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Ano III, nº 24, abril de 2005
Dignidade, água potável e esgoto em El Alto | Dignidade, água potável e esgoto em El Alto |
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| Pablo Saba Calero | |
La Paz – Em 1997, no marco da privatização de diversas empresas, o estado boliviano entregou a empresa Samapa — Serviço Autônomo Municipal de Água Potável e Esgoto, a capitais transnacionais, pese que o título da referida empresa estava destinado para a função social de administração e abastecimento de água potável e esgoto às cidades de La Paz e El Alto, ao contrário disto, admitiu a transnacional Lyonnaise des Eaux de Francia, elevação prévia das tarifas e posterior indexação das tarifas de água ao dólar, afundando numa situação crítica as possibilidades de consumo de água e o serviço de esgoto de uma população empobrecida como a da cidade de El Alto.A Bolívia é um dos 15 países que contam com maiores recursos hídricos no mundo; no entanto, aproximadamente 2,5 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e outros 4,7 milhões de bolivianos não possuem o serviço de esgoto público. A informação é patética, se temos em conta que este país tem somente 8.328.700 (2000) de habitantes num território com cerca de 1.098.581 quilômetros quadrados; fato que o converte no país que apresenta a menor densidade demográfica por quilômetro quadrado na América do Sul. O uso, o manejo, o tratamento e o negócio da água em todo o território boliviano apresenta características totalmente diferenciadas, nas que se manifestam na administração e distribuição da água por organizações comunais, empresas municipais, cooperativas e até empresas transnacionais, sendo que o denominador comum é que nenhuma destas entidades foi capaz de cobrir a totalidade das necessidades da respectiva população a quem é dirigido o seu serviço. Tendo como experiência mais exitosa a da Cooperativa Cosmol —Cooperativa de Serviços Públicos Ltda, da cidade de Montero, situada no norte do Departamento de Santa Cruz, cuja cobertura chega a uns 95%, para uma população que segundo o Censo Nacional de 2001 chegava a 78.294 habitantes. A insuficiência no abastecimento dos serviços básicos de água potável e esgoto no país constituiu o pretexto fundamental para que no ano de 1996, o estado boliviano tomasse a determinação de efetuar um processo de privatização, ao que foi denominado com o eufemismo de “capitulação”. O processo de “capitulação”O primeiro governo de Gonzalo Sánchez de Lozada (1996-2000) empenhou todas suas energias para atrair a chamada inversão estrangeira, para a mesma pôs em marcha seu projeto denominado “capitulação”.A capitulação foi apresentada como uma solução criativa, inovadora e moderna que permitiria revolucionar o país e deixar para trás a pobreza e o atraso que convertia a Bolívia no país com o desenvolvimento mais precário da região; destacava a importância da participação da empresa privada, priorizando a transnacional, na gestão de empresas que até o momento eram empresas exclusivamentes estatais. Os sons da sirene da “capitulação” se faziam patentes com estribilhos repetitivos e caráter evidente de panfleto que proclamavam por toda parte “modernidade”, “progresso”, “eficiência” e outras palavras ocas com as que se enfeitava um discurso enganador, que hoje encontra-se claramente descoberto por estatísticas e resultados nos quais definitivamente houve lucro farto para as transnacionais que se esconderam sobre este processo, patrocinado pelo Fundo Monetário internacional e Banco Mundial, e para uma elite nativa, que precisamente foi a que impôs o engano. Dentro das empresas estatais desnacionalizadas estão a empresa nacional de telecomunicações, a ferroviária, uma série de empresas mineiras, a empresa aéra nacional (Lloyd Aéreo Boliviano), a empresa de petróleo nacional; algumas empresas municipais de eletricidade e água potável. Foi no marco deste processo que a empresa municipal de água e esgoto — Samapa — que administrava e abastecia as cidades de La Paz e El Alto, submetida ao processo de desnacionalização pelo estado boliviano, no ano de 1997, transformando a Samapa na atual “Águas de Illimani”. Processo idêntico foi submetida a também empresa municipal de água e esgoto de Cochabamba — Samapa — que ao ser privatizada se transformaria em “Águas de Tunari”. Por trás da IllimaniEm 30 de julho de 1997, a Samapa, responsável pela administração e abastecimento dos serviços de água e esgoto das cidades de La Paz e El Alto, modifica sua estrutura acionária, antes nas mãos dos dois municípios citados, passando a conformar-se da seguinte maneira:
Os lucros dessa transnacional superaram, somente no ano de 2003, mais de 50 bilhões de dólares, número 30 vezes superior ao de todas as exportações que a Bolívia realizou no mesmo ano; fato que demonstra longamente o seu poderio econômico frente à Bolívia; negócio que resulta do lucro de um serviço básico para a existência humana. O ganho de Águas de Illimani, somente em La Paz e em El Alto chegou a 2,5 milhões de dólares no ano de 2003, montante este dividido entre os acionistas, sendo a referida multinacional a maior beneficiada. Há também presença de capitais nacionais expressados em BICSA, que é uma empresa montada com capitais do Banco Mercantil da Bolívia e além da empresa dependente do Banco Mundial: IFC, que em caso de litígio se converteria em juiz e parte ao Banco Mundial, pois as “empresas inversoras” tem o poder de demandar aos estados numa instância especial dependente do mencionado organismo financeiro internacional. A composição do conjunto de acionistas de Águas de Illimani, curiosamente, sintetiza a forma de como se dividem os negócios