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Ano I nº 1, julho/agosto de 2002
Desenvolvimento capitalista e capitalismo burocrático | Desenvolvimento capitalista e capitalismo burocrático |
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O sistema de sesmarias dá início ao processo de centralização e monopólio da propriedade da terra, concentradas nas mãos de nobres portugueses e de altos funcionários da burocracia colonial
As relações de produção junto as relações de propriedade que se desenvolvem no agrário, relações que se dão dentro do sistema latifundiário de monopólio e concentração da terra, relações sociais de produção entre latifundiários e camponeses, são relações de tipo semifeudal, que são, por sua vez, a base sobre a qual se assenta e desenvolve as relações capitalistas impulsionadas pelo imperialismo. Estas se reproduzem por toda a sociedade, na medida em que se constitui o fundamental das relações sociais de produção, determinando portanto o caráter de suas instituições políticas, jurídicas e culturais. Isto se processa por longos períodos e no recente período histórico, a partir do início do século XX, seguem evoluindo só que de forma subjacente às relações capitalistas de tipo burocrático que deu origem. Tais fenômenos são resultantes da passagem do capitalismo à sua fase monopolista, em que três de suas características essenciais — hegemonia do capital financeiro, exportação de capitais e política colonial — moldam sua ação sobre os países atrasados numa relação de dominação; se apoia nessa base de relações pré-capitalistas — escravistas, semiescravistas, feudais, semifeudais — e impulsiona os capitais originados destas relações. O que implica em manter e aprofundar, tanto aquelas relações arcaicas determinando um tipo particular de desenvolvimento capitalista, o burocrático, quanto um submetimento à sua dominação mais completa, impedindo que a formação da nação se complete e que esta se desenvolva de forma independente. Conformam-se assim, numa "associação" terrível de três forças reacionárias: imperialistas, grandes burgueses e latifundiários, na qual, os dois últimos são controlados e servem aos primeiros, e juntos oprimem o proletariado, o campesinato, a pequena e média burguesias. Tal base o país herdou e sobre ela evoluiu ao longo do século XX, sem que nenhum movimento social o rompesse até nossos dias. Todo o desenvolvimento político tem resultado senão em processos de reestruturação do Estado, para adequar a organização do poder de Estado e a economia à marcha dos acontecimentos, assegurando os interesses do capital financeiro, do imperialismo em primeiro lugar e em segundo das classes dominantes locais. É o que tem representado as inflexões políticas como "revolução de 30", o fim do Estado Novo com o golpe de Dutra, o golpe militar de 64 e a chamada "redemocratização". No econômico-social tem significado o acumulo quantitativo, porém não conduziu ainda ao salto de qualidade que representa a transformação completa de toda essa velha estrutura sempre reformada. No agrário, que é a base de todo esse desenvolvimento, podemos comprovar que o regime jurídico de propriedade da terra, em substância, nunca foi alterado no país. Mantém-se no fundamental. Que modificação foi estabelecida com a Abolição da Escravatura? Nenhuma. E com a Proclamação da República? Nada. Com Getúlio, que estudiosos caracterizam como um processo de revolução burguesa, o que ocorreu foram projetos de colonização visando expandir a fronteira ocupada do país, fundamentalmente para oeste e que reproduzia, a cada passo, as mesmas relações de propriedade predominantes existentes. O que teremos de concreto, resultante da luta das Ligas Camponesas, na década de 50 e 60, é o Estatuto da Terra estabelecido pelos generais através do golpe militar de 64. O fizeram como válvula de escape necessária, para levar a fundo a liquidação do movimento camponês revolucionário. E de forma geral é o que temos hoje estabelecido em termos de legislação agrária: o acesso à terra segue sendo, exclusivamente, através do ato de sua compra. A Lei 8.629 25/02/93 regulamenta a desapropriação do latifúndio improdutivo para fins de assentamento de camponeses sem terra, através de um contrato a ser pago. Por sua vez, os latifundiários são indenizados com dinheiro vivo para as benfeitorias e com Títulos da Dívida Agrária (TDA) para terra. Com o crescimento vertiginoso que vem tendo o movimento camponês, mais recentemente o governo reformulou a forma de cálculo do ITR (imposto territorial rural) de forma a pressionar a queda do preço das terras. O que, ao contrário de concorrer para facilitar a aquisição por parte de camponeses, só faz aumentar a tendência à concentração, simplesmente pelo fato de que quem pode comprar terras, são os que tem dinheiro disponível, os especuladores