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Início arrow Anteriores arrow Ano VI, nº 39, janeiro de 2008 arrow O frevo não convida, arrasta
O frevo não convida, arrasta PDF Imprimir E-mail
Paulo Gonçalves   
http://anovademocracia.com.br/39/26b.jpgO povo pernambucano gosta de dizer que tem "uma música e uma dança que nenhuma terra tem". E é verdade. Criada pelo próprio povo, essa música e dança completou 100 anos de registro em fevereiro de 2007. A palavra frevo foi publicada pela primeira vez no dia 9 de fevereiro de 1907, no então Jornal Pequeno. A nota citava um ensaio do clube Empalhadores do Feitosa, localizado no bairro recifense do Hipódromo, que tinha como uma das músicas do repertório O Frevo. Mas a palavra é uma expressão popular mais antiga e vem de ferver e, por corruptela, frever, sinônimo de festa animada, quente.

Todavia, se o primeiro registro jornalístico completa 100 anos, as origens do ritmo são bem mais antigas, como todo carnavalesco pernambucano está "cansado de saber", como diz o trabalhador Agnaldo Santos. De chapéu panamá e camisa azul com listas brancas, ele chega pontualmente às 19h de uma sexta-feira, à sede do Bloco Carnavalesco Banhistas do Pina, cujo símbolo é uma jangada e as cores oficiais são o azul e o branco. Vem cansado do trabalho de gari, mas com um sorriso aberto no rosto magro.

— Passo o dia varrendo as ruas dos bacanas de Boa Viagem, embaixo do sol quente, mas meus pensamentos ficam leves quando penso no meu Bloco querido — afirma.

Enquanto afina o instrumento para mais um ensaio, Nado, como é conhecido, fala com carinho da sua trajetória carnavalesca.

— Comecei menino, trazido pelo meu pai. O Bloco foi fundado em 1932 e desde o começo tem sempre alguém da minha família fazendo parte do Carnaval. Essa tradição não vai morrer porque meus dois filhos já estão por aqui também.

Nado toca violão, cavaquinho e banjo, instrumentos que compõem a orquestra de paus e cordas dos blocos líricos, surgidos a partir de 1915, das reuniões familiares e como uma extensão dos presépios e ranchos de reis, tocando frevo-canção e marcha de bloco. Essa origem, segundo o pesquisador Valdemar de Oliveira, se liga aos admiradores das serenatas que também iam às ruas nos dias de carnaval. Os blocos são influenciados — inclusive com sua dança que em nada lembra o passo do frevo — pelos pastoris. Além dos Banhistas do Pina (que também já recebeu os nomes de Amadores, Jangadeiros e Veranistas), outros blocos surgidos na época e que ainda desfilam no carnaval recifense são o Apois fum!, Bloco das Flores, Batutas da Boa Vista (1920), Madeiras do Rosarinho e Inocentes do Rosarinho (ambos em 1926) e Batutas de São José (1932).

http://anovademocracia.com.br/39/26a.jpg Outra tradição preservada no carnaval de Pernambuco são os clubes de frevo, que, ao contrário dos blocos, executam "frevo rasgado", ou frevo-de-rua, com instrumentos de sopro, a exemplo do Clube das Pás.

Na tarde de um sábado calorento do mês de outubro, o motorista de táxi Rafael Silveira foi um dos primeiros a chegar à sede do clube, no bairro do Campo Grande, acompanhado da esposa, a costureira Leda Maria, que há vários meses dedica-se à confecção de fantasias.

— Nós fazemos o possível para aproveitar o material usado no ano anterior, mas tem sempre que comprar peças novas. Cada um contribui como pode e se esforça para fazer o Clube ficar bonito.

E boniteza — além de história — é o que não falta "nas Pás", como o povo chama o clube fundado em 1887. Dizem que naquele ano, um navio inglês que aportara para abastecer-se de carvão estava fundeado no porto do Recife. Como era dia de carnaval e com a agitação política da época, faltou mão-de-obra para abastecer o barco. A agência responsável pela carga "pagou dobrado" a um grupo de carvoeiros que fizeram o abastecimento, sem deixar de brincar o carnaval.

