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Ano III, nº 20, setembro de 2004
O desemprego mascarado em Franca | O desemprego mascarado em Franca |
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| José Ricardo Prieto | |
Até onde a cidade paulista de Franca, conhecida como a Capital do Calçado, terá merecido os rasgados elogios que lhe fez Luís Inácio, em 15 de maio passado, pelo dinamismo na criação de empregos? Há longo tempo distante dos afazeres sindicais, Lula festejou números oficiais que não retratam a realidade. As estatísticas registraram, como empregos novos, postos de trabalho já existentes, porém informais. Lá impera a terceirização: tudo o que a indústria oferece é uma encomenda, a ser atendida por absoluta conta e risco do trabalhador.Rivalizando em qualidade com os europeus, os sapatos masculinos produzidos pelos operários francanos conquistaram o mercado externo há muito tempo. Quando, como agora, o setor comprador da burguesia nativa se alça ao controle do Estado, sua política favorece o setor exportador calçadista, cujas vendas já passaram das mãos dos industriais para as dos atravessadores. Toda a economia da região vive ao sabor das flutuações do dólar e da avidez dos atravessadores nacionais e internacionais, sempre muito próximos dos monopólios da comunicação de massa. Para fazer o jogo do poder e alardear a expansão do emprego, volta e meia esses veículos apresentam estatísticas do IBGE baseadas na procura por emprego apenas nas regiões metropolitanas, ou, para o interior, dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho). Anunciaram assim a criação de cerca de 13.500 postos de trabalho no setor calçadista brasileiro em maio, tendo Franca à frente desses números. O que se esconde por trás da "vertiginosa" criação de postos de trabalho em Franca é a regularização trabalhista de etapas da cadeia produtiva do calçado, que vinham sofrendo continuado processo de terceirização (precarização das condições de trabalho). Os operários saíam continuadamente da exploração regulamentada da força de trabalho para o subemprego nas bancas (pequenas prestadoras de serviço, geralmente domiciliares) de corte, chanfração, pesponto e até de montagem e acabamento, que ninguém sabe são ou não legalizadas. Esse processo é altamente vantajoso para os patrões, por lhes propiciar rebaixamento de custos ao contornar obrigações fiscais e previdenciárias e ainda evitar despesas com o pagamento de horas extras, porque, por mais que o operário se desdobre em casa para obter a produção encomendada, não se caracteriza o trabalho extraordinário. A divisão do trabalho ganha nova feição, já que cada etapa se realiza em local diferente, e a mão de obra pulverizada encontra sérias dificuldades de mobilização. Na fábrica, o contato permanente entre trabalhadores possibilita a união para a luta coletiva por melhores salários e condições de trabalho. Já no trabalho domiciliar, a negociação se dá em separado. A situação levou, entretanto, o Tribunal Superior do Trabalho a expedir, no ano 2000, o Enunciado 331 (ver quadro), segundo o qual nenhuma empresa pode terceirizar a sua atividade-fim. Pode, no máximo, terceirizar atividades-meio (limpeza, segurança, administração, etc). Obviamente, uma fábrica de sapatos não pode terceirizar o produto. Esta jurisprudência só passou a ser respeitada após pressões do Sindicato dos Trabalhadores em Indústrias de Calçados e Vestuário de Franca e região (STICV) para ser intensificada a fiscalização da Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª região (área de Campinas - SP). As empresas tomadoras de serviço (que terceirizam) têm sido compelidas a firmar um termo de ajustamento de conduta, pelo qual assumem responsabilidade "solidária" pelos compromissos trabalhistas das prestadoras de serviços contratadas. Isto permitiu o registro de um súbito aumento da quantidade de trabalhadores empregados, uma vez que muitas pessoas que já trabalhavam apenas tiveram sua condição de operário formalizada perante o estado. Mera alteração nas estatísticas, para auxiliar no desempenho capenga da Gerência FMI-PT. Migração e desemprego
"Grande preocupação é a vinda de pessoas para a cidade atraídas por essa propaganda enganosa," — observa Paulo Afonso Ribeiro, presidente do sindicato. — "Ondas de desempregados vêm para cá e ficam frustradas, pois só há oportunidade para quem tem qualificação." Mono-indústria calçadista
Franca era no século 18 um entreposto de víveres no caminho para as minas de Goiás. Décadas depois passou a abrigar grandes plantações de café. A industrialização se iniciou em 1920, com a instalação da primeira fábrica moderna de calçados. Passadas duas décadas, caracterizava-se o pólo calçadista, empregando também força de trabalho infantil. Trabalho desqualificado
O trabalho infantil foi empregado mais intensamente até 1990. Embora tenha havido pressões por parte do mercado internacional por produtos "politicamente corretos", logo se percebeu que o interesse do imperialismo era outro. Precisava-se utilizar mais intensamente da força de trabalho adulta para evitar problemas com grandes massas desempregadas. As fábricas passaram então a só empregar maiores de 14 anos e devotar algum respeito à CLT. Os meninos, entretanto, escorregaram para o subemprego das bancas prestadoras de serviço, longe das vistas dos fiscais. A necessidade de costura manual e trissê (ornamento feito com finas tiras de couro trançado) em certos modelos fez com que estes trabalhos fossem os primeiros a deixar a fábrica: a produção ficou a cargo das mulheres, principalmente as casadas e as mais jovens, que por diversas razões não trocaram o lar pela fábrica.
Enunciado 331 |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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