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Ano VI. nº 38, dezembro de 2007
A propaganda desta Tropa da elite | A propaganda desta Tropa da elite |
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| José Ricardo Prieto e Patrick Granja | |
Tropa de Elite nem estreou e já era um sucesso. Cópias foram retiradas da produtora e se espalharam aos milhões, primeiro pelo Rio de Janeiro, depois por todo o Brasil. Não será exagero afirmar que este é o filme brasileiro mais visto de todos os tempos.
Mas, a principal polêmica gerada pelo filme não é a pirataria, e sim o próprio caráter da obra. O momento para o lançamento do filme não podia ser melhor escolhido, porque a política de extermínio contra o povo das favelas do Rio de Janeiro está sendo aplicada com mais esmero que nunca pelas polícias, comandadas pelo gerente estadual Sérgio Cabral Filho. De maio até aqui dezenas de pessoas foram caçadas e mortas pela polícia, que institucionalizou os grupos de extermínio, justificando com a "política do enfrentamento ao tráfico" os seguidos assassinatos de moradores das favelas. O filme não pode ser analisado fora deste contexto, porque ele traz uma série de preconceitos contra o povo e até mesmo contra a pequena burguesia — a chamada classe média. Matar é melhor que roubarA primeira idéia que o filme tenta incutir é essa. A primeira metade do filme mostra que a corrupção na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro atingiu proporção gigantesca. Só não diz que à corrupção da polícia corresponde a corrupção do Estado, já que é parte dele. São mostradas as extorsões aos traficantes varejistas, aos comerciantes, bordéis, bicheiros e até aos flanelinhas. A estrutura viciada da polícia, chamada de "convencional" pelo Capitão Nascimento (Wagner Moura), é retratada com as cores mais vivas, mas não em tom de denúncia. No meio dessa lama estão os aspirantes Mathias (André Ramiro) e Neto (Caio Junqueira), que são honestos demais para a polícia e humanos demais para o Bope. Aí a narrativa envereda pelo elogio do Bope, como uma publicidade institucional. O Batalhão de operações especiais da polícia do Rio aparece como incorruptível o filme todo. "No Bope, corrupto não entra", repete o Capitão Nascimento durante o treinamento. Primeiro, a narrativa tenta convencer que o Bope é uma coisa e a polícia é outra, como se o Bope não fosse um batalhão, uma fração da Polícia, assim como a Polícia é uma fração do Estado. Fora do Rio de Janeiro, talvez este discurso tenha surtido mais efeito, mas o fato é que na cidade, todos aqueles que são honestos e bons observadores não caem nesta armadilha. A blindagem do Bope contra a corrupção é um mito muito frágil para quem conhece minimamente a realidade carioca. É o que atesta a declaração de um sargento da PM ao jornal O Globo de 20 de setembro: — Essa história de tropa incorruptível é balela. Tanto agora quanto no tempo em que o efetivo era menor. Há uns dois ou três anos houve uma operação no Morro dos Macacos (Vila Isabel) e pegaram um ‘caveira’ negociando com bandido para soltar o traficante Scooby Doo. Há pouco, na Operação Gladiador, foi preso o major Vasconcelos, que também era ‘caveira’! E fazendo eco com todos os clamores dos setores mais reacionários da sociedade brasileira, a polícia que mata é declarada melhor que a polícia que rouba. Tal discurso é coerente com a política de criminalização da pobreza e extermínio dos indesejáveis. Nada mais ilustrativo e deprimente que os gritinhos orgásticos da platéia que assistiu a pré-estréia do filme no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, ocorrido em setembro. O pequeno tráficoA venda a varejo de drogas nas favelas é o maior problema do Rio de Janeiro, segundo o filme do diretor José Padilha. Nada mais falso. O tráfico de drogas nunca foi e nunca será combatido pelo velho Estado, principalmente na fase mais degenerada do capitalismo, o imperialismo. O comércio de drogas nada mais é que parte de toda a economia dos monopólios, assim como o tráfico de armas, que movimentam bilhões de dólares todos os anos no mundo todo. Dinheiro esse que é devidamente "lavado" pelos bancos e que o imperialismo não quer e não pode abrir mão. Diga-se de passagem, as armas e munições usadas pelos traficantes, assim como as drogas lá vendidas, não são produzidas em nenhum morro carioca. Sabendo que as indústrias de armas são as principais interessadas no consumo de seu produto, é possível concluir também quem são os atacadistas do tráfico de armas. Num mundo onde todos os setores da economia se encontram monopolizados, é tolice achar que a queda de alguns varejistas resolveria o problema da violência, venda e consumo de drogas em uma cidade. O consumo de drogas, por exemplo, até o golpe fascista de 64 era tratado como um problema de saúde pública. Após 64, os militares incorporam a política ianque da chamada "guerra contra as drogas", criminalizando seletivamente o consumo de drogas — todas as demais como cigarros, álcool, anti-depressivos, etc., são livremente consumidas e até estimuladas. A estratégia da criminalização, além de negócio altamente lucrativo — pois sem esta política de guerra, o mega aparelhamento bélico do Estado e dos comerciantes de drogas não se