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Ano II, nº 12, agosto de 2003
Eucalipto: O reflorestamento do capital financeiro | Eucalipto: O reflorestamento do capital financeiro |
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| Vânia Tedine | |
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Página 1 de 2 A cultura do eucalipto representa uma fonte de energia 87% mais barata que a de combustíveis fósseis, por outro lado, é devastadora: reduz a biodiversidade, afeta os lençóis freáticos, altera a qualidade do solo e destrói a capacidade futura de produção de alimentos.
Em 30/05/2003 a Aracruz Celulose S.A., adquiriu a Riocell, localizada no município de Guaíba/RS, por U$ 610,5 milhões. Em 03/06/2003 o Jornal do Commercio noticiava: "A Aracruz agora é líder mundial no mercado de celulose, com produção estimada em 2,4 milhões de toneladas — e pretensão de aumento, nos próximos dois anos e meio, em 50%. Para isso, há o projeto de inauguração, em 2005, da fábrica da Veracel, no Sul da Bahia", da qual a Aracruz possui 50% das ações. Os outros 50% são da empresa finlandesa Stora Enso. Em 2001 era divulgado que a Aracruz produzia 1,3 milhões de toneladas de polpa de celulose por ano, das quais 95% destinam-se à exportação. E o passivo ambiental gerado por esta empresa? Ficam 100% em nosso território, claro. Em março deste ano, outra empresa de celulose, a Fábrica de Papel Cataguazes, causou o maior impacto ambiental de que se tem notícia no Brasil, com o rompimento de um dos tanques onde estavam armazenados 1,2 milhões de litros de seu passivo ambiental, contaminando o Rio Pomba e o Rio Paraíba do Sul. Este acidente deixou em colapso seis municípios fluminenses, sem trabalho 6.920 pescadores e catadores de caranguejos, causando um rastro de devastação por onde seu resíduo tóxico passou. O eucalipto no BrasilAgora, é necessário descortinar o conhecimento sobre a introdução do eucalipto em território brasileiro e analisar os verdadeiros ganhos econômicos. O eucalipto, espécie exótica originária da Austrália, possui 600 espécies, e pode alcançar 50 metros de altura. Pode ser plantado tanto à beira-mar, quanto a 4.000 metros de altitude, sob temperaturas que variam de 35°C a -18°C. Em 1770 esta espécie foi introduzida na Europa. Àquela época havia a crença de que possuía poder milagroso quanto à malária e outras doenças. Já em 1825 no Brasil, as primeiras mudas foram plantadas e cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em 1882, foi considerado o causador da febre amarela e, literalmente, arrancado pela população de Vassouras/RJ. O cultivo destinava-se à produção de lenha para locomotivas, dormentes para ferrovias, postes para eletrificação, matéria-prima para produção de celulose e produção de carvão vegetal. Em 1903 foi iniciado o cultivo em larga escala pela Companhia Paulista de Estrada de Ferro em seu primeiro Horto Florestal, Jundiaí/SP, pelo silvicultor Edmundo Navarro de Andrade. A espécie cultivada era a eucalyptus globulus, com sementes trazidas de Portugal. Em 1918 Octavio Vecchi e Edmundo Navarro de Andrade, escreveram o livro Os eucaliptos: sua cultura e exploração (Typ. Brazil, SP), no qual afirmavam: "Dificilmente se encontrará uma planta que possa ser tão completamente usada. (...) Contudo, diante da falta de chuvas, as raízes dos eucaliptos abriam verdadeiros drenos para retirar do terreno grande quantidade de água, devido ao extraordinário poder de absorção pelas raízes e à enorme evaporação pelas folhas." Consequências "eucalípticas"De 1909 a 1966, a cultura se expandiu e surgiu a Lei de Incentivos Fiscais ao Reflorestamento nº 5.106, de 1966, que permitia ao agricultor aplicar 50% do Imposto de Renda, em reflorestação. O IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), incapaz de definir e testar as essências florestais de maior conveniência para o reflorestamento brasileiro, foi "induzido" pelos interesses da iniciativa privada em obter o retorno de seu investimento em curto prazo, através do reflorestamento com o plantio do Pinus Elliotti, pinheiro americano, e o Taeda, pinheiro brasileiro, nos Estados do Sul, enquanto que, em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, a