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Isso aqui é terra retomada!
O 6º Encontro foi realizado na aldeia Lagoa 1, um chão valentemente retomado dos latifundiários pelos valentes Tapebas.
— Estamos reunidos aqui numa terra retomada!
A frase, repetida mil vezes com orgulho, nada tinha de vaidade tola ou exagero. Pois imaginem um povo indígena, declarado extinto no século 19 através de um decreto provincial, por uma canetada, que consegue "refazer-se" como índio, começar a reconquistar parcelas de seu antigo território e organizar-se a ponto de poder realizar, agora, um encontro com a participação de representantes de outros povos.
O Encontro reuniu dezenas de pessoas, representando 12 das 17 aldeias Tapebas (muitas não puderam comparecer devido à distância e dificuldade de transporte), duas aldeias guaranis (uma do Espírito Santo e outra de Santa Catarina) e uma tupiniquim (do Espírito Santo).
Oito horas, momento de começar. Mas ninguém pegava o microfone e nenhuma palavra era dita antes que fosse feito o toré. Todos se deslocavam para o terreiro ao lado, onde as mangueiras davam uma sombra gostosa e se punham em roda. A dança do toré, em círculo, acompanhada por cantos, maracas (chocalhos) e tambor, foi a tradição mais forte que restou do massacre da cultura Tapeba.
Após a distribuição do mocororó, bebida fermentada de caju, que tem de passar um ano debaixo da terra antes de ser consumida, todos eram finalmente convidados a se sentarem na tenda-auditório.
Mais união, mais força
O último dia do Encontro foi dedicado ao Grupo da Terra, criado pelos tapebas para fortalecer suas ações. Houve debates, análises e uma avaliação do trabalho do Grupo, lida pelo presidente da Acita, Ricardo Weibe, cujos principais trechos foram os seguintes:
"O ano de 2006 foi um ano de avanços e crescimento da luta Tapeba e do Grupo da Terra. [O de] 2007 já se iniciou com mais uma vitória: a retomada da Capoeira (onde já está uma aldeia). O que temos percebido é que, cada vez, um número maior de comunidades está determinada a organizar a sua própria retomada.
Isto é muito bom e mostra que o Grupo da Terra pode avançar ainda mais. Quanto mais retomadas acontecerem, mais forte será o povo Tapeba e mais perto estaremos de Conquistar toda a nossa Terra. Mas o que precisamos fazer para impulsionar ainda mais a luta?
É preciso aumentar a união e a organização do povo Tapeba. A união é fundamental para demarcarmos nossas terras.
Mas não adianta ter só união para organizar as retomadas. Todos sabem que retomada é um movimento sério, que necessita muita determinação. Para uma retomada ser vitoriosa é preciso organização antes, durante e depois.
Para aumentar a união do povo Tapeba, achamos que é muito importante articular cada vez mais as ações do Grupo da Terra e da Acita. A Associação, estando à frente das retomadas, só torna mais forte o movimento, juntando mais forças para a Conquista da Terra.
Muitas vezes os órgãos, o governo e algumas ONG´s tentam dividir o povo, usam empregos e benefícios para essa intenção. Não podemos aceitar! É preciso passar por cima das pequenas diferenças que existem dentro do povo para nos unir em torno de nosso grande objetivo: a terra.
Muitas vezes as pessoas acham difícil ou se sentem fracas para participar de uma retomada. Mas é em pequenas lutas que as pessoas se preparam para lutas maiores, porque sentem a força do povo e da organização. Unidas e preparadas as pessoas sentem mais coragem para lutar."
Tiro no pé
A revista Veja agrediu recentemente a aldeia guarani do Morro dos Cavalos (SC), com a publicação de uma matéria cheia de erros e preconceitos, afirmando, entre outras asneiras e mentiras, que aqueles índios eram "paraguaios" e que, portanto, não teriam direito ao seu território.
Levada pela mão do empresário Walter Alberto Bensousan, que afirma ser dono da área — que historicamente sempre foi dos guaranis, como confirmam relatos de europeus desde os anos 1500 — a revista tentou prejudicar o processo de legalização da terra, pelo governo federal.
"Mas deu um tiro no próprio pé"— afirmou Werá Tupã Leonardo à reportagem de AND. Ex-cacique e atual professor, ele participou do Encontro no Ceará. Ao contrário de se abater, segundo Werá, a aldeia mobilizou-se ainda mais em sua luta pela demarcação. Além disso, recebeu o apoio de um enorme número de povos indígenas e entidades juruás do Brasil inteiro (na língua guarani, juruá significa "branco", o não-índio). Sem falar da solidariedade dos próprios moradores juruás das redondezas da aldeia.
A demarcação do Morro dos Cavalos deveria ter sido assinada pelo ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, até novembro de 2003. Mas a gerência FMI-PT acovardou-se frente aos poderosos de Santa Catarina, entre eles o governador Luis Henrique. E a portaria declaratória da demarcação não foi assinada até hoje. Porém, como disse Werá Tupã:
—Os guaranis não estão parados e a luta está cada vez mais forte.
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