| O Vale repleto de literatura e arte populares |
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| Rosa Minine | |
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Página 1 de 2 Carlos Faria é um artista que se preocupa com a questão nacional, do ponto de vista popular. Ele está viajando pelo Brasil com o espetáculo Jequi-Brasil, Canções da Aldeia, onde faz uma síntese das canções dos seus quatro discos lançados até agora. Mineiro do Vale do Jequitinhonha, Carlos mostra para o Brasil as riquezas culturais de local conhecido pela pobreza de seu povo, que sofre com a exploração do trabalho, desemprego, ausência de estradas, além da devastação causada, ora pelo latifúndio nativo, ora pelas corporações estrangeiras.
Carlos, até algum tempo atrás, era um psicólogo que nas horas vagas cantava e tocava músicas da sua terra. Atualmente é um músico que, quando tem tempo, atua como psicólogo em algumas palestras que transforma em show. Com a agenda cheia, sozinho ou acompanhado, ele viaja pelo país, grava discos e aprende a ser gestor cultural para fazer sobreviver o seu trabalho. Quando Carlos nasceu, sua família já tinha ligação com a música: sua mãe, atualmente com 86 anos de idade, gostava muito de cantar em casa canções de autores desconhecidos, modinhas populares de todos os tipos, canções folclóricas, verdadeiras peças raras que ouvia na beira dos rios entoadas pelas lavadeiras, comuns na região do Vale do Jequitinhonha. Carlos, da mesma forma ouvia o cantar das lavadeiras: — Eu cresci ouvindo minha mãe cantar essas músicas. Meu pai tocava violão muito bem. Meu avô paterno era boiadeiro, mas também tocador de viola. Eu sempre o ouvia tocar viola e cantar canções de domínio público. Essa influência nasceu na minha própria casa, mas somente depois de adulto eu fui trabalhar isso. Ele aprofunda: — Na região em que nasci, todo mundo que pode vai para capital estudar. E eu fui um desses. Migrei para Belo Horizonte para estudar, fazer o segundo grau e depois o curso superior. Escolhi psicologia, mas aí a arte já estava no sangue e, paralelo, eu fiz curso de teatro. Além disso, já tocava o meu violão que aprendi vendo os outros tocarem, na prática. Carlos se formou em psicologia em 1981 e continuou a fazer seus cursos de teatro, chegando inclusive a participar de espetáculos sob direção de Luis Paixão, teatrólogo consagrado de Belo Horizonte, e também continuou participando de vários festivais de músicas. Em 1985 surgiu a proposta de voltar para o Vale do Jequitinhonha como psicólogo. Aceitou e passou a trabalhar junto às localidades, na região de Almenara, com 22 municípios ao redor. Diz ele: — Viajei muito pela região e passei a a pesquisar e gravar os cânticos que eu ouvia, da herança negra, os batuques, os samba de rodas, as modinhas, os candâmes. E gravei tudo isso na voz dos canoeiros, dos grupos folclóricos da região e também de lavadeiras. Então formei um grupo de lavadeiras da beira do rio local, que ouvia desde criança e gravamos algumas dessas cantigas. O grupo deu certo. Hoje é conhecido como o 'Coro de Lavadeiras', ou simplesmente 'As lavadeiras'. Atualmente se fala do grupo em grande parte do país. Lançamos juntos uns Cds e fazemos show pelo Brasil afora com grande sucesso. E chegou a hora da organização: — Desde criança eu via e ouvia lavadeiras na beira daqueles rios, lavando roupa e cantando. Em 1991 com a construção de uma lavanderia comunitária na cidade de Almenara, a maioria daquelas lavadeiras passou a usar aquele lugar, assim ficou mais fácil reuni-las. Comecei a me encontrar com elas semanalmente, a ensaiar aquele repertório que eu vinha pesquisando e que era do conhecimento delas também — era um repertório de domínio público — e a assim nasceu o grupo de lavadeiras cantoras.
— As cantigas que eu gravei no disco com as lavadeiras, o Batuquim Brasileiro, e o Acqua, têm influência africana muito grande. São batuques, sambas de rodas, modinhas, que certamente vieram da Bahia, porque o norte de Minas foi povoado pelos baianos das caatingas e do litoral. No norte e nordeste de Minas — região de Montes Claros e a região de Teófilo Otoni — existe uma forte influência baiana. Os cânticos vieram de lá com os tropeiros, os canoeiros, na época em que o rio era a única via de comunicação entre o interior e o litoral. Carlos prossegue sua didática: — Até primórdios do século 20, o rio Jequitinhonha era uma via de ligação entre o litoral — Porto Seguro, Belmonte, Ilhéus — e o interior das Minas Gerais: a região Diamantina, do Serro. O rio nasce no Serro, cá na serra dos Pinhaços, no centro de Minas, onde houve no século 18 o auge do garimpo de diamante e do ouro. Ele abastecia Portugal e outros países da Europa. Por causa dessa herança estão as modinhas portuguesas presentes nos meus discos. Como Da sala pra varanda no disco Acqua.