preferência recaía no eucalipto — ainda que sob cerradas críticas e indicações de técnicos especialistas de que o cedro, o mogno e o jacarandá, devidamente tratados por radioisótopos, alcançariam um acelerado processo de crescimento e formação com valor de mercado internacional, por serem madeiras de grande demanda. A média de árvores abatidas já era de centenas de milhares por ano, e não havia um plano para se cobrir o saldo negativo deixado pelo corte das reservas naturais. Em poucos anos, a produção madeireira alcançou níveis incalculáveis, ao mesmo tempo em que ocorria a instalação, em números crescentes, de fábricas de pasta mecânica de celulose e papel no Brasil. Nesta época, já haviam sido plantados em nosso território, 470 mil hectares de eucalipto, 80% desse total no Estado de São Paulo. Em 1973, o ano em que a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) obteve os dados para a elaboração do clássico Eucalypt for Planting (FAO, 1981), a área total plantada de eucalipto no país tinha ultrapassado a cifra de 1 milhão de hectares — a maior área de cultura de eucalipto em todo o mundo — mais do que o dobro da área plantada pelo segundo colocado, a Índia. Em 1974, o governo Geisel anunciou a criação de três subsidiárias com a finalidade de apoiar o empresário brasileiro. O presidente do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), Marcos Pereira Vianna, reunido na ABDIB (Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Indústria de Base) conclamou os empresários: "É a hora de investir em grandes projetos." Após um ano, as três subsidiárias realizaram ao todo 41 operações, perfazendo um total de quase Cr$ 2,5 bilhões. Coube à Aracruz Celulose S.A. cerca de 21 vezes mais do que o montante posto à disposição da indústria brasileira. O BNDE Notícias anunciava que o contrato assinado em 21 de agosto de 1975 fora "A maior colaboração financeira já concedida a uma empresa do setor privado. (...) Um projeto cujo investimento total atinge cerca de 460 milhões de dólares por ano." Eram acionistas da Aracruz: o próprio BNDE, o grupo Walter Moreira Salles, a Cia. Souza Cruz (BAT-British Tobacco), Erling Lorentzen e Billeruds Aktiebolag. Em 1975, começa a falência dos produtores brasileiros, decrescendo a produção brasileira em 16,1%. Apenas conseguiram se manter ou sobreviver as empresas que haviam providenciado o replantio. Em 01/03/1976, em entrevista ao Busines Week (Champion International — Carl after a decade of turmoil), o seu presidente Sr. Andrew C. Singler declarou ao justificar a instalação de uma fábrica de papel e celulose no Brasil: "Iremos para qualquer parte do mundo aonde tiver madeira. (...) Necessitamos de uma base de celulose." "Mas não há dúvida, a produção nacional de celulose deverá, em longo prazo, crescer substancialmente, tendo em vista o esgotamento de reservas florestais de outros países. Cabe, no entanto indagar: Quem controlará a expansão da produção e quem tirará proveito dela?" (Rudolf, Mirow Kurt, A ditadura dos cartéis — Anatomia de um subdesenvolvimento, Ed. Civilização Brasileira, 1977). No anos de 1985 a FAO iniciou o alerta sobre os problemas sociais e ambientais, afirmando: "O eucalipto não deve ser plantado em larga escala sem uma avaliação de suas consequências econômicas e sociais". Porém, em 1986, com os incentivos fiscais concedidos pelo Governo Federal, chegou-se a 3,2 milhões de hectares plantados, até que em 1987 esses incentivos foram abolidos. No Estado da Bahia, em 1988, produtores rurais, clero, parlamentares e autoridades estaduais e federais, como foi documentado pela imprensa local, se manifestaram favoráveis a cessar o plantio de eucalipto no estado, porque as extensas plantações florestais estavam ocupando terras agricultáveis, expulsando os pequenos produtores de suas terras. Em 2001, no Espírito Santo foi criada uma lei que proíbe novos plantios de eucalipto no estado. Em Minas Gerais a paisagem foi transformada pela monocultura, desaparecendo pássaros, mamíferos e plantas, inclusive em áreas de Mata Atlântica e cerrado (Lima, Walter de P., Impacto Ambiental do Eucalipto, Ed. da Universidade de São Paulo, 1996).
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