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Ano II, nº 17, março de 2004
A causa do desemprego | A causa do desemprego |
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| Adriano Benayon* | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Para avaliar o desemprego no Brasil, não há que confiar nas estatísticas divulgadas na mídia. O índice do IBGE só considera desempregados os que procuraram vaga nos 30 dias anteriores à resposta ao questionário. A pesquisa restringe-se às seis maiores regiões metropolitanas. Quem teve alguma ocupação precária (bico) na semana anterior à pesquisa tampouco conta como desempregado. Já o Dieese inclui os que procuraram trabalho nos 12 meses anteriores à pesquisa e tiveram somente atividade precária ou não remunerada. Segundo o Dieese, o desemprego está em 19% na região metropolitana de São Paulo. Em contraste com esses dados — o IBGE aponta a média de 12,3% em 2003 —, pode-se demonstrar que o índice real de desemprego ultrapassa 25% da População Economicamente Ativa (PEA). Supera, ademais, 30% da PEA, se nela se incluir, como deve ser, grande parte da População em Idade Ativa (PIA) que não figura na PEA. Essas pessoas não entram nesta, porque supostamente não estão mais buscando emprego. O desalento de muitas delas é um dos resultados da política econômica aplicada no Brasil há, pelo menos, 40 anos, e à qual o PT dá continuidade com açodamento crescente. Milhões de brasileiros estão desesperançados. Cansaram de correr atrás de oportunidades que ficaram cada vez mais raras, tornando-se miragens. Provas de 30% ou mais de desemprego1. Aumento da população economicamente ativa menos emprego — 1991-2003
Conforme estudo do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), elaborado para a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), foram abertos 15,5 milhões de empregos, do início de 1991 ao fim de 2001, mas 12,3 milhões foram eliminados. Com isso o saldo foi de 3,2 milhões de empregos. Esse padrão não mudou em 2002 e 2003. Só houve saldo positivo nas ocupações informais e por conta própria. A deterioração está ligada ao declínio da formação bruta de capital fixo, isto é, do investimento produtivo. Por isso, na melhor das hipóteses, a média até 2003 não fica acima da que vai até 2001: 300 mil. Assim, de 1991 a 2003, o acumulado fica em 3,8 milhões. 2. 1981-1990 Para avaliar o aumento do desemprego anterior ao período analisado na UFRJ, temos uns dados: o crescimento do PIB e a taxa de investimento fixo em relação a ele, de 1974 a 2003 discriminados na tabela 1.
Limitemos a análise do desemprego aos dez últimos anos desse período, ou seja, 1981 a 1990, no qual a PEA ganhou, pelo menos, cerca de 1,4 milhão de pessoas por ano. 3. Modelo gerador de desemprego O atual governo subestima, pois, de modo acintoso, o desemprego a que conduziu o modelo econômico que ele aceita e aplica por inteiro. Esse modelo, determinado não pelas prioridades nacionais, mas pelas dos potentados da oligarquia financeira internacional, já fazia água desde o final dos anos 70, quando se desenhou a crise da dívida externa, a qual passou a crescer em função de créditos tomados somente para rolar dívidas, ao custo de comissões e taxas absurdas.
De fato, os dados da tabela 1 o condenam inapelavelmente. A política econômica tem levado à queda continuada do investimento produtivo, e a taxa de crescimento do PIB tem sido lastimável desde os anos 80.
A destruição estrutural da economia nos anos 90 foi iniciada nos anos 80 juntamente — e não por acaso — com a crise das contas externas. Acelerou-se, desde 1983, em consequência das condicionalidades impostas pelo FMI na reestruturação dos débitos. A crise derivada do modelo foi o instrumento para que ele próprio passasse a imperar de modo absoluto. De há muito, se transferia o controle da produção e dos mercados às empresas transnacionais. A tendência vem sendo levada a extremos e culminou com a total transferência da direção política para as mãos dos executores das diretivas do Banco Mundial e do FMI. Categorias de “ocupados”
A dimensão do desemprego pode ser também apreciada nos dados da PNAD. Para o ano de 2001, o último disponível, haveria 75,5 milhões de ocupados e 7,8 milhões de desocupados. Somando-os, tem-se a PEA de 83,3 milhões. O desemprego oficial era naquele ano, portanto, de 9,4% da PEA. Mas, entre os “ocupados” figuram segmentos cuja condição não justifica a inclusão nesse conjunto: 4,4 milhões em trabalhos domésticos sem carteira assinada; 5,6 milhões em “ocupações” não remuneradas; 2,9 milhões em consumo próprio; 150 mil em construção própria. PIA, PEA e desemprego
A PIA (População em Idade Ativa), segundo o critério oficial, monta a 143,3 milhões, abrangendo todos os maiores de 10 anos de idade. A população total do Brasil é 176,9 milhões em 2003. Adotando critério mais restritivo, excluímos do total os que estão na faixa de 10 a 14 anos e os da faixa de 70 anos ou mais. Ainda assim, há 118,2 milhões de brasileiros em idade de trabalhar. Há também 1,5 milhão de crianças de 10 a 14 anos, que estão trabalhando. Assim, a PIA, em sentido restrito, fica com 120 milhões, quer dizer, 32 milhões mais do que a PEA. Esta deve incluir todos em condições de trabalhar e com intenção de fazê-lo, não sendo concebível que, nas árduas condições de vida do país, 32 milhões de pessoas em idade ativa não desejem obter ganhos de seu trabalho. Rendimentos zero ou muito poucoO desastre envolve também a esmagadora maioria dos que ainda escapam do desemprego. Conforme o censo do IBGE para 2002, dos 140,4 milhões que constituíam a PIA, 51,4 milhões de brasileiros não tinham rendimento algum, 1,2 milhão nada havia declarado, e 9,4 milhões ganhavam até meio salário mínimo. Esses segmentos somam 62 milhões de pessoas, quer sejam, 44% da PIA. Acrescentando-se os que percebiam de meio a um salário mínimo (21,2 milhões), o aterrador resultado mostra 83,2 milhões de brasileiros, ou 59,3% da PIA, sem meios de subsistência. Ganhando um salário mínimo, ou mais, só havia, em 2002, 57,2 milhões, ou seja 66,4% da PEA. O dado implica que 33,6% da PEA nada ganham ou têm “remuneração” inferior a um salário mínimo. A tabela 2 mostra as faixas de rendimentos e o número de pessoas em cada uma delas. A fonte é o IBGE, e os dados referem-se a 2002.
