| A cabocla e a saúde nada pública - Uma história absolutamente verídica |
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| Rui Nogueira | |
![]() "Saúde é um direito de todos, dever do Estado". Isto subentende serviço público estruturado e com recursos. Assim é que Neuza procurou o Hospital do Gama (DF), e houve indicação de internação e provável cirurgia. Sua mais querida amiga, tida como filha, encontrou-a em meio ao tumulto de muitas macas, sem conforto ou privacidade. Uma situação de calamidade pública não oficializada e transformada em rotina, nada dimensionada para a demanda. Glíndia, a amiga da cabocla, ficou revoltada: estavam usando a fina e curta agulha de insulina para infusão venosa! Pronto-socorro sem agulhas? Furiosa, procurou farmácias próximas, todas cujos estoques tinham sido consumidos para os doentes internados no hospital. Um veterinário amigo salvou-a. Abriu sua loja e forneceu algumas agulhas. Pedido da doutora: retosigmoidoscopia — exame feito com um aparelho introduzido através do ânus para visualizar o reto e o intestino grosso. O aparelho está quebrado, veio a informação. A doutora procura o chefe de equipe, ouve colegas, busca fazer o exame em outro hospital do DF. Meia-noite e trinta. Conseguiram uma ambulância para levá-la a um hospital, a 25 km. Às duas horas da madrugada, Neusa, com um marca-passo (aparelho inserido no tórax que produz pequenos choques, induzindo o coração a bater no ritmo normal), está na mesa de exames para o procedimento que todos acham desagradável, feito por um jovem que talvez não compreendesse os pudores de uma senhora idosa. Manhã. Após rodar 50 km em ambulâncias, a cabocla estava de volta, já no centro cirúrgico, entubada para o início da cirurgia. Há necessidade de usar o bisturi elétrico que, pela cauterização dos vasos, diminui a hemorragia intra-operatória. Foi solicitado o imã para proteger o marca-passo. Onde está o imã? Procura-se na sala cirúrgica, na de preparo, na de material. Sumiu. Só havia um? Não há reserva? A cabocla, entubada, adormecia com a esperança de cura. Na sala, médicos e auxiliares com as mãos para cima, sem poder tocar em qualquer superfície para evitar contaminações ou explodir de raiva ante o absurdo da situação. E então, onde está o velho método brasileiro do quebra-galho? A amiga, Glíndia, estava a postos: — Como é que é? Não pode ser operada porque não há um imã? Como é o raio deste imã? Ela vai ser operada! Aguardem. No almoxarifado, nada. Saiu às carreiras para as lojas. Na primeira e na segunda, nada. Na terceira o dono ficou curioso: — Para que a senhora quer um imã? Glíndia mentiu, procurando sensibilizá-lo na busca. Disse que a mãe seria operada e, como tem um marca-passo, há necessidade do imã. — Precisa ser novo? — Não. O de um alto-falante velho serve. O lojista achou um, lá, bem no meio dos tarecos, velho, horrível, rasgado, cheio de poeira. Desmancharam-no. Lá estava o precioso imã. Cirurgia bem-sucedida, médicos atônitos: no intestino apenas um grande cálculo, sem sinais de câncer. À tarde, na sala de recuperação pós-cirúrgica, vem a notícia: não há vaga na Terapia Intensiva e ela deverá ser transportada para a UTI de outro hospital. A amiga interveio. Procurou o médico intensivista e ouviu: — Eu tenho vergonha de dizer, mas não há colchão para o leito vago. Ele estragou, não existe quem conserte nem está havendo reposição. Roxa de raiva, Glíndia retrucou: — Isso não vai ficar assim! Ela não vai sair daqui para outro hospital! Procurada, a chefe da equipe respondeu: — O que posso fazer? Apenas ceder o colchão, aqui, da sala de repouso. Não servia. Tinha que ser um tipo colchonete, com forro plastificado para se ajustar às macas da UTI. — Mas espere, disse a chefe. Ligou para o Centro Cirúrgico: — Vocês têm um colchão para emprestar? Resolvido. A cabocla pode ir para a UTI, não antes de uma disputa, quase aos tapas, por lençóis. E ainda restava a preocupação sobre os remédios que usaria. Dois dias na enfermaria. Idosa, veias fragilizadas, acessos venosos difíceis. Optaram pela punção da veia subclávia. Nova batalha. O único trocáter existente foi encontrado na farmácia hospitalar. Por ordem do diretor, sua secretária foi buscá-lo. Agora, um exercício de imaginação: qual seria a reação se uma parenta, irmã, filha ou esposa do governador ficasse internada e permanecesse, como a cabocla, 24 horas sem medicação por não haver trocáter para a punção subclávia? Não aconteceria. Imediatamente um exército de puxa-sacos seria mobilizado pelo setor político para tudo transcorrer bem. Quebra-galho, só para caboclos, assim mesmo os que têm sorte e amigos. A massa sofre, até morre, sem perceber o absurdo das coisas. II
Se alguma dessas passagens chegasse aos jornais, haveria a clássica afirmação das autoridades: "Será aberta rigorosa sindicância para apurar tudo e punir os responsáveis." Que pesadelo!
Poucos sabiam, entre eles o diretor, aquele que sempre pretendeu permanecer assistindo seus doentes, mas estava ali, na administração. Ele acompanhou o hospital desde o seu nascedouro, há mais de 40 anos. A assistência médica do DF era administrada por um sistema de Fundação, até que um técnico "espoleta", que nunca transitou no dia-a-dia do atendimento, recomendou a extinção da Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF). Sequer uma única reunião foi realizada para verificar se haveria qualquer conveniência para adotar a medida. Ninguém discutiu nada, os sindicatos não se manifestaram.
III
Bem, a cabocla Neuza vai para casa. *Rui Nogueira, frequentemente solicitado para proferir palestras em todo o país, é médico e escritor. Autor de Servos da moeda; Petrobrás, orgulho de ser brasileira e Nação do Sol. |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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