justificaria — funciona como eficiente agente despolitizador. Tal combate ao tráfico vem ainda travestido de guerra, desculpa para ocultar a flagrante desproporção entre as forças supostamente em disputa e a grande mortandade sem prisão ou julgamento. Ressalte-se que as vítimas "civis" de uma guerra entram nas estatísticas como "efeitos colaterais". O consumo dos médiosTropa de elite ainda insiste numa ilação, até certo ponto aceita e alimentada, de que os culpados pelo tráfico são os consumidores de drogas, localizados pela narrativa do filme na PUC. Esse é outro mito que vem sendo alimentado já há algum tempo. Há pouco foi veiculado um comercial na TV, onde um usuário compra a droga, o traficante compra a munição e uma criança é atingida por uma bala perdida. Muito mais do que se pretende, uma campanha de "conscientização", tal publicidade quer é ampliar o leque das classes criminalizadas. É necessário colocar sob vigilância e reprimir também a camada inferior da "classe média", porque ela está sendo empurrada cada vez mais para baixo pela ruína da economia nacional que se aprofunda sempre que os gerentes semicoloniais obedecem aos desígnios do capital financeiro. E assim a pequena burguesia se vê na situação de, por um lado, engrossar a "opinião pública" de que as classes subalternas devem ser tratadas como inimigos da sociedade e, por outro, ver uma parte de si mesma criminalizada. O mito da coragem infinitaO Bope não é aquele do filme. Não é hoje, nem no ano retratado no filme. É uma tropa feita para matar, que sobe os morros dentro de veículos blindados, atirando a esmo e matando indiscriminadamente. O Bope é parte de um aparelho complexo que submete as populações mais empobrecidas a momentos do terror estatal mais covarde e sua preocupação não é a perda de crianças para o tráfico de drogas, como diz o Capitão Nascimento, mas continuar alimentando o pânico na população, contendo por esse meio as massas que, empurradas pela miséria mais brutal, começam a se movimentar. E se as operações da tropa de elite são tão bem planejadas, estrategicamente preparadas, com um serviço de inteligência tão primoroso, porque praticam a tortura? A sociedade atordoada, já tão acostumada às maiores violências, já nem se escandaliza mais com a tortura. É bem verdade que ela nunca deixou de ser praticada nos porões da repressão, mas nunca foi tão forte a gritaria pela sua institucionalização, como recentemente ocorreu no USA, num decreto de Bush que autoriza sua prática nos prisioneiros da guerra suja imperialista. As imagens em que eram mostradas mutilações em prisioneiros dos campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial só foram encontradas depois da libertação, principalmente pelo Exército Vermelho. Nem mesmo os nazistas utilizavam imagens de tortura como peças de propaganda. E tudo isso é apresentado com honras e glórias em Tropa de Elite. Fascista ao cuboO "combate à violência" e ao "tráfico de drogas" como política de controle social sobre classes oprimidas, busca ocultar as relações sociais que estão na base dos ataques do Estado. Assim como foi a proibição da capoeira para atacar os escravos no séc XIX, a perseguição ao samba nas favelas no século passado, é a criminalização do "Tráfico de drogas" que têm como objetivo criminalizar o povo pobre, particularmente sua parcela mais jovem vulgarmente chamada de "menores", que cheios de energia em meio a mais completa falta de perspectivas, representam uma verdadeira ameaça às classes reacionárias. Superexploração, desemprego, falta de habitação, ausência de serviços essenciais como água e energia elétrica, hospitais público em ruínas, escolas e universidades deterioradas e sem qualidade, transporte público péssimo e insuficiente. Nenhum desses problemas é sequer tocado no filme. A criminalidade sim e, principalmente o tráfico de drogas, é apontado como o problema principal, que será resolvido pelo Capitão Nascimento ou o aspirante Mathias, que na última cena do filme deixou de ser homem para comandar o Bope. Todas as "nossas" esperanças estão depositadas num pequeno grupo de salvadores e é sintomático que esse grupo seja composto por militares. Depositar todas as esperanças na polícia: é o que as classes reacionárias mais desejam que o povo pense, porque as massas já perderam as esperanças nos políticos. Muitos podem não ter percebido, mas a militarização da sociedade é uma das principais características do fascismo. Vem se somar ao desenvolvimento cada vez maior do Estado penal, que passará a existir apenas para reprimir as "classes perigosas" desnudando assim sua verdadeira natureza, a de organização especial da força das classes dominantes para a repressão e controle das classes dominadas. Talvez porque já vivamos em pleno fascismo, tais coisas possam ser apresentadas sem que se abalem as estruturas da sociedade. Outra característica do fascismo é a corporativização da sociedade, que se dá hoje através dos programas caritativos como o bolsa-esmola do FMI-PT e a cooptação dos sindicatos e demais movimentos sociais, que se tornaram já apêndices do velho Estado. O que Tropa não mostra |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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