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Início arrow Anteriores arrow Ano II, nº 14, outubro de 2003 arrow Camponeses conclamam a união do movimento camponês
Camponeses conclamam a união do movimento camponês PDF Imprimir E-mail
José Ricardo Prieto   

Jaíba, a mais de 500 quilômetros de Belo Horizonte, foi palco de uma grandiosa festa de democracia popular nos dias 20 e 21 de setembro. Cerca de 1.500 camponeses, entusiastas do movimento pela conquista da terra, realizaram o 3º Congresso da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas.

Exibindo uma moral inabalável, os camponeses exibiam uma confiança ilimitada e um estilo novo de intervenções ao microfone ou nas simples trocas de impressões entre si. Os que cultivaram por toda a vida em seus corações a esperança de que, algum dia, trabalhadores avançados, homens livres pela sua consciência e vontade férrea estariam se pronunciando. Saibam o que aconteceu no 3º Congresso da Liga.

São homens, mulheres e crianças que entoam – sem precisar de uma única cópia da letra – a Internacional , do primeiro ao último verso. Foi essa gente resoluta que discutiu e aprovou, com conhecimento de causa – livres da monitoração de técnicos das ONGs, como geralmente acontece – um conjunto de propostas para intensificar a luta contra o latifúndio e conclamou as organizações conseqüentes do movimento camponês de todo o país para se unirem e levar à frente uma “revolução agrária”.

“Só a revolução agrária salva os pobres e a nação da ruína”, afirma a principal tese do Congresso.

Dia 20 de setembro, sábado, seis horas da manhã, dia já claro prometendo muito sol e calor, mas, em Jaíba ainda está fresco. Vindos de todas as partes do norte de Minas, camponeses, homens, mulheres, jovens e crianças, começam a chegar. Os ônibus empoeirados entravam um após outro no pátio.

Abraços de conhecidos no trabalho e na luta, gritos que evocam combatividade e revelam a disposição dessa brava gente brasileira esquecida da vida oficial. As mulheres, como guerreiras intrépidas, vão levando sacos, crianças nos braços e pelas mãos. Desconfiadas e sorridentes, estão na expectativa das próximas batalhas da luta que engaja toda a família. Os jovens das diversas delegações vão se agrupando rapidamente e traçando planos para aqueles dois dias que começam ali.

É gente que está na luta há muito tempo, ou recém incorporada. Tem gente que já tomou terra e está lutando para continuar “em cima” dela. Gente que está vivendo em acampamentos, vivendo de roças coletivas ou de pequenos afazeres, por causa da estiagem tão frequente e impiedosa da região.

As delegações vêm de Montes Claros, Janaúba, Tracbel, Jacaré Grande, Pai Pedro, Porteirinha, Nova Porteirinha, Varzelândia, São João da Ponte, Januária, Matias Cardoso, Manga, Juvenilha, Montalvânia, Miravânia, Manga Velha, Inhuma, Pau Preto, Parque do Cajueiro, Agrivale, Mocambinho, Itacarambí, Cachoeirinha, Verdelândia, Riacho dos Machados, Carinhana (Bahia) e da própria Jaíba.

Vêm de acampamentos e das áreas tomadas os que estão vivendo na sua terra: Ouro Verde, Novo Plano, Santa Lúcia, Barra dos Quilombos, Progresso da Vitória, Presidente Mao Tsetung, Gabriel Pimenta, Malhadinha, Milagres, Elder e Erionildes, Jardim da Esperança, Vitória, Nova Vitória, Verde Água, União Corgão, Conquista da Unidade, Tracbel, Guerrilha do Araguaia, Manoel Lisboa, Nova Esperança, Bandeira Vermelha, Poço da Vovó e Vanessa.

A passeata toma as ruas de Jaíba

Após rápida reunião, o coordenador Osvaldo, pelo microfone, convoca todos a tomarem posição para dar o início à passeata que percorrerá as principais ruas da cidade anunciando o início do Congresso e suas demandas.

Rapidamente vão se formando duas grandes colunas, compostas só por homens. Entre elas, formam-se duas outras, compostas pelas mulheres e crianças. Quase todos trazem nas mãos bandeiras vermelhas da Liga, faixas com reclamos e propostas, acusações aos latifundiários e às autoridades oficiais, além de pequenos cartazes feitos a mão, onde se lêem seus protestos e nomes de suas comunidades, áreas e acampamentos. Um carro de som se posta à frente e, na cabeça da passeata, aparecem três homens, cada um portando uma ferramenta. Uma foice, uma enxada e uma grande mão de pilão.

Lentamente as colunas fervilhantes de bandeiras e braços agitados se movem em direção à rodovia que cruza a cidade. As pessoas começam a cantar o Conquistar a terra e O risco. A passeata toma corpo, desloca e avança sobre o asfalto. São quase 11 horas da manhã. Um mar de bandeiras vermelhas inundou a paisagem seca e tórrida das ruas de Jaíba. Aos primeiros sinais daquele turbilhão humano, a população começa a sair de casa para ver e aclamar a manifestação.

