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Ano VII, nº 45, agosto de 2008
As revelações de Jair Krischke | As revelações de Jair Krischke |
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| Depoimento a Henrique Júdice Magalhães | |
Veterano lutador contra o terrorismo de Estado na América do Sul, Jair Lima Krischke preside o Movimento de Justiça e Diretos Humanos (MJDH), sediado em Porto Alegre. Ex-funcionário do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), ele teve atuação decisiva no deslinde do sequestro dos uruguaios Universindo Díaz e Lilian Celiberti por militares do país vizinho em conluio com autoridades brasileiras, ocorrido em 1978, na capital gaúcha. De lá para cá, investigou e registrou vários casos semelhantes, compondo, a partir deles, um valioso arquivo. No início de junho, Jair recebeu a reportagem de AND para uma conversa na sede o MJDH, no centro de Porto Alegre, dando origem à primeira de uma série de reportagens. Eis seu teor.
1. Os mentores brasileiros da Operação Condor
"A Operação Condor foi criada, oficialmente, em uma reunião realizada em Santiago, em novembro ou dezembro de 1975. Nessa reunião, estavam presentes representantes dos governos da Bolívia, Paraguai, Chile, Uruguai e Brasil." Precedentes
"A reunião de 1975 serviu, na verdade, como uma formalização do que já havia. Em 1971, por exemplo, houve aquele plano do governo militar brasileiro de invadir o Uruguai — a "Operação 30 Horas", denunciada pelo Paulo Schilling (NA: economista e jornalista, então colaborador de Leonel Brizola) e pelo coronel do Exército Brasileiro Dickson Grael. A Operação 30 Horas só não aconteceu porque o resultado das eleições uruguaias acabou sendo favorável aos interesses dos autores do plano (NA: mediante fraude eleitoral, que levou ao governo Juan Maria Bordaberry em lugar do legitimamente eleito, Wilson Ferreira Aldunate, que, embora não fosse o alvo principal das ambições intervencionistas do regime de 64 — que recaíam, antes de tudo, sobre a possibilidade de vitória do candidato da Frente Ampla, general Líber Seregni — tampouco era palatável aos interesses que comandaram os golpes de 1964, no Brasil, e 1973, no Uruguai). Anos depois, um general brasileiro, Ruy de Paula Couto, disse que aquele plano havia sido elaborado a pedido dos uruguaios..." Militares visados
Passando recibo"Outro nome importante nos precedentes da Operação Condor é o do embaixador Pio Corrêa, que representou o Brasil no Uruguai e na Argentina no fim da década de 1960 e foi o chefe de um serviço secreto clandestino que havia sido criado no Itamaraty. Corrêa recebia pessoalmente, das mãos de agentes do Estado argentino, brasileiros sequestrados e colocava-os em aviões da FAB, que iam buscá-los no aeroporto de Ezeiza para levá-los ao Brasil. O embaxador passava até recibo da entrega dos prisioneiros." 2. Assassinatos seletivos
"Entre 1976 e 77, num curto espaço de tempo, várias lideranças políticas importantes, opositoras aos regimes militares de seus países, morreram em circunstâncias misteriosas: João Goulart, Juscelino Kubitschek, Orlando Letelier (NA: chileno, ex-chanceler de Allende), Zelmar Michelini (NA: uruguaio, ex-presidente do Senado), Héctor Gutiérrez Ruiz (NA: uruguaio, ex-presidente da Câmara dos Deputados), general Juan José Torres (NA: boliviano, ex-presidente de seu país). Wilson Ferreira Aldunate também estava marcado para morrer junto com Michelini e Gutiérrez Ruiz, mas escapou a tempo. Houve também o atentado contra o ex-vice-presidente chileno Bernardo Leighton, ocorrido em Roma, em 1976." Os tentáculos da P-2
"O assassinato do Letelier, que ocorreu em Washington D.C., território americano, teve a participação decisiva dos gusanos (NA: a máfia cubana de Miami) e de ex-marines. Causou um grande mal-estar, porque os americanos permitem que se faça isso tudo, mas não no território deles. Eles querem a sujeira lá longe." 3. Os crimes da "abertura"
"Em 1980, houve dois casos de sequestro de argentinos em território brasileiro — um no Rio de Janeiro, outro em Uruguaiana (RS). Horacio Campiglia e Monica Pinus de Binstock foram sequestrados no aeroporto do Galeão, em 12 de março de 1980 — preste bem atenção na data — e entregues à ditadura argentina. Quando um juiz italiano pediu a extradição dos envolvidos no caso, o ministro Tarso Genro, imediatamente, saiu falando em anistia. Acontece que a anistia foi em 1979 e não abrange crimes cometidos depois dela; ela não se projeta para o futuro. Aí o ministro falou em prescrição. Só que também não tem prescrição, porque é sequestro, e está em curso: eles estão desaparecidos, os corpos não foram encontrados, não estão oficialmente mortos. Então é sequestro, e ainda em andamento." Os arquivos do terrorismo de Estado"Eu tive acesso a esses documentos no Uruguai, junto ao ministério das Relações Exteriores de lá. Ali consta tudo. E consta inclusive uma coisa muito interessante. Dizem que no Brasil não existem mais documentos da Operação Condor, que foram queimados. Pois é mentira. Existe um padrão internacional: nenhum serviço secreto, por mais vagabundo que seja, queima suas informações. Essa história é mentira e eu provo! Os arquivos do DOPS gaúcho supostamente foram queimados em 1982, não é? (NA: nesse ano, o governo do RS anunciou que havia eliminado esses arquivos) Pois nesses documentos do serviço secreto uruguaio — que são de 1983 — consta a cópia da ficha do Régis Ferretti (NA:militante comunista gaúcho, recentemente falecido) no DOPS, inclusive com anotações de 83. Isso mostra que os uruguaios tiveram acesso às fichas do DOPS e que os arquivos não foram queimados. Queimaram as fichas, mas está tudo em microfilme. Está no Comando Militar do Sul, no 5º andar." O último crime?
"O último caso típico da Operação Condor é o do (Eugenio) Berrios. O Berrios era um químico da DINA (N do A: polícia política chilena), que foi encarregado de produzir gás sarin para o assassinato do Letelier. Como ele não conseguiu, usaram o método tradicional mesmo: uma bomba. Em 1993, ele foi sequestrado em Buenos Aires e levado a Montevideo, onde foi mantido confinado num apartamento, sob custódia de dois oficiais chilenos. O Berrios era considerado por eles o elo fraco; era alcóolatra, podia abrir a boca de uma hora para outra. No Uruguai, ele conseguiu fugir e foi a uma delegacia de polícia dizendo que o Pinochet queria matá-lo. Os chilenos disseram que ele era louco; o delegado mandou ele fazer um exame e o médico disse que não era louco coisa nenhuma. Então, os chilenos telefonaram para um coronel uruguaio que tira o Berrios da delegacia. Ele nunca mais foi visto, até que, dois anos depois, durante uma escavação para uma obra nos arredores de Montevideo, encontram uma ossada e o seu relógio." |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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