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Ano III, nº 23, fevereiro de 2005
Estado, o maior criminoso | Estado, o maior criminoso |
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| João de Castro | |
Luís Mir, 48 anos, é pesquisador e especialista em atendimento médico ao trauma. Ele, que também é doutor em História, lançou recentemente o livro Guerra civil — Estado e trauma (Geração Editorial, 2004, 962 páginas), no qual junta medicina e história para oferecer um painel lógico, onde mecanismos políticos de cinco séculos de segregação marginalizam o povo brasileiro. Mir segue denunciando a grande violência — cujas peças mais importantes nem discretamente são mencionadas pelos órgãos e analistas oficiais — “O Estado sempre foi o maior promotor de violência e sempre adotou uma postura violenta em relação à população”. Ao que parece, hoje faz da matança uma de suas “políticas públicas”.
Violência e progressoNa história do Estado brasileiro, a guerra civil é apenas um conceito alheio e uma realidade secundária. Dentro da estrutura global do Estado, o ser humano não existe. Existem seres humanos apenas para a distribuição de rendas, as regras de propriedade, o emprego nivelador da hierarquia social, as divisões do trabalho etc. O Estado não incorpora como objetivo e práxis, servir seres humanos em necessidades estritamente humanas, como educação, saúde, renda, cultura, qualidade de vida, paz. Que tipo de sociedade é esta, a brasileira? Como nós deveríamos identificar ou nomear uma sociedade como a nossa? Porque aceitamos a sobrevivência a qualquer preço? Mais que uma visão antropológica ou social, necessitamos de reavaliações da realidade. E aí vamos colidir com a ortodoxia e história oficiais. Todas as sociedades evoluem, mas qual é exatamente a nossa evolução como sociedade civilizada, democrática e justa, na medida do possível? Quanto mais de violência e degeneração será necessário para evoluirmos? O orçamento da matança
A medicina está aí para apresentar ao país a conta médica da guerra. O sistema de saúde pública é caótico? Ele está em colapso? Está. Por quê? A violência está levando 40% do orçamento total destinado à saúde. Em alguns estados, como o Rio de Janeiro e São Paulo, leva mais de 60%. O que representa isso? Nós temos, segundo os dados oficiais, um orçamento anual de 28 bilhões de reais no sistema público de saúde, nas três instâncias: federal, estadual e municipal. Disso, a violência está levando cerca de 11 bilhões. As pessoas desconhecem, por exemplo, que um dia de UTI custa 5 mil reais. E que a média de internação por trauma por violência no Brasil é de 20 dias. Um paciente atropelado, baleado, esfaqueado, pode custar até 100 mil reais. “Balcanização” brasileira
A inacabável balcanização da população brasileira — os territórios e as fronteiras físicas internas delineadas pelo Estado — é a responsável pelo atual desenho político e estágio policial-militar da guerra civil. A geografia econômica e social dessas disputas está presente em todo o país, e os conflitos metropolitanos têm a forma e a letalidade de um fratricídio generalizado. Vítimas preferenciais
Quando a violência começa a atingir pessoas das ditas classes dominantes do país, a primeira coisa que se pede é mais repressão, mais polícia, mais armas. Nesses cinco séculos de nossa história, você vai ver que, já na fundação da colônia, veio a balcanização, a segregação territorial e econômica do pais. Depois, na Independência, esse processo se agravou ao se manter a escravidão. Números da “morte matada”Nos últimos 20 anos — 1980 a 2000 — foram assassinadas no Brasil 600 mil pessoas. De 1990 a 2000, dois terços: 369.101, dos quais 70% jovens entre 15 e 24 anos (IBGE, 2004). Somos um país genocida com um Estado pacífico, ou um Estado genocida com uma sociedade pacífica? O genocídio que se reproduz a cada ano nas estatísticas oficiais evidencia nada mais e somente o nosso integral barbarismo? Entre cada 100 mil brasileiros, 27 foram assassinados em 2000. A taxa era de 11,7 mortes em 1980. Entre os estados, Pernambuco lidera o ranking da violência com 54 homicídios por 100 mil habitantes, seguido de Rio de Janeiro (51), Espírito Santo (46) e São Paulo (42). Em 2000, foram assassinados com armas de fogo 12.233 homens entre 15 e 24 anos. Um aumento de 134%, em relação aos 5.220 de 1991. Nada de explicações científicas... Exatamente. O balancete da guerra — mortos e mutilados — é quantificado em termos de baixas, ocultando a realidade qualitativa de dor e morte para centenas de milhares de pessoas. Esses números humanos são debitados como inimigos, marginais abatidos, resistentes à prisão. Os inocentes são somados num só balanço frio do terrorismo policial, criminalidade, colisões e agressões no trânsito: sofreram a guerra porque é a maior das necessidades do Estado e dela ninguém pode escapar. O número de mortos e feridos comprova quem está ganhando a guerra. Sabemos que a maioria dos que morreram ou vão ser abatidos são inocentes, civis, desprotegidos. Estamos em guerra, como sempre. 1964 — 1985; 1985...
O crônico conflito distributivista, herança insepulta desses cinco séculos, tem que ser resolvido cedo ou tarde. Nós vamos resolver os cinco séculos em cinco anos? Em dez anos? Não, mas nós temos que resolver. É impossível você manter o país com 90 milhões de pobres e miseráveis. É impossível você manter eternamente uma realidade social como a brasileira. Estado e a “guerra civil”
Ao identificar o Estado como a matriz da violência, também quero dizer que em nenhum momento, em todos os cinco séculos de história, o Estado brasileiro funcionou como vetor pacificador, civilizatório ou como plataforma civilizatória. O Estado nunca teve como proposta a pacificação do país. Campos de concentração
As favelas se tornaram campos de concentração, ali não há tempo, ali não há vida, perspectiva de futuro, não há saúde, educação, não há nada. Ali, o que há é cerco bélico e militar contra milhões de segregados. A bolsa e a vida
O nosso problema básico, há cinco séculos, é o seguinte: vamos ou não vamos distribuir o bolo? Fala-se de tudo: planos econômicos, estabilidade fiscal, custo-Brasil, modernização da infra-estrutura, globalização... Mas entra governo e sai governo e ninguém apresenta um projeto de redistribuição da renda. |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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