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Pracinhas são recebidos com alegria nas cidades libertadas
Em abril de 1945, cerca de 300 jovens oficiais da FEB — Força Expedicionária Brasileira —, assinam um manifesto de reconhecimento aos esforços da Liga de Defesa Nacional.
Com a certeza da vitória sobre o nazi-fascismo, e os olhos voltados para o pós-guerra e, ainda, baseados nos princípios da Carta do Atlântico, que destacava a solidariedade, a independência, a liberdade, a paz e o progresso, o documento preconizava a soberania do povo — principalmente as liberdades democráticas para os trabalhadores e setores da pequena burguesia.
Sob a ótica atual, o manifesto apresenta algumas passagens conservadoras e ilusórias quanto ao processo eleitoral e constituinte futuros, entretanto, isto não empana o seu aspecto principal, como uma destacada página da história militar do Brasil. A existência deste manifesto choca-se com a posição de alguns historiadores que defendem uma estanquização entre Forças Armadas e a sociedade, haja vista que suas posições correspondem em grande parte, ao movimento social de então.
Os antecedentes
Em seu livro Tio Sam chega ao Brasil, Gérson Moura destaca que, no final dos anos 30, o Brasil era um dos países mais importantes do continente, tanto do ponto de vista político, como pelo prisma estratégico-militar. A posição brasileira, dentre os produtores de matérias-primas estratégicas necessárias ao esforço de guerra americano, se apresentava na linha de frente, com a borracha, o manganês, o minério de ferro, os cristais de quartzo, as areias monazíticas, os óleos vegetais e as plantas medicinais, entre outros produtos. Considere-se ainda a posição geográfica do Norte
Nordeste do Brasil, que assumiu importância crescente na conjuntura dos anos 30.
Para o mesmo autor "Desde os inícios do século XX, as linhas de defesa dos Estados Unidos incluíam, além do seu próprio território continental, os países do Caribe e da América Central. Esse conjunto e sua respectiva estratégia de defesa eram conhecidos como o Lago Americano." Nas condições conturbadas da década de 30, no entanto, os planejadores militares de Washington ampliaram as suas linhas de defesa, que passaram a abranger o conjunto do continente — desde a Terra Nova, no Norte, aos Galápagos, no Sul — tendo como ponto particularmente importante, a Leste, a saliência do Nordeste brasileiro, devido a sua proximidade com o Norte da África e sua posição para a vigilância do Oceano Atlântico.
A estratégia então elaborada pelos militares do USA previa a defesa continental a partir de suas próprias forças, entrando as forças latino-americanas com a cessão de bases aéreas navais, além de se encarregarem da ordem social a política de seus países. No início de 1939, o governo americano se preparava econômica e militarmente para a eventualidade da guerra; por isso mesmo, o presidente Roosevelt disse naquela ocasião ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Osvaldo Aranha, que seus planos estratégicos incluíam a defesa da América do Sul. Começou aí, um processo de colaboração (difícil) entre militares americanos e brasileiros, os primeiros solicitando aos últimos que eliminassem a influência germânica no Brasil.
A divergência entre militares americanos e brasileiros, naquele momento, se constituiu num dos dados políticos na relação entre os dois países. A perspectiva estratégica dos dois lados era diferente: os americanos desejavam encarregar-se da defesa global do continente, inclusive do Brasil; os brasileiros asseguravam sua intenção de defender o território nacional, devendo entrar os americanos com as armas e munições necessárias. Os militares de Tio Sam não queriam fornecer armas ao Brasil, pois consideravam que muitos elementos da alta oficialidade brasileira ou guardavam simpatias para com o Eixo, ou eram passíveis de criar obstáculos para as pretensões daquela que seria a futura força hegemônica; ao mesmo tempo, insistiam na colocação de suas tropas no Nordeste do Brasil. Entre 1939-1941, várias tentativas e propostas de colaboração imaginadas pelos militares ianques esbarraram numa sólida resistência dos militares brasileiros.
Não se registrava unicamente uma resistência na área militar, já que outros setores (pró-germânicos, neutralistas sinceros no governo Vargas, ou setores comprovadamente progressistas) resistiam às investidas de Sam, adiando ao máximo o processo de colaboração Brasil-USA. O trabalho do Birô Interamericano (instituição criada pelo USA para coordenar seus esforços no plano das relações econômicas e culturais com a América Latina) no Brasil se revestia, portanto de um aspecto político vital: era necessário ganhar os corações e mentes dos líderes políticos e militares brasileiros, sem cuja cooperação os planos estratégicos dos ianques iriam por água abaixo. Mais ainda: era necessário assegurar não apenas o acesso às agências do Estado brasileiro, mas também ganhar os grupos sociais mais significativos do ponto de vista da formulação de políticas, assim como, na medida do possível, a massa da população politicamente significativa."
A prática da guerra aponta outros caminhos
Assim, a luta contra o nazi-fascismo nos campos da Itália e os ensinamentos do Exército soviético, através do exemplar combate à barbárie hitleriana, forjaram uma consciência nesses jovens oficiais, oposta ao que o USA planejara e já implementava, desde a década de 30: o controle militar, político e ideológico das forças armadas brasileiras.
Não há como negar, este objetivo já havia sido alcançado, em elevado grau, em relação à alta hierarquia, na medida em que uma identidade ideológica sem precedentes firmou-se entre os altos mandos dos dois países, produzindo figuras como Eurico Gaspar Dutra, que assume o papel de preposto da reação imperialista e aceita a entrada no Brasil da missão conselheira ianque para orientar a formação da Escola Superior de Guerra, em 1947.
Vale salientar, também soldados, cabos e sargentos tinham posições políticas e até ideológicas contrárias ao que a missão do USA tentava incutir na alta oficialidade brasileira. Inclusive, movimentos e organizações dentro dos quartéis articulavam-se com organizações da sociedade, nas lutas e campanhas, principalmente, as de cunho nacionalista e antiimperialista, como foi a campanha "O petróleo é nosso".
A resistência a aceitar o controle sobre as forças armadas brasileiras vai até 1964, quando o golpe militar articulado pelas classes dominantes brasileiras, com acesso ianque, amplia esse controle a toda nação, estabelecendo seu domínio no econômico, no político, no cultural, no militar e no ideológico. Os elementos progressistas das forças armadas foram quase todos banidos de seus postos, sendo muitos presos e até assassinados na luta de resistência a esse domínio.
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