Existem bolsões de miséria Então, a memória do povo vai tomando forma, se cristalizando: — Algumas das cantigas dos meus discos são minhas, porém muitas são adaptações que eu fiz. Recolhi, adaptei, dei nome para as cantigas porque nenhuma delas tinha e as gravei. Junto com as lavadeiras, surgiu uma série de canções, uma herança maravilhosa que pertence ao patrimônio imaterial brasileiro, e que agora estão materializadas nos discos, estão perenizadas ali. Carlos lançou seu primeiro disco, chamado Carlos Faria, em 1994, com canções autorais com alguns parceiros e também temas recolhidos do Jequitinhonha: — Depois de 2000, lancei Tupiniquim, outro disco autoral, com uma mistura étnica. Esse disco tem influência indígena, africana e portuguesa. Índios Maxacalis, que vivem na região do Vale do Jequitinhonha abrem a canção Tupiniquim. Em 2002 ele lançou o disco Batuquim Brasileiro, já com a participação das lavadeiras, fruto de uma pesquisa que faz há alguns anos, recolhendo canções com autores desconhecidos, que já caíram no domínio público. Seu Cd mais recente é o Acqua, 2005. Canções da aldeiaAlém das pesquisas que faz com as lavadeiras e outras manifestações culturais no meio do povo, para ter originalidade e maior singularidade, Carlos faz o seu trabalho solo, com músicas próprias. Em seu show Jequi-Brasil, Canções da Aldeia, ele mostra essas canções, onde aparecem todas as influências que teve em sua infância e vida adulta. — Tem um pouco de batuque, manifestações negras muito fortes, que foram recolhidas por mim. Neste show eu canto as músicas dos meus quatro discos, lançados até agora, e mais algumas canções inéditas que eu estou gravando para o meu quinto trabalho — que será também um disco solo e que se chamará Canções da Aldeia. Além desse apanhado de todos os cds, tem mais alguns temas recolhidos junto aos índios locais. Porque Carlos era vizinho deles: — Há bastante tempo eu trabalho junto aos indígenas de Minas Gerais, os Maxacalis. Eu nasci do lado da aldeia deles. Então incluí no Jequi-Brasil uma pequena vinheta Maxacali e outra dos Crenaques — que são índios lá do Vale do Rio Doce — e dos Pataxós — de Porto Seguro, mas que moram em Minas. Tenho uma amizade muito grande com esse grupo. E é por essa ligação com os índios locais e as músicas de domínio público — que são cantadas por todo tipo de populares — que o show recebe o nome de Jequi-Brasil, Canções da Aldeia.
Tive que aprender Carlos, desde criança, tem contato com muitos índios e explica que apesar de viverem na região do Vale do Jequitinhonha, quase não se ouve falar deles e da sua cultura. Muitos brasileiros não têm nenhuma idéia de que eles sequer existem e muito menos que residem no Vale. Em Minas Gerais existem oito minorias nacionais diferentes, reconhecidas como índios, e uma nona ainda em estudo antropológico que definirá a sua autenticidade, que são os Mucurins: — A minha região é mais a nordeste de Minas, é a micro-região de Teófilo Otoni — que é a cidade principal. E já chegando no sul da Bahia, tem a cidade de Maxacali, que está a 30 quilômetros da divisa com a Bahia. Amenara, onde eu morei por dez anos e trabalho com as lavadeiras, está um pouquinho mais acima. A cidade mais próxima é Itapevi e depois Belmonte, onde o rio Belmonte passa e deságua. Então é o nordeste do estado com o sul da Bahia. Um povo passava na beira da porta. Também ali havia quilombolas. A história viva, ia e vinha, acenava, cumprimentava, entrava na casa. Como sempre faz com todos nós. Só os colonizados não vêem: — Muitas pessoas nunca ouviram falar que tem índios nessa região, porque isso não é divulgado como deveria. Mas eu cresci com os índios na minha porta, na minha casa. Os Maxacalís desde criança transitavam por ali. Depois de adulto, já formado em psicologia e de volta ao vale, foi que eu pude compreender a dimensão, a importância histórica cultural que eles têm. Não só os indígenas, mas também os quilombolas. Por toda aquela região surgiu grande mistura de raças com o negro, o índio e o colonizador português. Essa redescoberta da sua terra se deu quando voltou a morar em Almenara, a partir de 1985, já com uma visão diferente. Assim, desejou valorizar as manifestações da terra onde ele e seus pais nasceram. Carlos passou a ter um contato diferente com os índios, precisando olhar com os olhos de um pesquisador da cultura popular, mas não como um estrangeiro, porque entendia que o povo precisava valorizar sua grande riqueza e variedade de manifestações culturais, que nascem e sobrevivem, apesar de todos massacres sofridos, que de uma maneira e de outra se repetem, séculos afora.