A implosão dos saláriosNão faltam, pois, demonstrações cabais de que o modelo econômico, caracterizado pela predominância de grandes empresas transnacionais, vem destruindo as perspectivas de desenvolvimento e até mesmo as condições de o país manter sua independência e integridade. Há mais provas desse diagnóstico, como a trajetória da participação dos salários no produto interno bruto, ao longo dos últimos 40 anos. Em 1964, ela era de 62,3%. Ela caiu para 45,4% em 1990, para 37,2% em 2000 e para 36,1% em 2002. Agora, sob o Executivo e Legislativo comandados pelo PT, a participação dos salários tomba para 31,5% do PIB. O declínio é, portanto, contínuo e abissal. Pior, agora o declive é mais agudo: a perda em um só ano (2003) foi de 4,6 pontos percentuais. Causas imediatas do descalabro social1. Investimento federal zero
A brutal queda da participação dos salários na renda nacional não é obra do acaso. Tendo por arautos locais o presidente aposentado do Banco de Boston, à frente do Banco Central, e o ministro da Fazenda, do partido dito dos trabalhadores, foi intensificada a política, generosa para com os bancos, de não só priorizar, mas de maximizar o pagamento de juros da dívida engendrada pelo próprio modelo. Para isso, o atual governo corta ainda mais os gastos federais produtivos e promove os juros reais mais elevados do mundo, incrivelmente patrocinados pelo próprio país devedor. 2. Juros de agiotagem e dívida pública crescente
Os juros pagos pela União atingiram, segundo o Banco Central, R$ 145,2 bilhões em 2003. Para pagá-los o governo federal arrancou um superávit primário inédito (saldo do orçamento sem incluir as despesas de juros): 66,2 bilhões, igual a 4,32% do PIB. Além disso, gastou com os juros mais R$ 79 bilhões, que é o déficit do Orçamento da União, ou seja, 5,16% do PIB. Os juros públicos correspondem, portanto, a 9,5% do PIB. Eles consumiram a metade das receitas dos impostos e contribuições arrecadados pela União.
A extorsão nas taxas de juros pagas pelas pessoas físicas não conhece limites e constitui violação grosseira dos direitos humanos. Ainda estão em 66,6% aa. Nos cheques especiais, a média dispensa comentários: 144,6% aa. anuais. É o primeiro lugar mundial em matéria de lesar clientes. 3. Tributos abusivos para enriquecer bancos
Entre os descalabros causados pelos juros abusivos, está a sugação dos brasileiros por meio de impostos e contribuições abusivos, que continuam sendo aumentados pelo atual governo. Basta lembrar a elevação da alíquota da COFINS e o congelamento das faixas de rendimentos sujeitas ao imposto de renda; sem corrigi-las de acordo com a inflação. 4. Autonomia do Banco Central: legalização da ditadura Em face dessas realidades, defender a autonomia do Banco Central é pronunciar-se a favor da liquidação do Brasil e tripudiar sobre o sofrimento e da morte de milhões de seus cidadãos. Essa instituição federal prima por devastar a economia brasileira em benefício de muito poucos. O atual comando do Banco Central pretende ser autônomo por lei, além de discricionário de fato, o que já é. Com que fim? Ele vem sendo pelo menos tão condescendente como o governo anterior para com os concentradores privados do setor financeiro, os grandes bancos comerciais estrangeiros e dois ou três grandes locais a eles associados. *Adriano Benayon é Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de Globalização versus desenvolvimento. Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email 1 A média de aumento da população de 1975 a 1981 foi 9,3% superior à de 1982 a 1987 (períodos com defasagem de 16 anos em relação aos de 1991 a 1997 e de 1998 a 2003). Isso é notável porque na fase mais antiga a base da população era menor. O fato de sua média de aumento ser, não obstante, maior do que a do período mais recente se explica pela brutal queda da taxa de natalidade no país, causada pela intervenção de Fundações norte-americanas custeadas por mega-empresas transnacionais e por ONGs com semelhantes fontes de recursos. A taxa de fecundidade caiu de 6,3% em 1960 para 2,4% em 2000.
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