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Ano VII, nº 45, agosto de 2008
Estado policial mata primeiro e se justifica depois | Estado policial mata primeiro e se justifica depois |
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| Patrick Granja | ||||
A sequência aterradora de assassinatos cometidos por policiais no Rio de Janeiro e em outros estados revela o recrudescimento da política de criminalização da pobreza implementada há anos pelo Estado semifeudal e semicolonial brasileiro. As chacinas já não são praticadas apenas nas favelas, mas também nos bairros da chamada classe média. À partir daí a "grande imprensa" troca o tradicional discurso passando a se queixar da ação policial.
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Os efeitos da revolta popular às |
Dia 6 de julho, domingo à noite, a advogada Alessandra Soares voltava pra casa, na Tijuca, junto com seus dois filhos, quando policiais do 6º batalhão (Tijuca) atiraram contra seu carro e assassinaram seu filho João Roberto Amorim Soares, de 3 anos. Câmeras de segurança de um prédio em frente ao local do crime flagraram o momento em que os policiais começaram a atirar. A mulher, desesperada, jogou pela janela uma bolsa de criança, mas isso não impediu que os policiais continuassem disparando.
Em 14 de julho, segunda-feira, o administrador de empresas Luiz Carlos Soares da Costa, de 36 anos, passava pela zona norte do Rio, quando foi abordado por um homem armado, que assumiu a direção e o manteve refém. Policiais perseguiram o carro e começaram a atirar contra o veículo, matando Luiz e o assaltante. Câmeras de TV flagraram a ação dos PMs, que mudaram a cena do crime. Nas imagens, policiais tiram o corpo do administrador de empresas de dentro do carro como se fosse um saco de roupas sujas. Enfermeiros do HGB contaram que Luiz chegou ao hospital ainda vivo, mas os PMs só permitiram o atendimento depois que o bandido e o administrador morreram.
Em uma operação da polícia civil na favela Cruzada São Sebastião, zona Sul do Rio, o vendedor de doces Jeferson Silva de Andrade foi assassinado enquanto trabalhava. Jeferson se deitou sobre a filha para protegê-la e foi atingido por um tiro no pescoço. A menina, Lariene, foi atingida na perna e hospitalizada em seguida. A esposa de Jeferson deu declarações emocionadas sobre a atitude heróica do marido.
Dia 19 de julho, sábado, policiais do 2º batalhão (Botafogo) subiram o Morro Azul, no Flamengo, alegando que iriam conferir uma denúncia de tráfico de drogas. O entregador de remédios Edson Vaz do Nascimento, de 36 anos conversava com um amigo, quando recebeu um tiro pelas costas disparado pelos policiais. Eles trocaram de roupas e ainda tentaram levar o corpo do rapaz, mas os moradores não permitiram.
Cerca de 200 pessoas fecharam o acesso ao morro pela Rua Marquês de Abrantes para protestar contra o assassinato de Edson. Carros foram queimados e virados, barricadas bloquearam o acesso da tropa de choque da PM e uma agência do banco HSBC teve a fachada destruída. Estranhamente a favela não possui tráfico de drogas e moradores ainda acusam os quatro policiais de integrarem o "bonde dos carecas", uma milícia que aterroriza a população local. No enterro do rapaz, a família e moradores do morro mostraram conhecer bem os verdadeiros culpados por mais essa brutalidade. Os cartazes de protesto evidenciavam a elucidação popular para o crime: "O PAC é pacto da morte. Fora Lula e Cabral. Acorda Rio, salvem o povo", "Mais um trabalhador morto. Fora Beltrame."
O impulso dado por Cabral à marginalização da pobreza no Rio de Janeiro — que, diga-se de passagem, contou até com o apelo publicitário do filme Tropa de Elite — faz parte do padrão ditado pelo imperialismo, principalmente para a América Latina. Mas parece que seus reflexos ultrapassaram fronteiras proibidas.
Casos como o do menino Ramon, baleado por policiais que faziam uma "farra" na favela do Muquiço, e o episódio do motoboy Edson Vaz, também baleado por policiais que integram uma milícia no morro Azul, parecem estar muito distantes de todos os outros. Crianças e motoboys morrem aos montes todos os dias nas favelas do Rio de Janeiro. Os motoboys, na sua maioria, são incriminados com drogas e armas, colocados pelos policiais. Quanto às crianças, quando uma delas morre baleada, alguns protestos acontecem, credores de curtíssimas notas no monopólio dos meios de comunicação, caindo logo depois no esquecimento, somando-se às contraditórias estatísticas do Instituto de Segurança Pública do Rio, que parecem não servir para nada.
