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Ano IV. nº 29, abril de 2006
A terra guarani é inegociável | A terra guarani é inegociável |
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| Rosana Bond | |||
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Página 1 de 2 Os guaranis, em Santa Catarina há cerca de 1000 anos, não possuem até hoje (à exceção de uma diminuta área em Biguaçu) um único centímetro do seu território homologado. O professor Werá Tupã Leonardo, um dos líderes da aldeia de Morro dos Cavalos, fala nesta entrevista ao AND do clamor maior de seu povo: a luta pela terra, que vem sendo travada valentemente, apesar do poder de fogo dos inimigos — gover-nantes, empresários e latifundiários — que querem expulsá-los das valorizadas áreas do litoral catarinense.
Werá Tupã Leonardo — Minha aldeia fica no litoral, no Morro dos Cavalos, município de Palhoça, a 35 quilômetros de Florianópolis. Sua área é de 1.988 hectares. A BR-101 passa bem no meio dela. Ali vivemos em 200 pessoas. Nossa terra não está demarcada nem homologada. Na verdade nenhuma terra guarani em Santa Catarina, litoral ou interior, está legalizada. A não ser a aldeia de M'biguaçu, que é bem pequena, pouco mais de 50 hectares. As aldeias estão em estágios de legalização, administrativo, diferentes. Tem algumas que não estão nem identificadas, que a Funai nem aceita. Mas estamos unidos, a luta pela terra é uma só. E é inegociável. Em outubro de 2001, a Funai criou um "grupo técnico" para estudar a questão do Morro dos Cavalos. Até junho de 2003 a Funai recebeu documentos de pessoas, empresas, prefeituras e governo do Estado manifestando suas posições sobre a demarcação de nossa terra. Os pareceres foram favoráveis e, no dia 6 de outubro de 2003, a Funai enviou todos os documentos ao ministro da Justiça, pois é ele quem decide a demarcação. O ministro tinha 30 dias para assinar a Portaria Declaratória, ou seja, até 6 de novembro de 2003. Mas não fez nada. Já estamos em janeiro de 2006 e a questão está parada. Não há nenhum impedimento administrativo, no papel está tudo certo, só falta o ministro Thomaz Bastos assinar. Mas politicamente que é o problema. Porque o governo do Estado (Luis Henrique da Silveira, PMDB), empresários e fazendeiros não querem que se demarque. A causa, a gente já sabe: inversão de capital. Como ali é um lugar que tem muita mata e está perto da praia, então o pessoal fica de olho. Para construir hotel, essas coisas. É um bom lugar para eles ganharem dinheiro. Mas acontece que aquela é uma terra dos guaranis e isso é inegociável. Não queremos sair e não vamos sair. E acreditamos que vamos vencer. Werá — Politicamente, para os governos, para o Estado, a questão indígena é complicadíssima para eles. Porque sabem que os índios, por serem originários, tem muitos direitos. E procuram tapar isso. Tanto que, ao longo desses 500 anos, já tentaram, e ainda continuam tentando, acabar conosco de todas as formas. Para nós fica cada vez mais óbvio que os inimigos diretos dos índios são os governos, os latifundiários, os grandes empresários, os ricos. Os ricos em geral. Eles têm medo dos nossos direitos. Por outro lado, sabemos que temos amigos e aliados. Mas precisamos escolher bem e tomar cuidado. Porque tem aqueles que começam nos apoiando, mas quando conseguem um destaque, mudam. Começam a mudar de lado. Muitas vezes a gente escolhe um caminho, acha que está certo e, de repente, estamos nas mãos dos capitalistas, fomos envolvidos por eles. Isso tem acontecido muito. Isso nos enfraquece e enfraquece a luta. Mas um dos lados bons dos guaranis, um dos lados que nos fortalece, é que ao lutarmos pela terra, lutamos pela terra de todos. Como o Morro dos Cavalos, hoje. É uma luta daquela comunidade, mas o sentido dessa luta, para nós, é que a terra é para todo o povo guarani. O dia em que conquistarmos aquela terra, ela não será só dos que moram no Morro dos Cavalos, mas de todos os guaranis. Além disso, quando a gente conquista uma terra, não a dividimos. Não dividimos e não cercamos. De fato, ela é de todos. As casas também são de todos. Se um dia uma família sai de uma casa, vem outra e mora lá, tranquilamente. Se fizéssemos diferente, sairíamos