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A escola portátil de brasilidade PDF Imprimir E-mail
José Ricardo Prieto   

Sete anos de funcionamento. E continua irredutível na sua missão de formar excelentes músicos, de elevar e popularizar um gênero autêntico da música brasileira.
Fosse apenas isso...
Não foi bem um "crescimento acompanhado de qualidade". A Escola Portátil de Música já nasceu imensa na sua essência. Respeitada. Influente. No Brasil e no exterior.



A escola funciona no Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro — UniRio. As aulas são ministradas aos sábados em dois turnos.

Tradicionalmente as duas turmas se encontram ao meio-dia, quando formam uma grande orquestra onde predominam os instrumentos do choro — cavaquinho, bandolim, pandeiro, flauta, violão — , mas também há tuba, trombone, bombardino, saxofone, bateria e percussão, contra-baixo acústico, clarineta, acordeon...

E aí reside o problema.

Sabe lá o que significa 600 alunos tocando choro, de uma vez só?

Parece mentira, mas existe música brasileira, apesar da TV.

Há também cursos de piano, canto de samba-choro — além de harmonia, arranjo e composição para os alunos mais avançados.

De todos os lados

Os alunos vão chegando dos mais diversos bairros. Mas se encontra gente — como Os Matutos, conjunto formado na escola — que vem de Cordeiro, no interior do estado do Rio.

Magno Júlio, o percussionista d'Os Matutos já trabalha como monitor da escola. Antes da imensa banda se apresentar, encontramos Magno auxiliando e apresentando novos instrumentos a Ismael Marcos Ferreira. Ismael é cego e tem uma história de abandono, só conhecendo a vida em sociedade e a música aos 14 anos. Com um talento surpreendente, ele corre para recuperar o tempo.

— Ismael tinha 13 anos quando chegou ao Instituto Benjamin Constant. Vivia como um animal. Quando morreu a mãe, a avó o levou ao Instituto e, depois, minha irmã o adotou. A partir daí ele conheceu a música e descobriu o mundo. O problema dele não era mental, como pensavam, mas de socialização. Agora a música é tudo para ele — resume Marijô Castro, que acompanhava Ismael.

E Ismael se orgulha do que já aprendeu em tão pouco tempo:

— Eu comecei na música há uns 3 anos, tocando piano e bateria. Toco vários instrumentos, agora. Adoro choro, música clássica, samba, maxixe, frevo.

Um certo mestre

Era sábado, 25 de agosto. A um canto, sempre cercado de admiradores, havia um mestre transmitindo uma imensa alegria a quem dele se acercasse. Súbito, seu nome foi anunciado. Prontamente aquela multidão de músicos se colocou de pé e explodiu um entusiasmado aplauso. Era o grande Altamiro Carrilho. Mestre, amigo, personalidade brasileira, expoente de nossa música mais autêntica. Ao lado, outro mestre, o irmão e igualmente estimado, Álvaro Carrilho.

Há mais dois conjuntos na escola.

A Furiosa Portátil é composta na maioria por instrumentos de sopro, ou metais, dirigida pela arranjadora, compositora e produtora musical Bia Paes Leme. Há também a Camerata Portátil, onde preponderam os instrumentos de corda, dirigida pelo bandolinista Marcílio Lopes, a flautista Naomi Kumamoto e o cavaquinista Jayme Vignoli. Esses dois conjuntos já fazem apresentações. Claro, é sucesso garantido por onde passa.

Incansáveis, os responsáveis pelo Instituto Casa do Choro e pela Escola Portátil ainda organizam, há três anos, o Festival Nacional de Choro.

Portátil crescente

O de 2007 é o terceiro festival. Foi realizado em São Pedro, interior de São Paulo, num hotel-fazenda. Durante oito dias, 246 alunos de diversos estados brasileiros, além de músicos da Argentina, França, Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Espanha, Japão e Suíça participaram de cursos, palestras, apresentações e respiraram choro em tempo integral.

— Tenho 60 anos e moro no Rio de Janeiro há 40. Desde os 20 anos toco violão. Sempre fui autodidata. Agora, estou estudando sistematicamente. Conheci a Escola Portátil através da minha filha, que toca flauta. Ela participou de um festival da escola e vi sua apresentação. Observei a turma e percebi que tinha pessoas de todas as idades. Estou adorando e aprendendo muita coisa — diz Luciano de Oliveira, que se preparava para participar do empolgante "bandão" da Escola Portátil.

O choro tem sua origem nas camadas médias urbanas. Não permite o estrelismo alimentado no meio comercial. Entre os chorões isso não impressiona, mas participantes estrangeiros do III Festival Nacional de Choro se surpreenderam com a proximidade entre os mestres e os demais participantes.

— Eu imaginava que seria como os festivais no USA, onde você assiste a um concerto de uma grande estrela, e depois, se der sorte, pode apertar a mão dela no hotel. Mas aqui não. As grandes estrelas faziam os shows e depois iam para a roda de choro tocar e conversar com os alunos. (...) Agora só penso em juntar dinheiro no USA durante o ano para voltar em 2008 — disse o pandeirista estadunidense Jason Litle em depoimento tomado por Nana Vaz de Castro, da Escola Portátil.



 
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