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Perto do Atlântico
Segundo levantamento de 2004, chegava a 14 o número de aldeias guaranis no litoral de Santa Catarina. Devido à constante flutuação, não se tem uma idéia exata da quantidade de habitantes. As estimativas variam de 500 a 1000 pessoas.
Após a invasão espanhola e portuguesa, esses indígenas "desapareceram" das praias catarinenses no século 17 — levados como escravos pelos bandeirantes; mortos nesses ataques dos paulistas, pelas doenças ou fugiram para o interior.
Somente 300 anos depois os pajés autorizaram o retorno ao litoral, território de enorme importância histórica, religiosa e mítica para esse povo, em sua busca da Terra Sem Mal, que estaria situada no Atlântico ou em suas proximidades.
Por volta de 1920, grupos de guaranis começaram a chegar à beira do mar catarinense, tentando estabelecer-se nas mesmas áreas geográficas onde ficavam suas antigas aldeias, em 1500.
O Morro dos Cavalos começou a ser ocupado pelos índios aproximadamente em 1930, com uma família que viera conduzida por sua idosa avó, ao ordenar o retorno ao Atlântico.
Coincidentemente, ao lado do Morro fica a baixada do Massiambu, onde a história apontava a existência, no século 16, de uma importante aldeia guarani. A mesma que, em 1516, recolheu os primeiros homens brancos que viveram em Santa Catarina: os náufragos da expedição de Juan Diaz de Solís.
Entre eles estava Aleixo Garcia, que alguns anos depois seria guiado por aqueles índios até o império inca, nos Andes, através do Caminho de Peabiru, como relatamos no livro A saga de Aleixo Garcia, o descobridor do império inca (Coedita, 2005).
O líder Werá Tupã confirma que seus antepassados conviveram com Garcia no Massiambu, atestando a antiguidade da presença guarani naquela área.
Um povo sábio
A tribo guarani provavelmente formou-se na Amazônia, na região da atual Rondônia, mais de 3 mil anos atrás. Depois, migrou lentamente em direção ao sul, ocupando partes da Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e o sul-sudeste do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo).
Era uma extensa e poderosa nação indígena, talvez somando dois milhões de pessoas. Hoje, não passam de 130 mil.
Os guaranis eram (e ainda são) um povo extremamente sábio.
Seus conhecimentos astronômicos, desprezados e ignorados, começaram a ser investigados pelos não-índios apenas há poucas décadas. O respeitado astrônomo Ronaldo Mourão, por exemplo, conta num de seus livros que os tupis e os guaranis sabiam da influência do Sol e da Lua sobre o movimento das marés. Isso, segundo ele, foi registrado pelo francês D´Abbeville, que esteve no Brasil em 1614. Diz Mourão que somente em 1687, portanto mais de 70 anos depois, é que o famoso Isaac Newton chegou à mesma conclusão!
Na verdade, os guaranis investigam as estrelas até hoje.
O premiado astrônomo e físico Germano Bruno Afonso, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sempre afirma, em suas entrevistas, que vai constantemente às aldeias para trocar informações astronômicas com os pajés guaranis. Em 2000, Afonso e uma tribo amazônica ganharam o Jabuti — o mais cobiçado prêmio literário brasileiro — pelo livro O céu dos índios Tembé.
Em 1500, quando os europeus — por culpa da ignorância da Igreja — não tomavam banho, quando suas cidades eram imundas e por causa disso viviam sofrendo pestes catastróficas, os guaranis tinham uma alta sabedoria em termos de higiene e saúde — como informa o professor Dionisio Gonzalez Torres, da Universidade Nacional de Assunção, Paraguai, na obra Cultura Guarani. Banhos diários, limpeza das casas, cuidado com o lixo, fabricação de repelentes contra insetos, realização de saudáveis jejuns. Naquele tempo — diz Gonzalez Torres — os guaranis também já aplicavam massagens terapêuticas e utilizavam até a hipnose para o tratamento de certas doenças.
Conheciam, ainda, ervas para evitar filhos. Quer dizer: os guaranis conheciam (e ainda conhecem) o anticoncepcional vegetal que os ricos laboratórios imperialistas estão, insistentemente, procurando descobrir há anos.
De acordo com o professor Gonzalez Torres, os guaranis dominavam a botânica e a zoologia com grande exatidão e precisão científica. Principalmente na descrição, classificação e propriedades de plantas, conhecimentos que apenas bem mais tarde foram "descobertos" e confirmados pela ciência ocidental.
Até os dias atuais, os melhores dicionários médicos do mundo trazem mais de 1.100 gêneros botânicos que foram ensinados aos cientistas ocidentais pelos índios brasileiros. Sabe o leitor o que isso quer dizer? Que a Medicina do planeta seria bem menos avançada, que muitas vidas não estariam sendo salvas, não fosse a rica contribuição dos indígenas do Brasil. Contribuição sem retribuição, diga-se de passagem.
Na sabedoria guarani, outro destaque é a agricultura.
Ao contrário do que diz a maioria dos livros escolares — que o nomadismo desse povo era significativamente veloz e que sua subsistência primordial vinha da caça, pesca e coleta de produtos no mato ou nas pedras à beira do mar — se está consolidando uma outra tese: a de que eles privilegiavam a agricultura. Muito mais do que se imaginava.
Enquanto seus parentes tupis baseavam sua atividade principal na mandioca, os guaranis a baseavam no milho. O milho, segundo a hipótese mais aceita, surgiu inicialmente no México. Mas na América do Sul quem ajudou a domesticar, preservar e expandir a planta, foram principalmente os povos dos Andes, entre eles os incas do Peru, e também os nossos guaranis.
Os estudiosos dizem que os guaranis estudaram, utilizaram, multiplicaram e difundiram no mínimo 13 tipos de milho. De todas as cores e tamanhos.
Esses antigos conhecimentos indígenas sobre o milho foram pesquisados pela geneticista estadunidense Barbara McClintock, já falecida, e deram a ela o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1983. Ela investigou os saberes dos mexicanos, andinos e guaranis e recebeu o Nobel. Fazendo justiça, poderíamos dizer que os nossos índios também foram os ganhadores desse prêmio internacional.
Com a ajuda das tribos, McClintock — que era da Universidade de Cornell, USA — identificou 10 cromossomas do milho, descobrindo elementos genéticos móveis. Sua análise celular da planta foi a primeira a demonstrar que o entrecruzamento de organismos é acompanhado por um intercâmbio físico entre cromossomas homólogos. Seu trabalho, com o milho, contribuiu para a compreensão de fatores hereditários nos seres humanos.
Mesmo perseguidos, escravizados, explorados, os guaranis guardaram boa parte das preciosas sementes originais. E assim o fazem até hoje.
Assumiram a missão de nunca perder o milho original, que eles chamam de "milho verdadeiro". E o tratam como se fosse gente, um ser humano em forma de planta. Tanto que o nome desse vegetal, em seu idioma, é "abachi" ou "avachi", que significa "pessoa com barba". Os estudos de Bárbara McClintock comprovaram que eles sempre tiveram razão nessa comparação homem/vegetal, coisa que muitos não-índios, em sua ignorância, consideravam absurda e "folclórica". Viu-se que entendendo a genética do milho, era possível também entender a genética do ser humano.
Mas isso os guaranis já sabiam há muito tempo. Mesmo sem terem estudado na sofisticada Universidade de Cornell...
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