Aos brados de “Conquistar a terra!”, a multidão faz troar em uníssono “Destruir o latifúndio!”, e logo retumba o estribilho de “Resistir, lutar, construir o poder popular!”. São mais de duas mil pessoas incorporadas à passeata, que marcha firme e decidida rumo ao centro da cidade. Logo aproxima-se da ponte estreita sobre o rio Verde Grande, quase cortado pela seca. À esquerda e no alto estão as instalações da Ruralminas e no seu pátio montanhas do carvão apreendido meses atrás dos pequenos camponeses. Um ar de revolta toma os olhares que se dirigem para o local.

Do carro de som vem a fala: “Companheiros, bem ali está o nosso carvão. Carvão que custou nosso suor e trabalho duro para fazer. Estes ladrões do IEF (Instituto Estadual de Florestas) nos roubaram. Queremos nosso carvão.” Logo: “O carvão é nosso ou não é?”, indaga. Todos em coro respondem: “Ééé!”. A passeata retoma a marcha: “É terra, é terra, é terra pra quem nela trabalha, e viva agora e já a revolução agrária!”.

Debaixo de sol escaldante, a grande coluna humana percorreu por volta de 4 quilômetros. Ainda na rodovia, deu nova parada defronte a residência de um latifundiário, um grande prédio de três andares. Momento de apreensão. Do carro de som um dos coordenadores desafia: “Latifundiário Gilberto, mostra sua cara, diga aí porque que você contratou pistoleiros para matar os dirigente da Liga.” Foi acompanhado de uma retumbante vaia e gritos de “Abaixo o latifúndio!”.

Polícia, prefeito e funcionários, que foram o centro das cenas de repressão meses antes, não deram as caras. A passeata concluiu seu trajeto recebendo apoio, salva de palmas e gritos de “Viva!” e “Isso mesmo!” do povo. A esmagadora maioria da população de Jaíba é formada por gente muito pobre, essencialmente, camponeses. Durante o Congresso, mais de 300 famílias, só de Jaíba, alistaram-se para tomar novos latifúndios.

A organização dos camponeses pobres

Segundo informações de Galego, outro coordenador da Liga, “os trabalhos de organização e preparação do Congresso começam com a discussão de propostas com as massas, e depois a Coordenação Geral e o Conselho de Representantes da Liga se reúnem pra tomar a decisão.” Os problemas de transporte, alimentação e as discussões dos problemas que afetam a vida dos camponeses, bem como o balanço de todo o período após o 2º Congresso (agosto de 2000) são debatidos e é feito um resumo. Depois tudo é condensado nas teses de discussão, realizados encontros de delegados nas áreas e um encontro geral. Este Encontro de Delegados é que tem caráter deliberativo e eletivo. É nele que se aprofunda o estudo dos problemas e se elege a coordenação geral. Já o Conselho de Representantes é eleito em cada local. É uma espécie de conselho de lideranças que acompanha as atividades da Coordenação.

O Congresso da Liga “tem caráter de massa e propaganda. Seu papel é juntar bem o movimento todo e bater o martelo nas decisões do Encontro de Delegados”, afirma. Continuando a falar sobre as dificuldades para realizar o evento, Galego diz que “muita gente quer participar, só que o problema do transporte, da alimentação e local sempre limita esta participação.”

Comissões de trabalho

Para a realização das atividades do Congresso, as comissões de trabalho tomam as distintas tarefas em suas mãos. São comissões de organização, de transporte, de alimentação, de cozinha, de alojamento, de saúde, de segurança, de limpeza, de mobilização e divulgação. Colagens de cartazes alusivos ao Congresso foram realizadas ao longo de vários dias, e, inclusive, uma das equipes foi detida pela polícia no município de Porteirinha e seus integrantes acusados de estarem cobrindo placas na região.

Na cozinha, mulheres e homens (havia muitos jovens), tiveram que trabalhar duro os dois dias para alimentar mais de 1.500 pessoas, dentre as quais, mais de 200 crianças. O serviço de cozinha foi divido em dois locais por uma questão de funcionamento. A cozinha onde se preparava a comida das mulheres e das crianças estava em melhores condições, tinha mais estrutura e cumpriu melhor a tarefa.

No outro local o espaço era menor e a estrutura, tal como número de chamas e panelas apropriadas, era pequena. As pessoas encarregadas pelo serviço tiveram que se desdobrar, mas, ainda assim, a comida atrasou no primeiro dia. No entanto, era de se admirar a cooperação e a compreensão de todos.

