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Ano III, nº 20, setembro de 2004
As eleições municipais são importantes para quem? | As eleições municipais são importantes para quem? |
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O eleitor — essa "caça" valorizada durante o período de campanha — perde todo seu valor depois de ter "cumprido com o seu dever" na urna, ou seja, quando é transferido para a condição pós-abate. Nem a carcaça encontra mercado porque ninguém precisa de um eleitor que acaba de ser usado.
A festa do monopartidismo
Quando os programas partidários obedecem ao mesmo padrão, as candidaturas propostas por eles só podem apresentar diferenças superficiais. A grande burguesia e o latifúndio têm suas frações com interesses setoriais e localizados. Em torno deles formam-se bandos que se autodenominam "partidos", com suas cortes de diretorianos, dos quais o mais "preparado" sai como candidato majoritário, seguido pelos que pleitearão cargos proporcionais e os que empenharão todas as forças para ocupar os cobiçados cargos comissionados. Municipalização ou feeralizaçãoQuando a direção do PT iniciou os movimentos para traçar uma estratégia eleitoral para 2004, não vislumbrava outra alternativa que não "municipalizar" as eleições, tendo em vista que o tão prometido espetáculo do crescimento da economia já não tinha a menor credibilidade. Neste caso, não precisava inventar nada, bastando apenas dar uma nova roupagem às velhas políticas do "calçamento" e da "bica d’água" à maneira de Chagas Freitas, de Maluf etc. Por outro lado, a "oposição" pefelista/ peessedebista, diante dos juros altos, do desemprego e da miséria em geral, propunha "federalizar" a eleição buscando fazer o julgamento da administração PT/FMI. A "oposição" não contava que o FMI, pelo seu interesse imediato de manter o PT gerenciando suas ações no Brasil, logo daria um jeitinho na situação, criando um clima de euforia através do bombardeio diário no monopólio de comunicação sobre "a retomada do crescimento econômico", da queda do "Risco Brasil", do "desemprego em baixa", do aumento das exportações etc. Ora, este empenho é justificado: ganhar as eleições municipais é um grande passo para assegurar os "currais" e garantir a recondução do atual gerente, situação relativamente cômoda, a partir da avassaladora e crescente centralização administrativa, há muito encontrada no país. Assim, invertem-se os papéis, com a oposição municipalizando os debates e o PT/FMI alardeando seu "vigoroso" progresso no gerenciamento do país. Rio e São Paulo: picadeiros
Na prática, não restam dúvidas sobre a identidade entre os postulantes. Estes mesmos "partidos" já tiveram oportunidade de assumir a administração — tanto municipal, como estadual e federal — e, nem de longe, apresentaram realizações que se aproximassem de suas atuais propostas. Mercadoria para todos os gostos
Nas ruas, materiais de campanha emporcalham as cidades: faixas, adesivos, bonés, santinhos, cartazes, outdoors, chaveiros, camisetas, panfletos, bandeiras, carros de som (com suas vinhetas e músicas irritantes), porta-títulos, esferográficas... O velho estilo permanece, a despeito dos ares de "modernidade" que os marqueteiros tentam imprimir aos candidatos-mercadoria. Teatro colonial
Nas entrevistas e nos debates, os discursos se parecem cada vez mais. Uns acusam os outros, que acusam o governo do estado, que acusa o federal, que não acusa a metrópole porque ainda resta um pouco de juízo. Quando administram mal, dizem que a culpa foi do antecessor. Quando estão no poder, dizem que a reeleição será a oportunidade de cumprir todas as promessas. Em cada gestão, no primeiro ano nada se faz porque, como costumam dizer os recém-empossados, "é preciso arrumar a casa". No segundo, vai depender muito da correlação de forças que se avizinham, "porque sendo eleições majoritárias... Você entende?". No terceiro ano, com assessores novos, "há problemas de caixa", acompanhados de escândalos, "tentativas de desestabilização da minha gestão", alguma "calamidade pública que abalou a cidade e até chegou a sensibilizar todo o país". E no último ano, eleições municipais: não se pode fazer nada! Por isso, não é de espantar se ouvirmos: "Tomei a decisão de tentar a renovação do meu mandato. Minha família reclama tanto". Mas, seja como for, "que sacrifício não vale o exercício da democracia e da cidadania?" O oportunismo coadjuvante
Travestidos de radicais nos movimentos estudantil e sindical, os trotskistas (PSTU e PCO) vão em socorro à apodrecida democracia burguesa, referendando todo o processo ao lançar candidatos que no primeiro turno "denunciarão" os demais como "burgueses" e, no segundo, recomendarão o "voto útil" em um deles. Repúdio, apelido abstenção
Afora eleições fraudadas e o mil vezes denunciado voto eletrônico2, tudo deverá acontecer de uma forma que a abstenção, ou mesmo a anulação, não sejam majoritárias, embora o peso de ambos venha a ser cada vez maior. 1 Centro de Educação Unificada e, também, Centro de Especialidades Unificadas, siglas que se referem aos projetos propostos por Marta Suplicy, em São Paulo. 2 O livro Burla Eletrônica (Edição da Fundação Alberto Pasqualini, Rio de Janeiro), organizado por Mário Augusto Jakobskind e Osvaldo Maneschy, reúne uma série de depoimentos sobre o voto eletrônico, entre os quais os do Dr. Leonel Brizola, Amilcar Brunazo Filho e Benjamin Azevedo. |
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| Nº 47, outubro de 2008 |
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