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Ano VII, nº 46, setembro de 2008
Células-tronco: avanço sim, mas para quem? | Células-tronco: avanço sim, mas para quem? |
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| Luiz Carcerelli | |
No final de maio o Supremo Tribunal Federal aprovou a pesquisa com células tronco embrionárias. Embora alguns ministros tenham levantado ressalvas que poderiam inviabilizar as pesquisas, seis votos garantiram sua continuidade, sem restrições no que se refere a embriões produzidos com fins reprodutivos e considerados inviáveis ou que estejam congelados a mais de três anos.
A pesquisa com células-tronco é anunciada aos quatro ventos por uma legião de defensores, como uma revolução na medicina que poderá salvar milhões de vidas ao redor do mundo. Por outro lado, fundamentalistas cristãos de diferentes correntes atacam as pesquisas, ameaçando seus defensores com o fogo do inferno. O que são células-tronco
Os seres vivos mais complexos possuem vários tipos de células , que formam tecidos, órgãos e sistemas até chegar a um organismo completo. Nos mamíferos, por exemplo, temos células que formam as glândulas mamárias, o tecido nervoso, o sanguíneo, a musculatura diferenciada do coração e diversos outros tipos de células. No entanto tudo começa com a fecundação, onde duas células (o espermatozóide, masculino e o óvulo, feminino) se fundem gerando uma única célula, o ovo ou zigoto. Como então esta célula única irá formar os diferentes tecidos que constituem o organismo? A partir da divisão do ovo, o número de células vai se multiplicando e, à medida que isto acontece, as células vão se diferenciando. As células-tronco são estas células primordiais indiferenciadas. O corpo humano adulto ainda possui células tronco, na medula óssea, por exemplo, mas estas não tem a mesma capacidade de diferenciação das células embrionárias. Normalmente quando se tenta a inseminação artificial são produzidos mais embriões do que os que serão implantados, estes não são utilizados e ficam congelados em clínicas de reprodução. São os mais propagandeados como fonte de pesquisas, sendo utilizados aqueles considerados inviáveis para implantação.
Na verdade não existe diferença técnica entre clonagem terapêutica e clonagem pura e simples. A diferença está no objetivo final. No segundo caso o que se deseja é um organismo completo, cópia do doador, enquanto no primeiro, apenas obter-se de células para o tratamento do próprio doador. A técnica consiste, em ambos os casos, em transferir-se o núcleo de uma célula do doador para um óvulo do qual foi retirado o núcleo. Espera-se até que chegue ao estágio de 140 células e se retiram células-tronco. Em nome de Deus
Da mesma forma que outros animais, o homem, desde os primórdios de seu surgimento no planeta, sempre tirou a vida de outros seres humanos. Com o advento da sociedade de classes, as justificativas para tal se multiplicaram, tendo geralmente a ganância como motivo principal. As sociedades sempre procuraram regulamentar esta possibilidade, ou seja, decidir em que circunstâncias é justificável, ou mesmo correto, matar um ser humano. A Santa Madre Igreja sempre foi pródiga em arrumar justificativas, estão aí a Inquisição, as Cruzadas e a colonização, com suas chacinas e torturas, tudo em nome de Deus. Intermediários, para quê?
Também brada em defesa da vida humana a gerência ianque. Em comum acordo com a igreja, em dezembro de 1999, o governo do USA proíbe a derivação de novas células-tronco de embriões, já existiam 60 linhagens. Em agosto de 2001, as pesquisas com estas linhagens são liberadas. Uma questão de responsabilidade
Na defesa das pesquisas existe toda espécie de gente, desde enfermos e seus parentes, que depositam suas esperanças na descoberta de uma cura, passando pelas Geron e cia, que vêem perspectivas de bons negócios e até mesmo certas religiões. O Halachá (lei judaica) não atribui "humanidade" a um óvulo fertilizado in vitro, já que se não for implantado em um útero não se desenvolverá. Enfim, argumentos que tentem tirar a responsabilidade da sociedade não faltam, apresentam pequenas variações, mas em resumo tentam tirar a humanidade do ovo. Avanço para quem?
A discussão mais importante, e sempre estrategicamente deixada de lado, é quem, de fato, se beneficiará com estas pesquisas e tratamentos delas derivados. Certamente quem puder pagar e principalmente quem cobrar. Não se trata de medicina para pobres. Estes continuarão morrendo de inanição, pegando malária, a dengue continuará assolando as cidades. Eles também, é óbvio, continuarão tendo as doenças cujos tratamentos são frutos das pesquisas com células-tronco. |
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| Nº 47, outubro de 2008 |
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