Andar pelas estradas do Centro Oeste, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba é visualizar uma única paisagem: extensas plantações de cana-de-açúcar. A cana se constitui na menina dos olhos do latifúndio, que promove ainda mais a monocultura e arranca o sangue dos trabalhadores rurais temporários — camponeses pobres — o açúcar e o álcool, tanto para o mercado interno, quanto para exportação.
Uma das primeiras atividades econômicas do Brasil, ainda colônia de Portugal, foram as plantações de cana e os engenhos de açúcar que sempre serviram para abastecer os países colonialistas e imperialistas e enriquecer os latifundiários nativos. Esta configuração que mantém o mesmo e grande contingente de camponeses está atada à cultura da cana através de relações de extrema exploração com os usineiros.
Um estudo recente da Universidade de São Carlos (SP) revela que no estado de São Paulo — o maior produtor de cana do país — cada trabalhador percorre 9 quilômetros a pé, desfere 72 mil golpes de facão, se abaixa 36 mil vezes carregando 800 montes de 15 kg cada, tudo isso num único dia. Ainda de acordo com esse estudo de cada 100 acidentes com trabalhadores que têm carteira assinada, cinco ocorrem no setor sucroalcooleiro (indústria de açúcar e álcool). De 2002 a 2005 foram 83 mil casos. Isto sem contabilizar os trabalhadores sem carteira assinada.
Num dos períodos mais lucrativos para os usineiros de cana-de-açúcar no país, o Banco do Brasil concedeu ao setor o perdão de dívidas superior a R$ 1 bilhão. De 2003 para cá, o banco selou acordo com pelo menos 20 produtores, a maior parte do Nordeste. O grupo pernambucano União, por exemplo, pagou apenas 1,77% (R$ 3,7 milhões) dos R$ 208,63 milhões que devia originalmente. É o governo aumentando os privilégios dos latifundiários com o suor do povo. Este é o tal espetáculo do crescimento. Quando o povo se conscientiza desta situação e se rebela é criminalizado e mostrado como baderneiro pela imprensa burguesa.
Greves e manifestações de trabalhadores do setor estouram em todo o país. Em Ituiutaba os trabalhadores fizeram várias manifestações e em Goiás 25 mil canavieiros entraram em greve. Goiás é o quarto maior produtor de etanol do país e, das 16 usinas em funcionamento, dez delas tiveram corte e moagem parados por conta da greve.
Em Campina Verde (MG) ocorreu o falecimento do trabalhador Francisco de Assis, da Usina Campina Verde Bioenergia Ltda, que sofreu uma parada cardíaca por estafa física após ingerir um suco energético que a usina obriga os trabalhadores a beber todos os dias. No mesmo dia outros 3 trabalhadores da mesma empresa deram entrada no Pronto Socorro da cidade com os mesmos sintomas de Francisco. Após o falecimento, sua esposa foi pressionada pelos chefes e assistentes sociais da empresa para agilizar o enterro, sem autópsia. Como os trabalhadores reivindicaram providências e exigiram que o caso fosse investigado, o corpo foi encaminhado para o IML para estes procedimentos médicos.
Esta é uma expressão viva da semifeudalidade no campo. É contra isto que é necessário rebelar-se e lutar.
Camponeses cortam a terra em MG
No mês de abril deste ano, a Assembléia do Poder Popular da área Bandeira Vermelha, em Perdizes, MG, tomou uma grande decisão: iniciar o corte de toda a fazenda e dividi-la entre os camponeses pobres. Logo foram criados os grupos de ajuda mútua do corte popular.
Os companheiros se revezavam nas tarefas do corte; uns carregavam os equipamentos, outros carregavam água, enquanto os demais abriam picadas para passagem. O trabalho, apesar de pesado, foi muito rápido, pois contou com a participação de todos os companheiros da área. À noite os companheiros mal dormiam, pois tinham vontade de que amanhecesse logo para voltarem ao trabalho.
Este trabalho durou todo o mês de abril e meados de maio e foi, sem dúvida, a jornada de trabalho mais alegre de todas, pois os camponeses estavam trabalhando para a construção de seus sonhos: cortar com as próprias mãos seu pedaço de terra, sem depender de enrolação ou mentiras de nenhum órgão do governo de plantão. No dia 11 de maio se realizou a festa do sorteio do corte que contou com a participação de camponeses de outras áreas.
A emoção de muitos companheiros durante o sorteio era visível. Muitos pulavam de alegria, outros tinham um brilho nos olhos, um brilho de uma alegria há muito esperada, um brilho que representava a felicidade dessa conquista, que custou muito suor e luta.
Tudo isto foi o coroamento de um processo de luta iniciado na madrugada do dia 22 de março de 2002. Madrugada chuvosa e escura que regou a terra para a sua conquista, preparando o solo para novos êxitos, a vitória da produção, a vitória de novas tomadas, avançar a Revolução Agrária na região e em todo o país e continuar até a vitória final!
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