Como disse a professora Sylvia Moretzsohn em seu artigo Exterminadores do Futuro:
A legenda da foto de capa do Globo de 2 de julho, sim, era questão de classe: "a tia de um menino morto por bala perdida e a mãe de Daniel Duque se encontram em protesto contra a violência" diante do Palácio Guanabara. A tia do menino Ramon é negra e tem os cabelos precariamente esticados para trás; a mãe do outro rapaz é loura e bem penteada. Ambas se tocam e choram, igualam-se na dor da perda, mas o menino da favela é apenas um menino sem identidade, mais um entre tantos cujo destino parece traçado conforme a origem social e o local de moradia."
A violência policial é um triste reflexo da criminalização da pobreza e se ela permanecesse nas favelas, não haveria problema para as autoridades. O diferente agora é que o terrorismo estatal deixou de ser exclusividade das periferias ou dos morros, fazendo vítimas que não serão esquecidas tão cedo, mas que ainda assim, servem para evidenciar que nenhuma das classes sociais exploradas pode se sentir segura ou imune às brutalidades do Estado fascista, que não mede esforços na repressão a tudo que possa atrapalhar a livre exploração imperialista em nosso país.
Polícia mata pelo Brasil
Paraná
No domingo, 13 de julho, Rafaeli Ramos Lima, de 20 anos, foi morta pela polícia no município de Porto Amazonas, a cerca de 80 quilômetros de Curitiba. Policiais disseram ter confundido o carro em que ela estava com outro veículo que estava sendo perseguido. Pernambuco
Maria Eduarda, 9, foi morta na sexta-feira, 18 de julho, em Recife. Era uma das cinco crianças de uma mesma família que estavam em um carro, um Palio, além do motorista, o engenheiro Márcio Malveira de Barros, 35, e sua mulher, a advogada Ana Virgínia Barros, 32. Maranhão20 de julho, a menina Cristiane de Souza Silva,8, foi morta por um policial à paisana que atirou a esmo por ocasião de uma briga em Igarapé do Meio,375 km de São Luis. A população enfurecida com mais um crime cometido por policiais, incendiou a delegacia da cidade e libertou os presos. |
Silenciados pelo preconceito
Um mês depois da morte de Ramon Fernandes Dominguez, de 6 anos, baleado por PMs na porta de casa, a família do garoto começa a entender porque o caso caiu no esquecimento, não recebendo o mesmo tratamento de outros.
— Se eu estivesse falando com o governador, perguntaria qual a diferença do meu filho para o menino morto por um PM na boate. O meu mora numa comunidade e é pobre. Os dois perderam a vida pelas mãos da polícia. A dor é a mesma. A mãe dele perdeu o filho como eu. Mas no meu caso, ninguém está fazendo nada. Nem a perícia veio à minha casa. O meu filho já faz parte do passado. Amanhã vai ser outra criança baleada, e outra, e outra. Isso acontece todos os dias e ninguém faz nada, — lamenta Andréia Pereira Fernandes, de 37 anos, mãe de Ramon.
Ao chegar com Ramon ainda vivo ao hospital Carlos Chagas, não havia neurocirurgião para atender o menino, que foi transferido às pressas para o Hospital Getúlio Vargas e em seguida para o Hospital Geral da PM, quando já era tarde demais.
O pai de Ramon, o auxiliar de pedreiro Paulo Roberto Conceição, observa que a família não foi vítima somente da polícia, mas do Estado, que orienta a violência contra o povo.
— Talvez, se no Carlos Chagas houvesse atendimento com neurocirurgião, meu filho estaria vivo. Não bastasse ele ser atingido dentro de casa por um tiro, o hospital não tem recurso para atender as pessoas direito. Quem mora em prédio na Zona Sul pode ir brincar no playground. Meu filho ia brincar no campinho aqui perto de casa. Se todos sabem que as crianças estão na rua, por que entram atirando? — questiona indignado.
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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