|
Página 1 de 2
Os monopólios dos meios de comunicação buscam assegurar que a China é um país socialista de economia aberta. Omitem os vários golpes de Estado perpetrados ao final da Grande Revolução Cultural Proletária, alguns dos quais atingiram o gravemente o Partido Comunista da China.
A camarilha que finalmente tomou o poder em outubro de 1976 cuidou de conservar a bandeira e outros símbolos do período socialista, e também de proceder a mais terrível contra-revolução conhecida na China. Empreendeu a campanha do extermínio físico de milhares de quadros comunistas e cuidou de promover outros tantos quadros contra-revolucionários, aprofundou a restauração do capitalismo na economia, na política e na cultura, instaurando o regime fascista e associado ao imperialismo.
Nesses termos, é oportuna a publicação da entrevista de Li Minqi, apesar de se tratar de uma personalidade que esteve presente em acontecimentos que correspondem a uma fase já bem mais adiantada da degeneração imperialista na China. (N.R.)

Protestos na praça em 2001
Li Minqi tem uma perspectiva muito particular sobre o 15º aniversário do Massacre da Praça Tien na-men, quando o governo chinês matou operários e estudantes na capital, Pekin. Li participou dos protestos e acontecimentos de 1989. Em 1990, foi preso pelo governo de Teng Shiao ping e passou dois anos detido. Hoje, Li é um marxista dedicado a forjar um novo movimento revolucionário contra a classe dominante de capitalistas burocráticos.
O economista político Raymond Lotta o entrevistou em maio de 1999. A entrevista apareceu pela primeira vez no Obrero Revolucionário nº1099, por ocasião do 10° aniversário dos protestos em Pekin.
OR — Fale-nos de suas atividades como militante do movimento de 1989.
Li — Em 1989 estudava economia na Universidade de Pekin. Participei do movimento estudantil de 1988 e posteriormente ingressei no movimento democrático. Creio que tinha a mesma consciência política que a maioria dos universitários de então.
Nesse momento, o governo impulsionava o desenvolvimento capitalista. A ideologia burguesa estava substituindo o marxismo-leninismo, de forma que aquela predominava no meio estudantil. Eu não era exceção, ou seja, aceitava a ideologia do ocidente, pró-capitalista. Acreditava na democracia e no capitalismo do ocidente. Com este ponto de vista político, ingressei no movimento quando este eclodiu, em 15 de abril de 1989.
OR — Começou como um movimento estudantil, mas gerou muitíssima simpatia e se transformou num movimento mais amplo. Que acontecia na sociedade chinesa naquele momento?
Li — Essa pergunta é muito importante, porque é evidente que o movimento de 1989 não era simplesmente um movimento estudantil. Chegou a ser um movimento democrático em escala nacional, precisamente pela participação das demais classes sociais e isso o diferenciou dos outros movimentos estudantis dos anos 80.
Antes de 1989 eclodiram vários movimentos estudantis que não chegaram a ser movimentos de massa em escala nacional. É importante apreender esse aspecto social.
OR — Então, por que aconteceu assim?
Li — Em poucas palavras, no fim dos anos 70, a sociedade chinesa — a política, a economia e sobretudo a direção do Partido Comunista da China — experimentou uma mudança fundamental: começou a fomentar o desenvolvimento capitalista. Esse tipo de desenvolvimento encerrava um problema: os consideráveis direitos econômicos e sociais que os operários desfrutavam em consequência da Revolução de 1949 se chocaram com as exigências da acumulação e exploração capitalista. Por isso, era natural que o governo lançasse programas, reformas etc., com o objetivo de eliminar esses direitos.
Durante os anos 80, a contradição entre a classe operária e a dominante se agudizou e os operários nutriam cada vez mais rancor aos governantes.
OR — Poderia dar alguns exemplos?
Li — Um exemplo muito claro é o do “prato de arroz”, uma política que garantia o direito ao emprego — fruto da revolução socialista — e serviços elementares, como saúde, moradia e coisas básicas. Tudo isso sofreu grandes mudanças durante o período de “reformas”.
O governo queria eliminar a segurança econômica. Falava de “quebrar o prato” e substituir o sistema de empregos fixos pelo chamado “sistema de emprego por contrato”, com o objetivo de lograr maior “flexibilidade” no mercado trabalhista, além da rédea solta aos gerente das empresas estatais para castigar e demitir os operários. Socavavam os direitos dos operários. No período socialista se deram “duas participações” (dos quadros na produção e dos operários na gerência), eliminação de regulamentos opressivos e colaboração de quadros, operários e técnicos para inovação tecnológica.
