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Nem república quer ser... PDF Imprimir E-mail
Eva Lins*   

Manifestação em Brasília contra as reformas antipopulares da gestão Petista

No dia 5 de agosto, vi Brasília ser tingida de vermelho: centenas de pessoas, todos com boné, acessórios e bandeirinhas vermelhas. Eram 80 mil.

Os funcionários públicos eram a maioria nesse mar de gente, composto também por trabalhadores da iniciativa privada, desempregados, camponeses, proletários desabrigados, enfim, homens e mulheres, que chegavam de todas as partes do país.

O objetivo aparente da multidão era barrar o que o governo chama de “reforma da Previdência”, que seria votada naquele 6 de agosto. No entanto, na iminência de uma grande concentração na capital do país, se opondo energicamente à sonegação das garantias trabalhistas e previdenciárias, os parlamentares providenciaram a votação pela madrugada, logrando os nossos intentos. Fomos traídos, nada mais.

Mas nós, funcionários públicos, tínhamos algo mais importante a fazer: cobrar as promessas do outrora candidato Luis Inácio. A concentração em Brasília serviu para deixar pública nossa indignação. Nós lutamos muito para eleger alguém que parecia estar do nosso lado, que buscava usar a mesma linguagem e dizia reivindicar as mesmas coisas.

Teria aquele sindicalista mudado de lado, feito o jogo do inimigo, voltado às costas para o povo ao assumir o governo? Apenas uma certeza havia: ele acabava de fazer exatamente o contrário do que prometeu nas campanhas eleitorais.

O servidor público não aceita ser taxado de vagabundo. Nós trabalhamos, servimos ao público sem as condições necessárias para produzir, sem uma política que atenda aos interesses do povo. A política dominante é a do desmonte do setor público e de tudo o que é nacional. Nessa campanha que acompanhou a “reforma”, o mais atingido é o servidor, isso para que outros setores do povo acreditem que nós não queremos trabalhar.

Os servidores que estão à frente das atividades, como os de apoio, enfim todos nós que trabalhamos, estamos nos sentindo humilhados, inteiramente desmotivados. Nosso trabalho vem sendo tremendamente desvalorizado. Oito anos sem aumento. Além disso, o PCCS (plano de cargos e carreira do servidor) da Previdência nos é devido desde 1987, cuja cobrança, através de ações judiciais, vem sendo realizada por 20 mil servidores. Estamos em greve desde o dia 2 de junho e o governo nos promete que vai restituir o percentual, parcelado em 4 vezes.

Não suportamos mais. Vivemos com a corda no pescoço, pegamos empréstimos para pagar empréstimos, pagamos os juros que os banqueiros exigem porque não temos governo que nos remunere decentemente, quando chega o pagamento, já nada há para receber.

Parece aquele antigo sistema dos latifundiários, em que os trabalhadores eram obrigados a comprar no armazém da fazenda os produtos necessários para a sua sobrevivência, mas no dia do pagamento, mais nada havia para receber e ainda ficavam as dívidas. Para sobreviver, o camponês compra mais fiado, duplica sua dívida. Para os servidores públicos, automaticamente correntistas, os bancos fazem muitas ofertas de empréstimos, e facilidades técnicas. Basta digitar na máquina que conseguimos os empréstimos, ou pelo telefone, sem nenhum tipo de pesquisa nem consulta. É muito fácil, tanto que trabalhamos e não vemos o pagamento.

Fomos à Brasília para tentar barrar essa anti-reforma da Previdência Social, mas no fundo todos nós sabíamos que seria impossível impedi-la. Afinal, como barrar? Com os nossos protestos, simplesmente? O servidor não é ouvido. Nós somos barrados no Congresso, nossa opinião não importa. Vale unicamente o voto nos candidatos que sobram, no lixo que aparece na TV, para depois nos traírem impondo leis contra o povo.

Dessa vez, votaram as reformas pela madrugada, nos fizeram de bobos e o monopólio de jornais e TV ainda nos taxam de baderneiros, como se não tivéssemos o direito de manifestar o nosso repúdio diante da traição.

O povo, aos poucos, desperta para a realidade de que não vale a pena votar. Tem que haver outra solução.

Não somos nós os vilões, estamos no mesmo barco, somos povo, com a diferença de termos um emprego, enquanto muitos não dispõem do que na verdade se pode chamar de emprego, além de uma grande quantidade de gente completamente sem trabalho.

Hoje vivemos humilhados. A toda hora roubam os nossos direitos. Nos atribuem a culpa pelo destroçar contínuo do setor público, nos taxam de marajás e de aproveitadores. Não somos isso. A imensa maioria dos servidores públicos é constituída por trabalhadores honestos. Ao contrário das intrigas do governo e dos banqueiros, trabalhamos para que todos tenham trabalho, moradia, alimentação, instrução pública, saúde, tudo em condições dignas, porque exigimos um Brasil para todos os que vivem das suas próprias mãos.

Sobre esse tipo de sindicalismo, cabe também dizer: não precisamos deles, mas de um outro tipo de sindicato, fora dessa estrutura burocrática e pelega. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) nos impôs a candidatura do senhor Lula e com sua eleição ficou claro o papel desse sindicato como apêndice do Estado.

Nós queremos um serviço público de qualidade, que faça jus ao dinheiro descontado através dos impostos. Somos gente do povo, funcionários que trabalham para o povo, uma das garantias que caracterizam o regime republicano. Não somos empregados de nenhuma monarquia, nem queremos ser empregados de nenhum governo estrangeiro em nosso país.

De onde provém o interesse de criar a imagem de um serviço público deficiente e inepto? Porque querem a privatização do Instituto Nacional do Serviço Social, por exemplo? Para que o trabalhador, desamparado, se torne escravo ainda mais barato, desesperado, pronto para vender a sua capacidade de trabalho e os seus serviços por um prato de comida.

Portanto, não mais admitiremos sindicatos com lideranças preocupadas em eleger candidatos para nos traírem depois. Não temos de transitar na contra mão da história. Chega de enganadores, de lideranças que não passam de cabos eleitorais.


 

*Eva Lins é funcionária do INSS.
 
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