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Página 1 de 2 O 11 de setembro de 1973 no Chile foi um duro golpe nos anseios das massas populares chilenas e latino-americanas, que viam com imensa simpatia o governo da Unidade Popular (UP) de Salvador Allende.
No entanto, tanto o golpe quanto o terror e a repressão que o seguiram, em grande parte, foram o resultado das ilusões depositadas numa legalidade hipócrita em seus propósitos, leviana na teoria e na prática. A pugna e o conluio entre o imperialismo e o social-imperialismo russo foram imediatamente desmascarados pela força da própria repressão do imperialismo. Esse não foi o único exemplo da fusão entre o revisionismo e a reação que resultou, ao fim, no custo de milhares de vidas tragadas pela repressão e de milhões de seres humanos aprisionados no grande campo de concentração em que se transformou o Chile.

Bastou a eleição vitoriosa de Allende em 1970 para que se acendesse em Washington o sinal vermelho
Foi nesse caldeamento de acontecimentos que se processou a trágica experiência de transição pacífica empreendida por Salvador Allende. É indiscutível que os acontecimentos ocorridos no Chile — naquela época cheio de esperanças e decepções, de bravuras e traições, de enganos e acertos — estão intrinsecamente ligados a esse tema: reforma e revisionismo ou revolução.
Não se trata tão somente do governo de Unidade Popular nem dos militares no comando intermediário de Augusto Pinochet de imporem duas políticas distintas para o Chile, como faz crer a censura da Nova Ordem imperialista. Trata-se do caráter da revolução em marcha no Chile e da contra-revolução que procurou detê-la em 1973, da composição das classes do campo revolucionário e do campo contra-revolucionário, dos interesses do imperialismo e do seu suporte social interno (as classes contra-revolucionárias nativas) e dos interesses das classes que compõem o campo revolucionário, formando uma contradição antagônica irreconciliável e a cada dia mais aguçada.
Trata-se dos traidores oportunistas e revisionistas, da política de conluio e pugna com o imperialismo imposta ao Movimento Comunista Internacional pelo social imperialismo russo, onde, por um lado, os partidos comunistas tradicionais apregoavam a vitória das traiçoeiras teses das três pacíficas: a emulação pacífica, coexistência pacífica e transição pacífica para o socialismo — mesmo sabendo que nunca e em lugar nenhum, tais teses, na prática, saíram vitoriosas — e por outro, novas organizações oriundas destes partidos e capitaneadas pelo castrismo/guevarismo apregoavam teses como o foco guerrilheiro, no Chile representados pelo Movimento de Isquerda Revolucionaria (MIR), todos, mesmo inconscientemente, servindo ao social imperialismo.
Eleição e posse de Allende
Bastou a eleição vitoriosa de Allende em 1970, depois de várias tentativas, para que se acendesse, em Washington, o sinal vermelho: “Não vejo razão pela qual se deve permitir o Chile se tornar marxista pela irresponsabilidade de seu povo”, disse Henry Kissinger.
No dia 18 de setembro de 1970, realizou-se na Casa Branca uma reunião de Kissinger com Donald Kendall, presidente da Pepsi Cola; David Rockfeller, do Chase Manhattan Bank; Richard Helms, diretor da CIA e Richard Nixon, presidente do USA, na qual decidiram, na voz de Nixon: “Allende não assumirá a Presidência sem preocupação dos riscos que possa ter! Dez milhões de dólares disponíveis; mais, se for necessário. Trabalho em tempo integral, os melhores homens que temos. Utilizar pressão econômica; 48 horas para um plano de ação. Não deve haver participação da embaixada.”
Foi organizado um grupo em Langley (Virgínia), com o propósito expresso de executar uma política de “dupla via” para o Chile: uma de diplomacia aberta e outra oculta — uma estratégia de desestabilização, sequestro e assassinato a fim de provocar um golpe militar.
Enno Hobbing, agente da CIA; Álvaro Puga, articulista do El Mercúrio e depois do golpe assessor da Junta Militar, em conexão com Claude Villarreal, da embaixada do USA; Paul Goodis Allred, chefe das operações psicológicas da CIA em Santiago; Fernando Lévix, ex-gerente geral e ex-presidente do El Mercúrio e depois Ministro da Economia de Pinochet e mais Agustín Edwards, proprietário do mesmo jornal, foram os principais executores do plano de desestabilização, segundo documentos da CIA e de outras agências do governo ianque.
Aliás, o insuspeito jornal New York Times publicou em sua edição do dia 20 de setembro de 1974: “Milhões de dólares, destinados à desestabilização de Allende pela CIA, entregues a El Mercúrio”.
Sessenta dias era o prazo imposto pela Constituição Chilena para que o Congresso confirmasse Allende na Presidência. Para o golpe militar era imprescindível a participação do Exército. Acontece que o chefe das forças armadas era o general René Schneider, soldado profissional incorruptível e integrado inteiramente ao dever patriótico. Foi decidido, então, em Washington, assassinar o general Schneider e colocar a culpa na Unidade Popular por intermédio do jornal El Mercúrio. Para isso, a CIA organizou separadamente três grupos, fornecendo-lhes armas, munição e dinheiro. Coube ao grupo do general Roberto Viaux Marambio conseguir a execução de Schneider. A CIA pagou ao grupo 50 mil dólares.
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