latifundiários e capitalistas. A Revolução democrática de novo tipoPortanto, o desenvolvimento de nosso país, tal como dos demais países atrasados, se vê condicionado por fatores de grande transcendência, resultantes da passagem do capitalismo para sua fase monopolista. O advento da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), guerra de partilha do mundo pelas potências imperialistas e da Revolução de Outubro na Rússia (1917), modificaram completamente o curso histórico, impactando de forma extremamente nociva o seu processo de desenvolvimento. Terminava aí toda uma época das revoluções burguesas democráticas, ingressando na época do domínio dos monopólios, da época em que a burguesia perdeu por completo sua condição e papel revolucionário passando a sua fase reacionária e de contra-revolução geral. Ou seja, que a burguesia, em geral, não podia mais cumprir qualquer papel revolucionário como cumprira em épocas anteriores, tal como fora suas revoluções no século XVIII. A partir daí, isto fica patente nas relações das nações capitalistas desenvolvidas com as demais no mundo, nas quais se acentuaram o caráter exclusivamente de domínio, exploração e opressão crescentes. É da essência dessa fase particular do capitalismo — monopolista — a hegemonia do capital financeiro, a exportação de capital e a posse de colônias, que entre outros aspectos, terão na guerra uma necessidade e lei do seu desenvolvimento. A burguesia que tinha realizado as revoluções democráticas liquidando praticamente toda a base feudal em seus países para impulsionar o desenvolvimento capitalista, agora, na condição de burguesias imperialistas tinha na manutenção das condições pré-capitalistas existentes dos países atrasados uma nova forma de suporte e acumulação de seus capitais. Por essa razão mesma, não as liquida, ao contrário se apoia nelas. Por seu lado, as nascentes burguesias nacionais*, muito débeis economicamente, embora em profunda contradição com os monopólios temia o caminho revolucionário. Situação que faz da classe operária a classe mais interessada em levar a cabo as transformações democráticas burguesas. Quer dizer, estas transformações, embora de caráter democrático-burguês, não mais pertenciam à categoria da velha democracia, mas sim de um tipo novo de revolução democrática. Pois que, na situação que configurava a incapacidade histórica da burguesia de encabeçar as transformações democráticas, restava a direção do processo à classe operária.
São essas condições, que como peculiaridades dos países dominados pelo imperialismo, diferem no processo econômico-social. Condição surgida pela determinação da lei do desenvolvimento desigual do capitalismo, em que se expressa uma nova situação, originada do fato de que o capitalismo se expandiu pelo mundo não de maneira uniforme e igual, menos ainda na condição de um único e mesmo patamar. Mas sim, via um desenvolvimento desigual histórico e no espaço geográfico das civilizações e em duas fases bem particulares, a da livre concorrência e a dos monopólios, imperialista. Em que a passagem à fase monopolista modificou toda a relação no mundo, que ficou dividido definitivamente em, de um lado, um punhado de países industrialmente desenvolvidos, potências econômicas-militares e de outro, uma imensa maioria de países atrasados, subjugados e dominados pelos primeiros. Ainda mais, que a dinâmica dessa dominação e seu desenvolvimento é uma permanente luta, entre essas potências, pela partilha e repartilha do mundo. Nessas novas condições sua expansão fez engendrar, segundo o estágio de cada país atrasado, via a exportação de capitais e a política colonial moderna, um tipo particular de desenvolvimento. Como a base econômica fundamental desses países nesse período, é de tipo agrícola, assentadas no latifúndio feudal ou semi-feudal ou na propriedade comunal indígena, nisto reside a essência da peculiaridade do desenvolvimento desses países de uma forma geral e do desenvolvimento do capitalismo neles em particular, como um capitalismo de tipo burocrático. * Burguesia nacional — Chamamos atenção para a conceituação distintiva de burguesia burocrática e burguesia nacional. A primeira grande burguesia brasileira atada ao latifúndio e ao imperialismo, composta de duas frações básicas, a burocrática propriamente dita e a compradora. A segunda, que é média burguesia ou burguesia genuinamente nacional. Burguesia nacional ou média burguesia, cujo duplo caráter determinado por sua condição de oprimida pela grande burguesia lacaia e pelo imperialismo de um lado, e por outro, pelo temor à classe operária e à revolução, a faz uma classe vacilante, inconsequente e totalmente incapaz de encabeçar a revolução democrático-nacional inconclusa e pendente. |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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