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Ano VI. nº 37, outubro de 2007
Aqui estamos nós, gente honrada, exigindo a nossa terra | Aqui estamos nós, gente honrada, exigindo a nossa terra |
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| Ana Lúcia Nunes | |
Vítimas da Batalha de Corumbiara/Fazenda Santa Elina, que ocorreu há 12 anos em Rondônia, exigiram em Brasília — de 8 a 27 de agosto — a indenização e o corte da Fazenda Santa Elina devida pelo governo. A reportagem de AND acompanhou os camponeses.
Doze anos após, camponeses organizados pelo Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina — Codevise, exigiram — na própria sede do governo federal, em Brasília — a cobrança da indenização e a imediata destinação da Fazenda Santa Elina para todas as vítimas. Os camponeses também cobram uma promessa feita pelo atual presidente da República: — Nós não somos bandidos. Viemos atrás dos nossos direitos. Após o massacre, o Lula foi a Rondônia e até ajudou a achar duas crianças escondidas no oco de uma árvore. No Colorado D'Oeste, ele foi nos visitar e falou que quando fosse presidente ia indenizar e cortar a terra da fazenda Santa Elina para todas as vítimas do massacre, que somos nós — explica o camponês Manoel José da Silva, membro do Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina. Apesar da condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos — OEA, até hoje nenhuma vítima foi indenizada. O Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina exige a indenização de todas as pessoas — e não de apenas 27 vítimas, como faz a OEA. A tática do governo é oportunista e fascista. Oportunista porque ao indenizar as 27 pessoas da lista da OEA, o governo colocará uma pedra sobre o assunto e não mais se falará sobre Santa Elina. Fascista porque divide as famílias, colocando vítima contra vítima. Estamos chegandoCerca de 60 camponeses oriundos da batalha chegaram a Brasília, após três dias de viagem, no dia 8 de agosto. Sob intensa provocação do aparato policial que buscava impedi-los de montar suas barracas, os camponeses colocaram faixas no gramado em frente ao Congresso Nacional, delimitando a área, e passaram a noite no local.No dia seguinte, o Codevise realizou manifestação em frente ao Congresso Nacional e iniciou uma jornada de contatos com parlamentares, órgãos, instituições de direitos humanos e entidades que pudessem colaborar com a luta das vítimas. — A vinda dos camponeses de Corumbiara, companheiros da heróica resistência de Santa Elina, nada tem com os métodos dos movimentos oportunistas que vêm a Brasília. A chegada do Codevise desmoraliza as manifestações dos movimentos oportunistas e claramente revela a luta classista, popular, a questão agrária e esse sistema podre. Ao mesmo tempo, desmoraliza toda essa cantilena sobre governo democrático, porque revela o estado policial que há nele. Mostra que Santa Elina é uma luta que será lembrada como um acontecimento que contribuiu para os que desejam lutar de verdade encontrem seu verdadeiro caminho — explicou o representante da Liga dos Camponeses Pobres, Nilo Hallack. Como resultado da cobrança enérgica dos camponeses, alguns parlamentares protocolaram, no dia 9, um pedido de audiência ao presidente. O pedido também foi assinado por várias entidades sindicais. Na manhã do dia 17 de agosto, os camponeses participaram de uma reunião com o presidente nacional do Incra, Rolf Hackbart, com o ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, com o superintendente do Incra em Rondônia, Carlino Lima e representantes da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Os camponeses cobraram do Instituto, de forma imediata, a desapropriação da fazenda e a instalação de 80 famílias, vítimas do massacre, que não haviam recebido terras ainda — porque continuavam fugindo da repressão policial e da perseguição dos jagunços ou em busca de tratamento médico. Promessas X provasO Incra fez muitas promessas, mas os camponeses querem provas. Após dias protelando a entrega da ata da reunião com o Incra ela foi recebida pelos camponeses. Agora a ata servirá de instrumento comprobatório, porque nela está claramente expresso: o Incra deverá buscar a forma legal de desapropriar a Fazenda Santa Elina e as 80 famílias de vítimas, que ainda não possuem terra, receberão seus lotes.Na tarde de 17 de agosto, o Comitê de Defesa teve uma audiência com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e relataram o seu padecimento desde o Massacre e indagaram energicamente por uma atitude da Comissão. No dia 21 de agosto, 21 camponeses reuniram-se com o secretário especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ministro Paulo Vanucchi, além de um deputado de Rondônia, representantes do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos — Cebraspo e da Presidência da República. O ministro admitiu que a indenização deverá atingir todas as vítimas — não apenas as 27 reconhecidas pela OEA — e falou sobre a necessidade de desapropriação da fazenda. Apesar do compromisso de encaminhar a reunião com a Presidência da República para o dia 22, a resposta só chegou três dias depois. O gerente Luiz Inácio se recusou a receber as vítimas de Santa Elina. As mesmas para quem ele prometera, há 12 anos, indenização e desapropriação da fazenda. Não teve coragem de olhar nos olhos dos camponeses e explicar-lhes porque, até hoje, não cumpriu sua promessa. Apenas encarregou seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, de encontrar-se com os camponeses. Ao final, prometeu "formar uma comissão de trabalho" que, em até 60 dias, iniciará em Rondônia a identificação das vítimas e agendar uma reunião com o Presidente, além da distribuição de terra às 80 famílias restantes. Prevendo o engodo, a camponesa Maria Coimbra da Silva, 63 anos, também do Codevise, levantou-se dizendo ao Chefe de Gabinete: — Vocês já nos enrolaram muito tempo. Queremos a indenização imediatamente. Depois que eu morrer não vou precisar mais dela. O povo é perigoso
Nos ministérios, Câmara dos Deputados e Senado os camponeses eram olhados pelos exploradores do povo como seres perigosos porque traziam estampado no rosto e nos seus gestos a autoridade das massas conscientes e em nenhum momento se humilharam diante do Estado latifundiário, burocrático e semicolonial. 12 anos de resistência |
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