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Camponeses de Porto Agrário
Cinco horas da manhã. Uma camponesa se levanta e decidida se dirige à cerca: "Quero falar com o comandante!"
Dentre os policiais militares que impediam a entrada e saída de qualquer pessoa do acampamento, desde a noite anterior, alguns deles respondem: "Quem é você, dona? Quem você pensa que é? Fica quieta aí dentro!"
A camponesa, com o filho de um ano e dois meses no colo, permanece serena na entrada do acampamento. Fita os policiais, não arreda o pé. Chega um dos comandantes da operação militar. A tropa se cala. A camponesa é direta: "O senhor manda seus policiais pararem de cantar essas músicas, manda pararem de falar palavrões. Aqui temos mulheres e crianças. Exigimos respeito!" Com o filho choramingando, a camponesa retorna para seu barraco, onde uma outra filha, mais velha, já esquenta a água do café.
O comandante da PM não poderia tomar outra decisão: os policiais se calam. A ordem é transmitida para todos os militares que cercavam o acampamento e que durante toda a noite, para perturbar o sono dos camponeses, cantavam músicas degradantes com referências ao sexo vulgarizado.
Em pequenos grupos, em volta de fogueiras onde se aqueciam do frio agudo da madrugada, camponeses se entreolhavam orgulhosos e faziam comentários curtos de aprovação pela atitude da companheira.
O silêncio agora era quebrado pelos sons da movimentação nas primeiras horas. Crianças se levantavam com a voz do estômago, proferindo lamúrias respondidas pelo tumulto de latas, o cheiro do café sendo coado, o chamado para os que resistiam em acordar.
Alvorada.
Mais uma vitória.
Operação de guerra
Sob a direção da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas, 150 famílias de camponeses de Porto Agrário, em Juvenília, haviam montado o acampamento Trevo no dia 9 de abril, exatos 15 dias após o confronto na Fazenda Guiné, em Montes Claros.
Até o dia 20 de maio, quando preparada a operação de guerra que resultou no cerco ao Trevo, foram contadas sete investidas do aparato repressivo do Estado, a maior delas contando com cerca de 40 policiais e um helicóptero. Mesmo no dia em que partiam para a terra, a marcha dos camponeses teve que realizar uma manobra de contorno, evitando uma tentativa da Polícia Militar de impedir a tomada da propriedade latifundiária.
A entrada vitoriosa na terra foi uma demonstração clara de que o aparato repressivo, gerenciado por Aécio Neves em Minas Gerais, não conseguira impedir ou intimidar o movimento camponês ao norte do estado. Ao contrário das primeiras investidas policiais que vinham abortando a ação dos trabalhadores, esta foi mais branda, guardadas as devidas proporções. A resistência da Bandeira Vermelha, em Montes Claros, superava as demais e influenciava futuras batalhas, revelando a verdadeira dimensão dos acontecimentos que AND, numa reportagem na edição nº 18, procurou demonstrar.
Desta vez empregaram mais de 300 policiais militares contra o povo. O telefone da Liga, conforme o relato dos chefes trabalhadores, desde o dia 18, não parava de tocar. Camponeses e amigos da causa informavam seguidamente sobre a movimentação nos quartéis em Montes Claros, da confusão de viaturas, ônibus, ambulâncias, helicópteros, caminhões que traziam colchões e tambores de água potável para a tropa, e que também se deslocavam por Januária, Itacarambi, Manga, Janaúba e Jaíba, no sentido de Juvenília.
A própria ata da reunião do Comitê Permanente de Crise (assim denominado e instalado pelo comando da PM, em Porto Agrário), dá conta da magnitude da operação militar. Estavam presentes, por ordem de hierarquia, os comandantes da 3ª Região da Polícia Militar, do 30º Batalhão da PM, os chefes da Seção de Planejamento da 3ª Região da PM, o da Seção de Planejamento do 10º Batalhão da PM, da Seção de Planejamento do 30º Batalhão da PM, da Seção de Comunicação Social do 30º Batalhão da PM, os comandantes do 5º Pelotão da 165ª Companhia da PM e o do 6º Pelotão da 165ª Companhia da PM.
Populares suspeitavam também da presença pouco comum do contingente da Polícia Militar da Bahia em Carinhanha e Malhada, vizinhas a Juvenília.
