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Ano I, nº 11, julho de 2003
A gerência petista e os destinos históricos do oportunismo eleitoreiro | A gerência petista e os destinos históricos do oportunismo eleitoreiro |
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| Professor Fausto Arruda | |
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Diante de tanta pressão, da intensificação do conflito interno na base aliada na guerra pela tramitação das reformas antipovo do governo, da exacerbação das contradições com os descontentes taxados de "radicais" pelos monopólios das comunicações, cada vez mais, os meios oficiais prometem um tal "plano II". Tanto no plano interno partidário quanto para o público externo, os chefes petistas têm assegurado que as "medidas amargas" que estão implementando como ato contínuo da gerência anterior de Cardoso com incrementação das metas exigidas pela banca internacional, tais como a manutenção das altas taxas de juros, o superávit primário e autonomia das agências com o assalto das tarifas são medidas imprescindíveis, pois são heranças do passado. Afirmam que se trata da velha economia e que, tão logo a situação permita, a nova economia será implementada. Assim, sustentam que o aprofundamento na aplicação de tão criminosa política que afunda o país na subjugação ao império e o povo na superexploração, desemprego, miséria e abandono completos são a base para se assegurar a tal retomada do "crescimento com justiça social". Com este batido conto do vigário acenam com tal "plano II". Este seria a nova economia, o verdadeiro "plano" do PT e da frente "popular" eleitoreira que encabeça. Verdade seja dita, seis meses de administração são mais que suficientes para deixar patente a fraude e traição nacional do governo da "esperança". Mas, como a mentira, o engano, a demagogia, a esperteza e a astúcia são a arte das classes decadentes fazerem a política, é necessário ir além do seu desmascaramento. É necessário contrarrestar argumento por argumento, medida por medida. De fato, merece todo respeito quem, por razão que seja, depositou e ainda deposita suas esperanças nas promessas do presidente Luiz Inácio, diferentemente dos velhacos de dentro e fora do governo que maquinam dia e noite contra os direitos do povo e a soberania da Nação. Espera mesmo compreender mais a realidade para se tornar o agente dinâmico e transformador da mesma, liberador de novas forças para realização de suas legítimas aspirações e da construção de uma nova sociedade, verdadeiramente democrática, livre de tantas mazelas que nos infelicita, livre mesmo da pior das violências: a exploração do homem pelo homem. Existe mesmo tal "plano II"? E o que seria ele? Para dar a resposta é preciso extraí-la de bases concretas. Para se julgar a posição de uma pessoa ou de uma organização, não se pode fazê-la partindo do que dizem de si próprios, mas objetivamente apoiados na verificação da sua prática concreta. A história e a prática social como critérios da verdadeO triunfo eleitoral petista, diríamos mais, da frente "popular" eleitoreira e oportunista, resultou diretamente da conjugação de três fatores fundamentalmente: 1) aguda divisão das classes dominantes reacionárias em função da crise econômica no país, agravada pela crise mundial do capitalismo. Sobre esta base tem se aprofundado uma crise social, política e moral que se expressa na decomposição do velho Estado. Neste aspecto, a ruptura de Antônio Carlos Magalhães com o governo de Cardoso, no início de 2001, representou uma inflexão neste processo, acelerando-o. Numa situação assim tornou-se impossível às classes dominantes disputarem as eleições com candidatura única, menos ainda unificar a orquestração dos monopólios de comunicações; 2) um crescente e massivo descontentamento das massas com o governo, cuja maior parte se canalizou no processo eleitoral votando na oposição1; e 3) no campo da oposição, se fortaleceu o protagonismo do oportunismo unindo-se, todo ele, numa frente única com setores da burguesia burocrática, o que se consolidou amplamente para o segundo turno das eleições2. Além disso, o grupo palaciano não foi capaz de viabilizar uma candidatura que representasse sua coesão. José Serra se impôs e a ação palaciana para inviabilizar as candidaturas que concorriam diretamente em seu campo (Roseana Sarney e Ciro Gomes) só fez empurrar as bases destas para a candidatura Luiz Inácio. É importante ressaltar dois aspectos, pelo menos, que caracterizam historicamente as relações entre PT e Sarney. O primeiro é o de que o PT teve no governo Sarney, com o fracasso do Plano Cruzado, o seu verdadeiro boom, cresceu em saltos. O Plano Cruzado foi concebido e levado a cabo no objetivo demagógico de dar lastro de popularidade ao governo Sarney, que carecia completamente de qualquer legitimidade. Surgido da dissidência do regime militar e como vice na chapa de Tancredo Neves, eleitos via Colégio Eleitoral, e tendo Tancredo falecido no dia da posse, Sarney ficou solto no espaço, gerando grave crise política na transição do gerenciamento militar ao civil. Tanto foi que, assim que se deram as eleições de 1986 para governo de estados, para câmara federal e senado, bem como para as assembléias legislativas com o triunfo completo do PMDB, além de dar ao PFL nova roupagem para a sustentação política das classes dominantes mal fechavam as urnas, caía o Plano Cruzado, golpeando dolorosamente as massas populares. Tal traição foi tudo que o PT precisava para viabilizar-se como partido nacional de oposição eleitoral radical. Já as eleições municipais de 1988 consagravam o PT em grandes e médias cidades do país. Neste mesmo cenário político, por sua vez, a intervenção do Exército na greve de metalúrgicos, ocupando a Usina de Volta Redonda reprimindo e assassinando covardemente três operários, uma vez mais, confirmava a posição do velho e reacionário Estado brasileiro frente à luta popular, de uma forma geral, e, particularmente, dentro de uma situação revolucionária como a que então chegara o país à época.
Seis meses de administração são mais que suficientes O segundo fato é o do período mais recente, quando a candidatura petista necessitava soldar mais profundamente a aliança com as classes dominantes, precisamente com sua fração burocrática cujo setor foi o mais golpeado a partir da gerência de Collor, mas principalmente de Cardoso passara a desfraldar bandeiras "nacionalistas", buscando uma candidatura que lhe propiciasse retornar ao controle central do aparelho de Estado. José Sarney, frustrada a candidatura de sua filha Roseana, surge como um presente que "caíra dos céus", passando com armas e bagagens para a candidatura petista. Esses dois fatos conformam um paradoxo que é, por isto mesmo, um exemplar muito representativo da tradicional política oficial de nosso país, ilustrando sobejamente o quanto as nossas classes dominantes, histórica e secularmente, manejam a política enredando débeis opositores em seus estratagemas de dominação e pela perpetuação da mesma. Neste sentido, a vitória eleitoral de Luiz Inácio resultou de uma aliança de dois elementos, que em aparência iludiam aos olhos incautos como extremos que somente podiam repelir-se. Da oposição mais radical à colaboração mais desavergonhada.
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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