas está engatinhando. A gente está no caminho. Devagar também é pressa! Os caras fizeram ameaça para o pessoal do Sindicato. Eu segurei a onda, entendeu? Agora os caras do Sindicato não sabem, mas eu vou falar. O programa deles é considerado na pesquisa da Católica empate técnico com uma rádio de um grupo que tem 11 rádios em Belo Horizonte. Ela é a voz do governo, a voz do PSDB nato, a direita nata, a direita da direita!. Aquela rádio é uma das que mais faturam em Belo Horizonte. O programa do Sindicato dos Rodoviários está com empate técnico de audiência com ela. Os caras do Sindicato podem falar o que eles quiserem, e lá na outra os caras não têm a moral nem de ter ouvido para escutar. Portanto, volto ao início: as pessoas têm o direito de falar. Nós vamos até o final. É nós por nós e dane-se o resto! Quem não quiser ouvir, que desligue. Porque na hora do Sindicato a água ferve mesmo! E o cara lá do carro, o motorista chique, concordou comigo que o programa é bom. Primeiro achei um que concordava. Agora, a pesquisa comprovou!

AND -Esse motorista, dirigia ônibus?

Misael - Não, acho que era de uma firma particular. Ele falou: "Pô, vocês são ‘du carái’! A única rádio que tem moral neste país é a de vocês, que deixam os caras do Sindicato falar." Então, é isso. A Rádio continua sendo feita na rua. Passou para dentro de um prédio, mas continua de portas abertas e o microfone também. Porque com nós, apesar da Rádio ter título de educativa, de não poder fazer isso ou aquilo, o povo não é proibido, não! Fazer o quê? Eles cercam um, mas não cercam o mundo! E aí nós vamos! Pela beirada, parceiro. A sopa é quente, se eu pôr a boca no meio eu queimo. Lá na frente a gente se vê! Está dando certo. Tem também a pesquisa de opinião conhecida como cabeça de bacalhau. Todo mundo comeu, mas ninguém nunca viu. E é o seguinte: o Ibope levantou para as emissoras de rádio a aceitação da população na freqüência que a Rádio Favela está. Nós trocamos a antena da Rádio e melhorou nosso sinal. Resultado, tem uma rádio em primeiro lugar, mas ela está tão preocupada, tão preocupada, que na porta de todas favelas da cidade, de Contagem e Betim, tem um outdoor dela convidando as pessoas a ir para o forró dela. Ela está sorteando 100 reais de compras no supermercado. Só favelado compra 100 reais, porque o salário é 260. Com metade ele compra e com a outra metade paga as dívidas. A emissora de rádio do primeiro lugar está sorteando também um aluguel de 300 reais, que é quanto a Prefeitura está pagando de aluguel para os flagelados. E está sorteando 500 reais em batida de automóvel para os motoristas de táxi, para poder ouvir essa rádio. Então, o Ibope da Rádio está muito alto. O que é que acontece com isso? A Anatel vai vir aqui na Rádio Favela, olha que chique! Vai olhar todos equipamentos, para dar uma sigla que chama ZYC. Depois que der o ZYC, depois que a Rádio estiver toda bonitinha, dentro dos conformes, aí o instituto de pesquisa vai fornecer a real posição da Rádio Favela na pesquisa de opinião. É uma maravilha esses desgraçados! Estou tão preocupadim que nem estou dormindo! E outra coisa, o delegado... Mas isso aí você não escreve não! ...

A história

A Associação Cultural de Comunicação Comunitária Favela FM é uma entidade de caráter comunitário, sem fins lucrativos, que se estruturou a partir de iniciativa autônoma de moradores da Vila Nossa Senhora de Fátima, no Aglomerado da Serra, Belo Horizonte.

Sua origem remonta aos eventos de cunho musical e cultural que no final dos anos 70 constituíam alternativa de lazer nas ruas próximas à favela. A intenção de criar um espaço para divulgar música e cultura negra, falar da discriminação aos favelados e conscientizar a juventude quanto aos problemas relacionados à violência e às drogas. Assim, em 1981 entrou precariamente no ar a Rádio Favela, "a voz do morro", com transmissor à bateria e toca-discos a pilha: não havia energia no morro. A repressão reinante no País impedia a emissora de permanecer em um mesmo local por muito tempo. Mudava de barraco para barraco, ampliando gradativamente o número de pessoas com ela envolvidas.

A Favela FM teve seus transmissores lacrados por três vezes em função de perseguições políticas e policiais e ficou fora do ar devido a situações de calamidade (o barraco onde funcionava o estúdio foi inundado na época das chuvas, no ano de 1995), mas persistiu. Em 1996, instalada no alto de um aglomerado de mais de 160 mil habitantes, a emissora obteve alvará de funcionamento da Prefeitura e se estabeleceu legalmente como entidade cultural.



 
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