Em Porto Agrário, as aulas foram suspensas. As estradas fechadas em todos os acessos para a Vila. O abastecimento de água para o acampamento dos camponeses (montado ao lado do campo de futebol do povoado) estava cortado. Com aparelhos de alteração de frequência a PM fez com que os poucos telefones de Porto Agrário ficassem mudos. Mesmo os celulares dos representantes civis do Estado — do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Instituto de Terra (Iter) — não respondiam durante toda a operação militar.
Em que pese o silêncio sepulcral que o monopólio dos meios de comunicações em Minas fizeram baixar sobre o assunto, novamente os camponeses pobres desmoralizavam a "reforma agrária pacífica" do gerenciamento FMI-PT em "parceria" com a administração Aécio Neves.
Coronelismo e escravidão
Porto Agrário — um pequeno vilarejo no município de Juvenília, na confluência dos rios São Francisco e Carinhanha, norte de Minas com Bahia — é mantido por mil famílias, aproximadamente. Está a 60 km da cidade por estrada de terra. Mais fácil é chegar em Carinhanha ou Malhada, ambas na Bahia. Até Carinhanha são 12 km, e para se chegar à Malhada é só atravessar o São Francisco de balsa.
O posto de saúde está fechado. A antiga diretora da escola de Porto Agrário foi recentemente afastada por se contrapor aos desmandos do prefeito de Juvenília. Quem decide tudo é o vereador José Raimundo, por sinal, gerente de Nilo Coelho. É ele que decide quem pode caçar, pescar ou plantar.
Na vila quase todos são negros. A comunidade existe há pelo menos 30 anos, sendo que o nome remete a um antigo explorador do local, João Agrário, que doou a área da vila para o então município de Manga, do qual Juvenília se emancipou para baratear o custo da mão de obra necessária aos seus empreendimentos. Tipo aventureiro, João Agrário gerava emprego e progresso. Em meio às relações de coronelato semifeudal, predominantes na época, ele podia até ser considerado um empreendedor. Todos ali tinham a própria roça e criação.
Morto João Agrário, uma parte de suas posses foi comprada da mão de seu filho pelo latifundiário baiano Nilo Coelho, então prefeito de Guanambi, na Bahia. A transação foi obscura e envolveu o Banco do Nordeste, por onde passavam os recursos da Sudene. E em que pese a documentação não abranger mais de 6 mil hectares na imediação, o fato é que 22 mil hectares foram cercados por Nilo.
Nilo contabilizava na época mais de 70 propriedades, e em todas havia placas do Banco do Nordeste e da Sudene. Foi esta condição que o levou a disputar o governo da Bahia como candidato a vice do atual Corregedor Geral da República, Valdir Pires. Então tido como "de esquerda", Valdir Pires teve que compor uma chapa "pela direita", e com ela levantar recursos para sua campanha destinada a enfrentar o todo-poderoso coronel baiano Antônio Carlos Magalhães.
O desenvolvimentismo adotado pelo gerenciamento militar pós-1964 resultou para os camponeses de Porto Agrário uma volta às condições da escravidão. Nilo Coelho plantou algumas lavouras, abandonando-as em seguida. E depois de consumir os recursos da Sudene, interrompeu as atividades na propriedade cercada, se limitando de quando em vez a alugar pasto, mantendo sempre um feitor na condição de gerente da Fazenda Dois Rios. Até mesmo a área doada por João Agrário para a construção do vilarejo foi grilada pelo déspota — o que inclui o quintal de cada casa dos habitantes ali confinados. O latifundiário, além do mais, decide quem trabalha, quanto paga, quem caça e quem pode plantar nas "ilhas" sem o risco de ser denunciado à Guarda Florestal. Ou seja, toda uma população adulta, paupérrima, com seus filhos, já nasce lhe devendo "obrigação".
E foi para manter essa condição dos camponeses de Porto Agrário, e mais, dos camponeses sob o jugo de Nilo Coelho, em toda essa região do sudoeste da Bahia e norte de Minas (onde o latifundiário até os dias de hoje tem mais de 100 mil hectares cercados) que se deu a operação de guerra da PM de Minas Gerais.
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