O povo do Vale está Mas o povo ninguém consegue matar. Com todo o processo de dizimação que os índios sofreram, genocídio ao longo dos séculos, eles estão presentes na região, em grande quantidade. Matam aqui, escravizam ali mas o que sobra cresce, se multiplica, vira proletário, camponês, novamente proletarizado, até poderem ser livres como o povo brasileiro há de ser: — Os africanos trazidos para o Brasil como escravos eram considerados necessários para a sociedade, porque eram a força de trabalho. Já os índios foram sendo exterminados por não se adaptarem à escravidão. Visto pela ótica dos que dominavam, eram mortos por serem 'desnecessários'. Assassinados um a um porque a alma era outra, porque ela podia dizer não. Porque a alma é a cultura dos verdadeiros donos da terra que não tolera o trabalho escravo e prefere morrer lutando, os Aimorés nos deram uma história não escrita que precisa ser desvendada: — Os antigos Aimorés, que combateram ferozmente os escravizadores portugueses, acabaram por ser praticamente dizimados pelo colonizador, a partir da chegada da Família Real. Simplificaram, porque o rei decretou que eles não possuíam alma, se podia matar à vontade. A ocupação do interior do Brasil se deu às custas do genocídio dos índios. Os que vivem hoje são heróis porque sobreviveram aos massacres. Os Aimorés retomam a sua identidade brasileira de donos da terra, tal como os camponeses modernos, conta Carlos: — E muitos sobreviveram. Ao longo dos anos continuam existindo. Aos poucos estão retornando às suas raízes, e reencontrando a sua identidade, que foi dissipada durante anos. Carlos descreve como os indígenas estão ressurgindo depois de séculos de repressão, de aculturação, de genocídio, e passaram há pouco tempo — depois do fim da gerência militar que assegurou o domínio ianque no Brasil — a se assumirem novamente como índios. Muitos que estavam espalhados e perdidos pelas cidades, estão voltando para a região, retomando a sua identidade verdadeira, sem nostalgias ou demais formas covardes de existência: — Com a perseguição violenta, durante o regime militar, principalmente, esses índios Maxacalis, Crenaques e outros foram praticamente trucidados. Nesse período foi criada uma guarda chamada Guarda Rural Indígena. Essa guarda era na verdade índio perseguindo índio. Os soldados eram índios e tinham a função de reprimir os próprios indígenas. Uma coisa horrorosa. Puseram irmãos contra irmãos. Traziam índios do Amazonas, do Mato Grosso, de várias partes do país e mandavam outros para lá, só para perseguirem seus irmãos. Quantos crimes a gerência militar cometeu, agora acobertados pelos oportunistas que costumam dizer que o povo está finalmente no poder. Mas, apesar disso, Carlos Faria relata como os povos indígenas vêm retomando seu idioma: — Com essa perseguição e matança, desagregaram famílias e lhes tiraram a identidade, tanto que eles não mais falavam o próprio idioma. Isso aconteceu, no final do anos 60, e anos 70, com a ditadura. Foi algo horroroso. Agora, depois de anos, estão voltando e assumindo a sua própria cultura. Os Maxacalis, por exemplo, em sua aldeia, só falam a sua língua, é só Maxacali. Eu conheço palavras isoladas, mas não falo a língua deles. Muitas outras tribos falam português, mas têm escolas bilíngues. Aprendem também a língua deles. As crianças são educadas assim. Carlos prossegue: — De 2005 pra cá, surgiu até um outro grupo indígena do Vale do Mucuri, chamado Mucurim, que são parentes dos Maxacali e dos Aranãs, remanescentes dos Crenaques, do mesmo grupo. E eles estão agora se reunindo e praticando as suas tradições. Atualmente está acontecendo estudo antropológico para provar se esses são mesmo índios... O problema é que a antropologia colonial quer atestar etnias e não povos, nações, minorias nacionais etc., principalmente não admite reconhecer a legitimidade do ser humano de ocupar-se do trabalho livre, libertar os meios de produção e escolher o seu regime político-social, desenvolver sua cultura e materializar seus sonhos de liberdade. Carlos continua: — Será emitido um laudo por historiadores, traçando as relações históricas do grupo, para testar que realmente são índios. Claro que eles estão aculturados e miscigenados, porque já se casaram com pessoas que não pertencem ao seu meio. Não são mais 'índios puros'. Até os próprios Pataxós, no sul da Bahia, já estão misturados. Os menos misturados, em Minas, são os Maxacalis. Eles só se casam entre eles mesmo. Desde o século 17 que os Maxacalis são reconhecidos como índios e do mesmo grupo. E, apesar de todas as perseguições que sofreram e suas migrações, estão ainda falando a língua Maxacali, que é riquíssima também.
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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