de nossa cultura e cairíamos no individualismo, seguindo o mesmo padrão do capitalismo. Seria o fim! Werá — Nossa aldeia existe, historicamente, há muito tempo. Na chegada dos juruás [portugueses, espanhóis, os não-índios], os guaranis já estavam naquela região. Ali ao lado do Morro, na baixada do rio Massiambu, havia uma aldeia grande. Ali tinha muita água, água boa, e era ali que os guaranis plantavam. Hoje, o lugar onde estamos vivendo é totalmente morro, muito inclinado, não dá para plantar quase nada. E também pega muito vento. Então o milho e o feijão, eles vêm bem mas quando pega vento, caem todas as flores e os frutos não nascem. É o que tem acontecido. Então só com a demarcação é que a gente vai ter um espaço de baixada para poder plantar, o que é quase impossível hoje. Até a banana não dá bem porque o vento pega, estraga as folhas e os frutos quase não vêm. Mesmo assim, a gente "sua" para ter um pouco de agricultura. Alguma coisa de aipim, banana, batata. E uma horta comunitária. A nossa sobrevivência hoje vem da confecção de artesanato — que a gente não queria, não faz parte da tradição vender artesanato —, mas foi a única forma encontrada. Outro pouco do sustento que conseguimos vem daqueles guaranis que têm emprego [Obs: geralmente são contratados por órgãos públicos para trabalharem nas próprias aldeias, nas escolas e postos de saúde]. Quando eles recebem o salário, repassam uma parte, ajudam todo mundo. Recebemos também merenda escolar e doações de comida e roupas. Werá — A educação tradicional guarani está caminhando. Mas a educação escolar continua complicada. Tem muita coisa nela que não se identifica com a nossa cultura. A gente vai ter que mudar isso. História, geografia, para nós teria que ser de outra maneira. Teria que ser explicado de outra maneira. Será que só o juruá é que tem ciência? E só se pode ensinar a ciência dele? Isso prejudica o aprendizado de nossas crianças. A escola ideal teria que começar mudando a estrutura toda. E nisso pensando também em como se relacionar com o Estado, com os municípios e o sistema de escolas não-indígenas [Obs: a maioria das escolas das aldeias só possui até a 4ª ou 5ª série do fundamental; a partir daí o aluno índio é obrigado a frequentar um colégio convencional]. Quanto ao conteúdo, ao currículo, era preciso que tudo fosse explicado na língua guarani e da forma guarani. Hoje não é assim. Nossas crianças não sentem que estão em escolas indígenas. A gente também tem que ter livros didáticos próprios, compatíveis com a nossa cultura. Mas dizem que não há verba. Os livros didáticos que usamos são todos feitos por juruás. Vários professores guaranis lutam contra essa realidade, rompem isso dentro das salas de aula. Mas ainda é a minoria. Porém a gente vai continuar lutando. Uma das coisas que a gente pensa é que tem que reforçar a cultura, porque a cultura é que nos fortalece. Agora estamos pensando em fazer um novo modelo de organização. Queremos criar uma comissão que possa levar essa preocupação cultural a todas as aldeias do estado. Dentre os aspectos da cultura que queremos reforçar, em primeiro lugar está a língua. Achamos que a língua já está correndo risco. Porque a gente já anda misturando muito com o português. Com o tempo, se isso continuar, os jovens poderão vir a perder a língua. Queremos também reforçar a dança, a música, os outros hábitos, a vida dentro da aldeia. Enfim, viver mais de acordo com aquilo que chamamos o "nosso modo de ser". É preciso também continuar as práticas nas "casas de reza", as opy. Não se pode perder esse costume. É bom explicar que as nossas opy não são como as igrejas dos juruás. A nossa religião é diferente e as opy são quase que como universidades. São lugares onde a concentração, os rezos, os cantos, levam a muitos aprendizados importantes. Os pajés repassam a sabedoria, o conhecimento. Muita gente não nos respeita porque acha que não temos mais a cultura. Não vêem e não acreditam. Por isso, há alguns anos, os pajés autorizaram que nossas músicas começassem a ser mostradas aos juruás. Muitas aldeias gravaram CDs, e continuam gravando. Mas isso ainda é pouco. Muito pouco.
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