Personalizar
Início
O Leste vermelho do proletariado internacional PDF Imprimir E-mail
José Moreira Chumbinho   

Leste vermelho,
nasce o sol,
sobre a China
surge Mao


Presidente Mao e o marechal Lin Piao na Assembléia Nacional do Povo Chinês,
onde foi encenada a ópera

Na velha China, a escuridão e a tristeza envolviam a terra e o céu. O povo vivia plangente por causa da miséria, defrontando-se com o imperialismo, com o feudalismo e com o capitalismo burocrático. Mas chegou o dia em que esse mesmo povo, em ondas sucessivas, ergueu-se para protestar e lutar.

Assim a fala do narrador inicia a primeira cena de O Leste é Vermelho, uma das mais brilhantes peças da literatura e da arte revolucionárias do proletariado internacional. Ela chega ao povo chinês em 1965, nas formas de um teatro total.

Dongfang hong, título original de O Leste é Vermelho, tem como diretor Wang Poing. Essa ópera, com 125 minutos de duração, utilizou muito mais que os recursos do teatro tradicional, acrescentando uma imensa orquestra, um coral de aproximadamente 600 componentes, os mais renomados cantores solos de toda a China, técnicas circenses (em particular a acrobacia), cinema, arte pictórica etc. e uma incomparável fidelidade à causa do povo e à ciência. Ao todo, mais de 3 mil pessoas, entre alunos, trabalhadores e funcionários da arte de Pequim tomaram parte nas apresentações.

A ópera tem como título homônimo a canção que se tornou, de fato, o hino da República Popular da China durante a Grande Revolução Cultural. A letra é atribuída a Li Youyan, um agricultor do norte de Shanshi, e a música foi composta a partir de uma canção folclórica local.

Depois que a camarilha de Teng Shiao ping assumiu o poder — promovendo a restauração capitalista e eliminando milhares e milhares de quadros do Partido Comunista da China —, em razão das vinculações da canção com a Revolução Cultural acusada de fazer o "culto à personalidade" do Presidente Mao Tsetung, ela foi proibida e só muito raramente ouvida. O Leste é Vermelho foi substituída pela Marcha dos Voluntários, cuja letra não menciona o Partido Comunista, tampouco o Presidente Mao.

Dos artistas, literatos e trabalhadores científicos do povo, dos operários, camponeses e soldados de todas as regiões, vieram contribuições para a montagem e realização daquela obra que marcou um grande momento na expressão da República Popular e do Socialismo em bases científicas sob a direção do proletariado revolucionário.

Ainda que não seja este o histórico da ópera (de sua montagem, encenação, conquistas técnicas, circunstâncias particulares em que ela foi produzida etc), há todavia, alguns registros daquele período com relação à literatura e à arte, do quanto chegou até nós no Brasil, e que mencionamos no espaço possível. Todavia, eles só podem ser compreendidos utilizando-se o método de investigação e análise da história da luta de classes na China, inclusive buscando compreender onde estavam e de onde provinham as ideais justas na intensa e encarniçada luta interna no Partido Comunista da China, no interior do sistema de Poder e nas massas.

Quando O Leste é Vermelho foi encenado, o famoso confronto sino "soviético" já havia se realizado (de 14 de junho de 1963 a 14 de julho de 1964). Os debates tiveram início com uma carta de 25 Pontos e concluídos com o nono comentário (de uma série de nove artigos — entre 6 de setembro de 1963 e 14 de julho de 1964), em que o Partido Comunista da China criticou duramente o revisionismo e a restauração capitalista na URSS.

Encarniçada luta


Cartaz anunciando a apresentação de O Leste é Vermelho

As posições defendidas pela ala revolucionária do Partido Comunista da China dirigida pelo Presidente Mao Tsetung foram terrivelmente reprimidas pelos bandos pró-Kruschov — então maioria no conjunto dos partidos comunistas do mundo inteiro.

O Leste é Vermelho, entre tantas manifestações culturais que antecederam a deflagração da Grande Revolução Cultural Proletária, surgiu desprezando as orientações para a literatura e a arte saídas dos arsenais teóricos dos bandidos revisionistas que, também na China, se encontravam no aparato do Estado e de governo preparando um grande golpe contra o proletariado. Ainda que a vitória dos revisionistas fosse inevitável — e desfechasse seu último e definitivo golpe em outubro de 1976 — a revolução cultural atormentou durante dez heróicos anos aqueles que conspiravam contra o povo chinês e buscavam a restauração capitalista na China, além de trazer grandes ensinamentos ao proletariado do mundo inteiro.

Ao anteceder a Revolução Cultural, o Presidente Mao concluía:

"A cultura imperialista e a cultura semifeudal são duas irmãs muito unidas que fizeram uma aliança reacionária para se oporem à nova cultura chinesa. Essas culturas reacionárias estão a serviço dos imperialistas e da classe feudal e devem ser destruídas. De outro modo, será impossível edificar uma nova cultura".

Com efeito, por essa época os revisionistas esforçavam-se para montar diversos gêneros de peças venenosas, um amontoado de histórias sob o ponto de vista da cultura feudal e burguesa.

Por exemplo, a Companhia nº 1 da Ópera de Pequim, segundo depoimento de 1968, manteve-se por muito tempo sob o poder da "linha negra revisionista". Assim, os "imperadores, reis, generais, ministros, pajens, donzelas e outros gênios malfazejos" eram impostos como personagens mais importantes nos diversos gêneros de óperas montadas por mais de 2.800 companhias, além de grupos profissionais e conjuntos artísticos — explicava a senhora Chiang Ching (presa em 1976, uma sentença do tribunal dizia que ela estava "afastada do Partido e do mundo para sempre"), uma das mais destacadas personalidades dirigentes do povo chinês e que passou a dirigir a Companhia nº 1 em 1963. A revolução na Ópera de Pequim continuou sendo acossada por toda a sorte de intrigas, sabotagens e repressões abertas, dirigidas principalmente pelos kruschoves da China.