O principal problema enfrentado pelos organizadores foi o do alojamento, pois tanto o local quanto colchões para tanta gente não estavam disponíveis. Nem por isto o Congresso foi adiado. Todos decidiram que cada um se acomodaria como pudesse, desde forrar o chão com um pedaço de pano, um colchonete, até mesmo passar a noite em branco, em último caso. E foi o que aconteceu com muitos que juntaram a falta de melhores condições para descansar com a animação geral: passaram a noite proseando ou arrastando no forró que varou a noite.

No dia seguinte soubemos do pessoal da segurança — que varou os dois dias controlando as cercas e entradas de acesso às áreas — que nenhuma ocorrência importante foi registrada.

A maior preocupação dos camponeses e da sua organização era com possíveis provocações montadas por latifundiários e seus pistoleiros, fatos que não faltam próximo dos acampamentos.

A limpeza do local era feita nos intervalos em mutirão convocado pelo serviço de som. Rapidamente, um batalhão de pessoas se mobilizava, utilizando qualquer material para catar lixo, principalmente copos descartáveis, restos de alimentos, etc.

“Derrubar as três montanhas ”, clama Pedro

A sessão de abertura do Congresso teve início após o almoço. Reunidos sob uma lona de circo, todos são chamados pelo coordenador que preside o Congresso, Pedrão, para que de pé cantem a Internacional. Solenemente e acompanhados por alguns instrumentos musicais, as vozes ecoam no plenário improvisado. Visivelmente emocionados, todos aplaudem com entusiasmo ao final da canção dando vivas à Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e ao seu 3º Congresso, à aliança operário-camponesa, à luta popular.

Pedrão faz a denúncia das prisões e assassinatos de lideranças camponesas e exige a liberdade imediata de José Rainha, Diolinda e Felinto Procópio, do Pontal do Paranapanema, e de Caco, Joel, Valmir e Russo, de Rondônia, além das dezenas de outros presos políticos por razão da luta pela terra em várias partes do país.

A mesa do Congresso é composta por um grande número de representantes de organizações populares e classistas da região e da capital do estado, Belo Horizonte. Estão presentes representantes de poucos sindicatos, porque a direção da Liga combate o peleguismo e afirma só convidar para suas atividades as organizações que de fato defendem os trabalhadores. Estão a Liga Operária, os sindicatos de Trabalhadores na Construção de Belo Horizonte e Região, dos Rodoviários de Belo Horizonte, dos Rodoviários de Juiz de Fora e Rodoviários de Montes Claros, as Comissões Camponesas de Luta do Triângulo Mineiro e a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia, representantes dos movimentos Feminino Popular, de Educação Popular, do Socorro Popular, Estudantil Popular Revolucionário, da Frente de Defesa dos Direitos do Povo, além das associações de camponeses e coordenações de luta das dezenas de áreas e municípios da região. Foram convidadas outras organizações e movimentos que lutam pela terra, como o MTA (Movimento dos Trabalhadores Rurais Acampados e Assentados), de Mato Grosso, a OLC (Organização da Luta no Campo), de Pernambuco, o MCL (Movimento das Comissões de Luta) e outras entidades que não puderam comparecer.

Abrindo a lista de oradores, o coordenador da LCP, o popular Pedrão, fez um breve balanço da situação nacional, do momento de radicalização dos conflitos no campo e dos dois anos de lutas no norte de Minas, desde o 2º Congresso da organização. Pedrão falou sobre o avanço da luta em meio a muitas dificuldades, perseguições da Justiça e da polícia e das constantes ameaças de morte feitas pelos latifundiários. Denunciou a grande campanha de repressão movida pelo governo federal e estadual, numa operação combinada da polícia, Ibama e IEF para tomar o carvão produzido pelos camponeses pobres da região.

Destacando a importância do Congresso para o fortalecimento da luta afirmou que “o nosso país está afundando. Já experimentamos tudo quanto é tipo de governo que representa as classes dominantes. O lema de nosso Congresso diz que só uma revolução agrária pode salvar o povo pobre e a nação brasileira da ruína. O nosso país, companheiros e companheiras, está esmagado por três montanhas de exploração e opressão: o imperialismo, a grande burguesia e o latifúndio. O povo está se unindo e se levantando para derrubar estas três montanhas de cima de suas costas. (...) O Brasil precisa de uma revolução agrária, custe o que custar. Para isto, é preciso de nossa união, a união de todo movimento camponês, que cresce, como labareda de queimada em dia de ventania, pelo sertão dos quatro cantos do país. União de todos camponeses e união com os operários da cidade, com os estudantes, professores e pequenos comerciantes.” Na sequência, todos os componentes da mesa fizeram uso da palavra para saudar o Congresso da Liga e reafirmar seu apoio à luta pela terra, recebendo os mais calorosos e ruidosos aplausos de uma imensa massa de camponeses que, em silêncio quase absoluto, ouvia atentamente cada palavra.

As intervenções dos convidados, apoiadores e delegados se estenderam ao escurecer do dia. Todos foram enfáticos em condenar a ação do Estado contra o movimento camponês e de proteção ao latifúndio.



 
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