Com a “reforma” se reinstituiu o sistema de gerência de um homem, outorgando poderes exclusivamente ao gerente da fábrica e ignorando o direito democrático dos operários de participar da gerência. Por exemplo, muitos gerentes cometiam abusos, impondo multas e castigos aos trabalhadores. A disparidade entre os salários de operários e gerentes aumentou nos anos 80.
Segundo a investigação do sindicato oficial, a Federação de Sindicatos da China, o descontentamento dos operários com as reformas e os quadros cresceu também nesses anos.
OR — Os estudantes protestavam contra a falta de direitos políticos, abusos e corrupção nos altos níveis do Partido e do governo. Verdade?
Li — Efetivamente. Os estudantes intelectuais gozam de uma posição social relativamente privilegiada se comparada aos trabalhadores, mas carecem de poder político com relação à classe burocrática. Isso provocava inconformidade, isto é, queriam que a dita classe lhes concedesse certo poder político.
Em geral, os intelectuais chineses ocupam uma posição social distinta da gente trabalhadora. Além disso, aceitavam a ideologia capitalista e não estavam dispostos a lutar pelos interesses dos trabalhadores. Melhor dizendo, estavam de acordo com o retorno ao capitalismo impulsionado pela classe dominante. O que pediam era certo poder político em troca de seu respaldo ao governo.
OR — Como o movimento estudantil ganhou o apoio dos operários?
Li — Nesses anos, os operários estavam experimentando os ataques capitalistas da classe burocrática e a eliminação dos seus direitos sociais. No entanto, depois da derrota da Revolução Cultural não havia uma organização revolucionária com uma ideologia socialista cabal. Dessa forma, a classe operária passou a necessitar de uma direção ideológica e orgânica.
OR — Então, os operários se somaram ao movimento devido à sua oposição às reformas capitalistas, ou seja, aproveitaram a oportunidade de sair às ruas e fazer ouvir seus reclamos.
Li — Tinham suas próprias experiências e percepções das reformas capitalistas, mas não estavam em possibilidade de apresentar seus interesses econômicos e políticos de uma maneira científica e consciente.
OR — Isso é muito interessante desde uma perspectiva histórica porque, naquele momento, os monopólios dos meios de comunicação do USA davam a entender que os manifestantes de Tien na-men abraçavam os valores do Ocidente. Mas você disse que os diferentes setores compuseram o movimento por motivos muitos diferentes, de acordo com os seus interesses de classe.
Li — É certo que muitos estudantes eram portadores de idéias pró-ocidente. Nutriam ilusões, mas muita gente compartilhava delas naquele momento.
No entanto, isso não se constituía na totalidade do movimento, porque, como expliquei, fosse assim não teria existido um movimento democrático de massas, mas somente um movimento estudantil. O movimento não teria o alcance que teve se não fosse pelas massas, sobretudo os operários, porque desde o começo os intelectuais liberais e a direção estudantil procuravam freá-lo.
Por exemplo, eu era estudante da Universidade de Pekin. Em 17 de abril foi convocado o primeiro protesto, e quando estávamos prestes a sair da cidade universitária, o conhecido dirigente estudantil Wang Dan pediu aos companheiros para não saírem às ruas. No entanto, fomos às ruas. Logo, um par de professores exortou a regressar à escola. Coisas assim ocorreram uma vez ou outra.
Mas quando os estudantes saíram às ruas os operários os apoiaram. A maior participação dos companheiros operários fortaleceu o movimento.
OR — Você disse que os estudantes iniciaram uma greve de fome, em 15 de maio, com o propósito de estimular o movimento estudantil, mas que isso provocou uma grande participação dos operários.
Li — Efetivamente. Não esperávamos que sucedesse assim. Quer dizer, os dirigentes estudantis pensavam que a greve de fome incentivaria o movimento estudantil, mas não esperavam que os operários se somassem a ele. Isso causou muita confusão nos chamados dirigentes, porque foi totalmente imprevisto e não sabiam como canalizá-lo.
Os operários começaram a somar-se à luta a partir de 17 de maio, e as manifestações cresceram de dezenas de milhares de estudantes a milhões de pessoas.
Quando os operários saíram à rua e expressaram seu grande descontentamento, o governo se espantou. Foi o ponto de viragem.
OR — A situação se tornou mais perigosa para o governo.
Li — Os operários estavam expressando seus próprios interesses e reclamos, totalmente contrários aos interesses do governo. Logo, esse governo não goza de apoio popular. Não é um governo revolucionário com uma base social operária.
Foi a primeira vez, desde a Revolução Cultural, que tanta gente se mobilizou. O governo se apavorou e estava disposto a tudo para reprimir o movimento.
<< início < anterior | 1 2 | próximo > final >> |