do país, em grande parte dirigidos por trans-nacionais, e a participação de capitais nacionais é mínima, mas, conformada por aqueles setores que representam a elite, promoveu e impulsionou o processo de privatização na Bolívia. Além disso, se deve acrescentar que as inversões feitas pela Águas de Illimani, específicamente em certas áreas de El Alto, não se realizaram com o dinheiro dos acionistas, mas com financiamento da Cooperação Técnica Internacional, alegando que tais subsídios são necessários porque não constituem negócios rentáveis a ampliação da cobertura de água potável e esgoto em áreas pobres. Isto é, mais de 7 anos depois da capitalização, o estado boliviano declina o manejo de capitais provenientes da Cooperação Internacional para subsidiar as inversões de uma empresa que supostamente teria que promover um aumento de capitais mediante inversões. E isso seria realmente uma capitulação, a mesma que por iniciativa própria proporcionaria maior eficiência no manejo, administração e abastecimento de água às cidades de La Paz e El Alto. Por outro lado, a declaração de dar uma cobertura de 100% do serviço de água a toda cidade de El Alto era pura falsidade, porque existe uma densa população de El Alto que carece do abastecimento d'água. O consumo em El AltoA cidade de El Alto, próxima a cidade de La Paz, sede do governo da República da Bolívia com mais de 600 mil habitantes, por tal motivo constitui a quarta cidade mais povoada da Bolívia. É caracterizada como uma metrópole eminentemente aymara; conformada por migrantes das províncias do Departamento de La Paz, mineiros despedidos a partir de 1985 e provenientes da província de La Paz, Oruro e Potosí.Encontra-se a 4 mil metros acima do nível do mar, 400 a mais que sua vizinha, La Paz. As temperaturas costumam estar 2 graus a menos que as já frias temperaturas da capital nacional. E a 800 metros a mais que a zona sul de La Paz, onde se localizam os bairros residenciais da sede do governo, cuja população em sua maioria é branca ou de ascendência européia. Além de ter uma população majoritariamente aymara, as atividades ocupacionais em fundamental são o comércio informal, operários, trabalhadores temporários, empregados domésticos etc, o que faz coincidir, sem maiores contradições, os elementos de classe com o elemento étnico. De fato, diariamente 150 mil vêm a La Paz desempenhar suas diversas atividades de trabalho e/ou estudantis. Esta situação tem proporcionado que certos setores acomodados ou funcionários governamentais estabeleçam critérios discriminatórios muito similares as doutrinas do “darwinismo social” do final do século XIX; enfatizando que culturalmente o habitante de El Alto não conserva hábitos de higiene diária, como o ato de tomar banho todos os dias. Estas afirmações, por um lado depreciam a condição humana do habitante de El Alto, e por outro justifica a deterioração de muitos anos dessa populosa cidade, no que implica em sonegar água potável e principalmente o esgoto. Contrário aos informes de Águas de Illimani — que afirmam ter ampliada a cobertura dos mencionados serviços básicos —, numa caminhada pelas ruas de diversas áreas da cidade de El Alto o que muito se vê são águas de esgotos a céu aberto. Este fato é uma prova clara do descuido e da desatenção da referida empresa a esta cidade. Noutras, nem sequer existe água potável, ou não existe durante as 24 horas horas do dia. A luta em El AltoToda esta ordem de coisas fez com que desde novembro de 2004 o povo de El Alto fizesse o pedido entre as autoridades do estado para que a Águas de Illimani fosse embora da cidade. E diante da indiferença estatal, se viram obrigados a efetuar uma greve por tempo indeterminado, no dia 10 de janeiro deste ano com tal fim.Tal medida foi levada a cabo de maneira contundente pelo povo de El Alto como um todo, sob a direção da Federação de Juntas dos Vizinhos de El Alto. Todos os passos que conectavam esta cidade com a de La Paz foram bloqueados, igualmente, as estradas ao Departamento de Oruro, que levam às demais regiões do país, além das também bloqueadas vias que conduzem à República do Peru, demonstrando o quão decidido se encontrava este povo para reverter sua paupérrima situação de abastecimento de água potável e esgoto. Dado que esta medida coincidia com a paralisação do Departamento de Santa Cruz, por causas completamente diferentes, como é o pedido de autonomia para esta região que faz limite com o Brasil. O governo de Carlos Mesa decidiu ceder diante do clamor do povo de El Alto, e no dia 12 de janeiro emitiu um decreto supremo, mediante o qual decidia tomar as medidas pertinentes que façam possível o fim do contrato com Águas de Illimani, que segundo se estipulava estava programado para 30 anos. Mas as últimas notícias são que o governo de Mesa está retardando a finalização do contrato com as Águas de Illimani, e a Fejuve de El Alto ameaça com medidas de luta novamente, inclusive foi nomeado como superintendente de Saneamento Básico um indivíduo que publicamente havia se manifestado contra o fim do contrato com a Águas de Illimani. Como já é de costume, foram ouvidas vozes da denominada “segurança jurídica” implorando respeito a um contrato que continha cláusulas à condição humana, assim como cláusulas leoninas na ordem econômica, porque ofereciam todas as vantagens para a empresa transnacional, fazendo-a farta beneficiada do contrato, quando não fez maiores inversões e, quando fez, inverteu dinheiro que não é seu, mas da Cooperação Técnica Internacional, amparando-se na participação acionária do Banco Mundial. |
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| Nº 47, outubro de 2008 |
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