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Início arrow Anteriores arrow Ano I, nº 9, maio de 2003 arrow De homem a santo, de santo a político
De homem a santo, de santo a político PDF Imprimir E-mail
Assis Ângelo   

Uma historinha sobre o padre de Juazeiro

Conta-se que foi num dia (ou noite?) de abril de 1872 que Jesus, o filho do Homem, deu o ar da sua graça num sonho do cearense que se tornaria nacionalmente famoso -a partir de março de 1889 — como o padre milagreiro Cícero Romão Batista. Foi nesse mês que a beata Mocinha, batizada de Maria de Jesus, protagonizou a incrível história da hóstia que se transformou em sangue ao ser engolida durante uma missa perante os olhos incrédulos, estupefatos mesmo, de outras beatas e beatos; beatas — e beatos — que logo se multiplicariam aos milhares, que nem coelhos saídos do nada, na pequena e pacata cidade de Juazeiro do Norte. Aliás, no referido sonho, Jesus teria dito ao então jovem Cícero que se preparasse para cuidar de uma aldeiazinha fincada no fim do mundo. Essa aldeiazinha contava apenas com cinco casas de telha e 30 de palha, além de uma capelinha de melão. Essa aldeiazinha chamava-se — e chama-se — Juazeiro.

O milagre ou "fenômeno" como o caso logo ficou aqui e alhures marcado, repetiu-se outras vezes, dezenas de vezes na verdade, e sempre naquela parte da missa em que as pessoas comungam. O detalhe é que tal milagroso e original fenômeno ocorria sempre, sempre, com a mesma beata santa Mocinha, que muitos e muitos anos depois viraria tema musical do pernambucano Manezinho Araújo, o rei da embolada (1910-1993), cantado por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Também viraria peça teatral, filme e até especial choroso e colorido da tvê plim-plim. O fenomenal milagre da hóstia ensanguentada mudou assim, e para sempre, as vidas óbvias, calmas e sem graça do celebrante e da própria cidadezinha, que fica a cerca de dez quilômetros do Crato, a um passo de Assaré, terra do poeta Patativa. Não muito tempo depois, Juazeiro alcançaria a condição de cidade e, como tal, chegaria aos ouvidos papais, no Vaticano, para onde iria justificar-se a mando do bispo Joaquim José Vieira, que não engoliu a história vivida pela beata.

Proibido por um tempo de celebrar, Cícero viu-se mitificado pelas levas e levas de retirantes e romeiros que não paravam de chegar à pequena Juazeiro.

Encurralada e assustada, temendo desdobramentos maiores, a Igreja não teve coragem, digamos assim, de punir com mais rigor o então já quase santo padre, que, esperto, entrou para a política e se fez o primeiro prefeito de Juazeiro, em outubro de 1911. Dezesseis anos depois, o mesmo Cícero escaldado e famoso, assumiria o cargo de governador ao depor Franco Rabelo, contra quem lutou na chamada guerra da Sedição. Ao morrer deixou amigos, como Lampião, inimigos, imóveis, terras, dinheiro e uma multidão incalculável de fiéis fidelíssimos.

Hoje uma estátua de 17 metros — sem contar o pedestal, de oito — o representa em concreto. Essa estátua é a terceira maior do mundo, só perdendo para a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, e para a do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.



 
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