Um dos episódios marcantes da luta entre a revolução e a contra-revolução no teatro ocorreu quando da apresentação de A fagulha nos caniços, obtendo um retumbante sucesso, assistida inclusive pelo próprio Presidente Mao que felicitou os atores e fez algumas recomendações.

Kruschoves da China

Como resposta, um braço da quadrilha de Liu Shao shi desencadeou uma forte campanha de intrigas e de sabotagens contra a Companhia nº 1. Chegou a ponto de impedir que artistas e técnicos se misturassem com o povo nas suas pesquisas. Ocultava essa atitude simulando visitas de artistas ao campo, adulterando fotos e as publicavam nos jornais.

Bandos assim também minavam insidiosa e criminosamente as decisões adotadas pela direção do Partido Comunista da China de desencadear a Grande Revolução Cultural Proletária, retardando e interrompendo medidas e ações desenvolvidas pelo Partido.

Na literatura e na arte, para confundir as orientações revolucionárias, esses bandos — que se serviam das armas trotskystas, do misticismo feudal e do fascismo de uma maneira geral — impunham a teoria dos três gêneros simultâneos: "peças tradicionais, de temas contemporâneos e novas peças históricas".

No caso da arte tradicional, quando alegavam oposição a esse tipo de arte, o faziam por pura intriga, na realidade para se oporem aos revolucionários proletários — entre eles, a dirigente Chiang Ching, esposa do Presidente Mao Tsetung. Como os revisionistas não podiam publicamente se opor à necessidade de estudar profundamente a história milenar da China e sua arte, negavam o método científico de investigação e análise.

Claro que é preciso preservar uma boa obra original antiga, mas é decisivo analisar a sua tendência política e, ao apresentá-la, elevar cuidadosamente suas qualidades — inclusive "sem procurar fazer-lhes alterações supérfluas, enquanto os defeitos devem ser corrigidos", como observava a senhora Chiang Ching. De fato, não cabe fazer com que os personagens reacionários passem como progressistas ou revolucionários, tampouco inventar personagens de vanguarda na história e na arte milenares, mas descobri-los e reconhecê-los.

Além disso, por acaso também, houve alguma época em que o povo foi retrógrado ou minoria na sociedade? Os revolucionários deveriam utilizar-se do método metafísico de análise e investigação, do estilo feudal e imperialista da narrativa, acima de qualquer crítica a pretexto de preservar a arte tradicional? Que tradições nos interessam: a dos reacionários ou as do povo progressista e revolucionário?

Hoje, falam muito das tradições chinesas, mas só enaltecem como chinesas as tradições feudais com sua miséria e decadência — da gastronomia ao artesanato. Como se o povo chinês estivesse mumificado, nem tivesse história, de 1921 a 1976.

Os revisionistas utilizavam, a princípio, artifícios muito sutis para fugir à discussão sobre a luta entre as artes feudais e imperialistas por um lado e a arte revolucionária proletária por outro. Eram formas de manter a arte (parte da superestrutura) atrasada, incapaz de corresponder e apoiar os objetivos da base econômica do socialismo, sabotando-o, portanto.

Criar sobre que bases?

A grande revolucionária Chiang Ching, explicava ser inconcebível que, passados 15 anos da fundação da gloriosa e amada República Popular da China, então com quase 600 milhões de operários, camponeses e soldados revolucionários (entre os que tudo produzem e os que defendem o povo sem viver à suas custas, ao contrário do exército de velho tipo), ainda não estivessem representados na literatura e na arte — mas que uma minoria com suas concepções contra-revolucionárias fosse personagem dos enredos mais importantes.

Chegara o momento de as óperas (artes profundas), servirem verdadeiramente à época atual. Se finalmente a ciência da luta de classes desvendara toda a gênese da economia, da dialética e da história da sociedade por que se recusar a revelar a realidade às massas?

Também não era possível avaliar uma peça a partir da montagem, quando tudo já estava feito e pouco poderia ser modificado. Era preciso conhecer os textos no seu conteúdo político que merecessem uma verdadeira criação artística, já que não é possível criar algo à base de textos que vão do retrógrado ao contra-revolucionário.

A senhora Chiang Ching aprofundava suas explicações afirmando que para resolver a questão da criação "é preciso realizar a tripla associação da direção, dos artistas profissionais e das massas populares". Vale dizer, é preciso entender a vida das massas e de suas causas mais justas para tomar partido das massas — no passado e no tempo presente, por mais breve que seja o instante focalizado. Mas, sem realizar a associação revolucionária entre a direção, os artistas e as massas populares, da mesma forma, jamais haverá arte proletária.

Sem dúvidas, os conhecimentos e as orientações dessa grande revolucionária iam muito mais longe, e mesmo os trechos aqui citados aparecem na brochura A propósito da revolução na Ópera de Pequim, três anos após o lançamento de O Leste é Vermelho. Mas isso nos basta, por enquanto, para lembrarmos determinados aspectos da obra em quais circunstâncias políticas ela se tornou possível.



 
< Artigo Anterior   Próximo Artigo>
 

Aumentar / Diminuir

A+ | A- | Padrão

Receba as novidades por e-mail






Visitas: 2312759

Conheça nossos livros

Água: a luta do século

De Rui Nogueira

Este livro aborda e denuncia as estratégias e a atuação predatória das corporações financeiras no sentido de se apropriar dos fluxos de caixa gerados pelo atendimento das necessidades essenciais do ser humano: água, energia, transporte e comunicação, com ênfase especial na água.