Depois de ter recebido os seus salários pela prestação do serviço, o grupo de trabalhadores seguiu euforicamente para pular atrás das troças. Dado a euforia da festa e o robusto salário recebido resolveram fundar um novo bloco carnavalesco, e, em homenagem aos seus instrumentos de trabalho o denominaram de Bloco das Pás de Carvão, que fez o seu primeiro desfile no carnaval de 1888 e hoje se chama Bloco das Pás Douradas.

Ritmo e "passo"

Se os clubes e blocos têm tipos de frevo e origens de classe bem definidas e registradas na memória do povo, não se pode provar, contudo, quem nasceu primeiro, se o frevo ou o passo — que é a dança correspondente ao estilo musical.

O historiador Valdemar de Oliveira afirma no livro Frevo, Capoeira e Passo que "a dança nasceu de um choque entre a capoeira e as marchas militares". Ele registra que durante o século XIX as cerimônias de troca de guarda nos quartéis exigiam que as bandas militares desfilassem pelas ruas, várias vezes por dia. Esse cortejo passou a ser acompanhado pelos praticantes da capoeira — geralmente negros, ex-escravos e pessoas egressas das camadas proletárias da população do Recife — que no trajeto executavam passos de dança improvisada. Dessa combinação, teria surgido o passo.

Uma dessas bandas militares chamava-se "O Quarto", por ser do Quarto Batalhão de Artilharia, a outra "A Espanha", do Corpo da Guarda Nacional, assim chamada por ter como mestre um músico espanhol. Os capoeiras escolhiam uma banda marcial como a de sua preferência, e considerava adversário quem não fizesse parte do mesmo grupo. E então eram distribuídas pernadas, golpes com pau, espetadas com faca e punhal entre os partidários das bandas adversárias. Até que em 1856 o então governo da Província de Pernambuco proibiu o desfile dos capoeiras— na mesma época em que as limas-de-cheiro, dos entrudos, e os capoeiras também eram alvo de proibição no Rio de Janeiro.

A diferença, segundo o historiador Ruy Duarte no livro História Social do Frevo, é que enquanto as ordens foram obedecidas no Rio, que adotou um carnaval de estilo europeu, no Recife, que respirava rebeldia e agitação, a proibição foi driblada com a fundação de clubes carnavalescos:

— A polícia na verdade estava perseguindo capoeiras que matavam os portugueses invasores. Então os clubes se fundavam sob inspiração clandestina de nomes e símbolos — daí a denominação de clubes carnavalescos com categorias profissionais, Lenhadores, Vassourinhas, Caiadores, dentre outros.

Maestro Formiga

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Maestro Formiga
Desde então, para animar a folia, seja nas ruas ou nos salões, músicos como o maestro Ademir Araújo são figuras centrais da folia e recebem, por isso, o carinho do povo pernambucano. Conhecido por Formiga, o maestro iniciou sua carreira em 1961. Compositor, arranjador, regente e professor de música, ele já trabalhou em diversas bandas, como a Municipal, a Sinfônica da Cidade do Recife, Banda Sinfônica Juvenil Pernambucana e coordenou o Curso de Capacitação de Instrumentistas de Bandas.

Atualmente é diretor musical, arranjador e compositor da Orquestra Popular do Recife, fundada por Ariano Suassuna em 1975. Ele também atua como diretor da Federação das Bandas de Música do Estado e como regente da Banda Amigos da Cidade do Recife, além de ser membro da Academia Pernambucana de Música. Apaixonado pelo frevo, Ademir diz que o ritmo é o elemento impulsionador da Orquestra Popular, associado aos outros ritmos do povo — maracatu, ciranda, caboclinho, bumba-meu-boi, coco-de-roda, dentre outros.

Dedicando-se à pesquisa e transcrição de gêneros populares, a Orquestra Popular é conhecida também pela precisão, afinação e potência de seus metais e já se apresentou em todo o Nordeste, além de países como Alemanha, Bélgica e Cuba, em concertos solo, acompanhando o grande cantor de frevos Claudionor Germano ou o Balé Popular do Recife, além de ser convidada com frequência a se apresentar com vários artistas.

— Todo o meu tempo é dedicado à música. Mas além da Orquestra Popular faço arranjos, componho, dou aulas de música para alunos dos bairros populares e também dou aula de reciclagens em bandas no interior. Tudo por conta própria, é bom que se diga — diz o maestro.


 
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