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Ano II, nº 17, março de 2004
O cotidiano da crise | O cotidiano da crise |
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| Luiz Claudio Carcerelli | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Como em todo governo burguês que se preza, sucedem-se os escândalos, a luta por abafá-los, a recomposição de bases e as brigas encarniçadas dos grupos de poder — responsáveis pelos escândalos e donos dos votos. Até aí, nada de novo. O que de fato tem preocupado o PT é perceber que diante da crise geral do capitalismo, mais profundamente sentida na periferia, muito pouco lhe resta a fazer para impedir convulsões, como nos países vizinhos. Resta menos gordura do que se esperava para promover a necessária demagogia. Em tempo de farinha pouca, meu pirão primeiro.
Ciranda, cirandinha...
Desnecessária a argumentação de que nada de substancial muda com a reforma ministerial. Necessária se faz a análise de como a ciranda dos ministros se encaixa nas estratégias de curto, médio e longo prazo do governo. O aspecto mais aparente é o eleitoreiro e o aumento da base de sustentação no Congresso, bem como a recomposição interna do próprio PT. Não se pode perder, no entanto, o aspecto determinante da composição de classes que, em última análise, determina o aspecto mais aparente. A necessidade de cumprir ordens de seus senhores também definiu a queda e o remanejamento de alguns ministros, senão vejamos:
Tentando recompor com o clero católico, o PT indica Patrus Ananias para o recém criado Ministério do Desenvolvimento Social, que engloba os antigos e inoperantes Ministério da Segurança Alimentar e o da Assistência Social, então chefiados pelos igualmente inexpressivos José Graziano e Benedita da Silva. No caso de Patrus, existe ainda uma outra questão em jogo: a aliança com o PSDB mineiro. Ananias foi o deputado mais votado de Minas e candidato natural do PT à disputa do governo no estado. Sua ida para o ministério, aonde irá se desgastar, deve representar o apoio de Aécio Neves à reeleição de Pimentel (PT) para a prefeitura de Belo Horizonte, bem como o apoio do PT à recondução do PSDB ao governo do estado. E não será surpresa Aécio como vice de Lula na próxima eleição presidencial. Óbvio que ainda falta algum tempo, alguns escândalos, mudanças, mas é para aí que a coisa aponta. Escândalos são normaisAs manchetes de todo o monopólio dos meios de comunicação estamparam em letras garrafais o escândalo envolvendo um certo Waldomiro Diniz, auxiliar e amigo de José Dirceu. Mais uma vez, gritaram: “Isso tem que acabar!” Disseram que serão adotadas providências. Drásticas; doa a quem doer — reforçadas por quantas medidas de abafa forem necessárias (essas estão sendo tomadas), restando apenas decidir entre marguerita ou calabresa. O fato não traz nada de novo. Afinal, na política burguesa honesto é quem ainda não foi pego com a boca na botija.
Tais escândalos fazem parte do cotidiano nos círculos de poder de um Estado podre e não deveriam surpreender mais ninguém. Campanhas eleitorais custam caro e as fontes não podem ser totalmente declaradas, não importando se o banqueiro seja do jogo do bicho, um agiota legal ou mesmo um traficante. O empréstimo será pago com juros durante o mandato. Salário sempre o mínimo
Ainda não foi possível Pallocci ir a televisão e anunciar o “espetáculo do crescimento”, o novo “milagre brasileiro” e temos que nos contentar com simples “crescer o bolo para depois dividir” e “exportar é o que importa”. Como é o povo o principal responsável pela crise, continua o espetáculo draconiano de sugar seus direitos, suas conquistas com requintes de sofisticação. “Estamos estudando duas vertentes. Além do reajuste deste ano, que é algo importante, estamos analisando como conciliar o dispositivo constitucional do salário mínimo com as desigualdades regionais, sem falar em regionalização. A idéia é estudar o custo de vida em cada região e a diferença entre a família unipessoal, sem dependentes, e aquele trabalhador com família maior. Para que isso? Para chegarmos à conclusão sobre qual é o salário mínimo efetivo que a sociedade reconhece para o cumprimento da Constituição. A intenção é pensar num planejamento para atingir um salário mínimo decente. O Brasil quer crescer e distribuir melhor sua renda. Isso não dá para fazer com milagre. É preciso planejamento e uma estratégia econômica e orçamentária.
Não é novidade nem para os doutores em marxismo do PT, que tantas aulas deram sobre mais valia e reprodução do capital, o que Marx demonstrou há mais de 100 anos. O salário será sempre o mínimo necessário para que o trabalhador continue trabalhando e se reproduzindo. Nada além da ração minguada, do transporte para o trabalho, algumas vestes e a comida dos filhos, para que estes cresçam e a seu turno possam ser explorados. Todo o resto — férias, 13º etc. — foi arrancado com muita luta e sempre foram vitórias temporárias. O capital sempre lutará no sentido contrário, tentando sobreexplorar a mão de obra. Um exemplo claro disso é a quantidade absurda de horas extras: 39,8% da mão de obra ocupada trabalha acima das 44 horas semanais, jornada assegurada por lei. Mas Berzoini quer minimizar o mínimo desrespeitando até as leis do capitalismo. Quer levar em conta apenas o que pode levar a uma diminuição no cálculo como a tal família unipessoal.
1 Com o V Congresso do Partido Comunista do Brasil, Prestes propõe a mudança do nome do partido para PCBrasileiro, o revisionismo se consolida e diversos revolucionários rompem com a direção, iniciando o processo de reconstrução do PC. Para diferenciar-se do revisionismo é acrescentada a preposição do na sigla, surgindo o PCdoB. Com a derrota da guerrilha do Araguaia e a queda da reunião de seu Comitê Central na Lapa, em São Paulo, a direção do PCdoB capitula, perdendo também sua condição de comunista e só não mudou o nome porque não foi obrigado pela legislação. Atualmente esconde envergonhado a palavra Comunista de seu nome, veiculando apenas Pecedobê — O Partido do Socialismo — como os demais partidos social-democratas. |
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