| O genoma do fascismo sofisticado |
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| Luiz Claudio Carcerelli | |
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Página 1 de 2 As falsificações sobre superioridade e inferioridade entre os homens remontam aos primórdios do divórcio entre o trabalho manual e intelectual, do surgimento das classes e, portanto, da luta entre elas. No século XVIII, os monarcas, considerados representantes das divindades na terra, asseguravam seus privilégios por hereditariedade — descendiam de uma linhagem nobre. Mas, de um instante para o outro, desmoronaram a própria monarquia e se fez em pedaços a auréola das relações de produção feudal. A burguesia rasgou uma a uma todas essas procurações divinas, todas as explicações religiosas que constituíam a força jurídica do feudalismo, suas Ordens, condição social etc., com as quais ocultavam as classes, a política, a filosofia. Mas, por ser uma classe que vive da exploração dos trabalhadores, tão logo tomou o poder, a burguesia tratou de sedimentar a sua base econômica e a correspondente superestrutura que socorresse as novas relações de produção. Assim, restaurou o charlatanismo religioso, recolhendo cada pedaço da teologia que lançara ao vento, e recompôs o rebotalho anticientífico segundo as novas necessidades, como as antigas falácias sobre a desigualdade biológica e intelectual entre os homens. O determinismo geográfico — um dos falseamentos retomados pela burguesia, já às portas da última etapa do capitalismo — evoluiu e se cristalizou mais tarde na corrente nazista do imperialismo. O determinismo genético, igualmente fatalista, passou a divulgar histericamente o embuste dos tais genes da violência, do alcoolismo, da depressão feminina e o que mais desejar, como recurso capaz de explicar ou mesmo prever todo o histórico de uma pessoa. Obviamente, as classes privilegiadas e alinhadas à política imperialista terão os genes de paladinos da justiça, enquanto as demais ficam com a tendência genética de ditadores, de bandidos, portadores do perigoso gene do "terrorismo", etc. É o comportamento típico dos potentados decadentes que perderam qualquer caráter progressista e, consequentemente, a capacidade de fazer ciência. A fraude da "raça pura" está longe de ser uma criação de bandidos que se escondiam sob a nacionalidade alemã na vigência do III Reich. A sofisticada argumentação das academias sobre "raça pura" e geo-política recebem grande reforços ainda na ante-sala da passagem do capitalismo para a fase imperialista. Mais tarde, para levá-la à prática, nos moldes "arianos" do século XX, os nazistas eliminaram fisicamente comunistas e democratas, parcelas avançadas dos intelectuais e trabalhadores científicos, depois, quaisquer opositores ao regime, chegando a vez dos judeus e, finalmente, escravizou nações inteiras na Europa para sustentar o "milagre alemão". Sua maior vítima, entretanto, foram os povos da URSS, com 20 milhões de mortos, afora um imenso contingente de cidadãos ali capturados e arrastados ao trabalho forçado. O que o nazismo consagrou como "ciência", com espantosa monstruosidade, foram as doutrinas de dominação há muito vigentes no USA, na antiga Rússia czarista, na Inglaterra e na própria Alemanha, concentrando-as, nacionalizando-as e dando-lhes um acabamento, através de órgãos como o Instituto de Munique, até que o expansionismo e o racismo viraram lei, consequência do processo de partilha do mundo pelas grandes corporações. A "superioridade ariana" consagrou até mesmo a ética dos alemães selecionados que podiam e deveriam procriar com várias mulheres, também "arianas", nos países ocupados pelas forças nazistas. Os filhos destes acasalamentos eram criados em orfanatos próprios para o fim a que se destinavam: preencher o espaço ocupado por cada untermenschen (subumano) na Alemanha. O imperialismo é insano
Entre as mais recentes invencionices vendidas como ciência, encontram-se as que deram suporte ao nazismo, em particular a eugenia e a forma atual do determinismo neurogenético, aplicados no campo da engenharia genética e da eugenética. A indumentária anticientíficaSe as causas da guerra são bem claras, as sucessivas partilhas do mundo pelas potências imperialistas e o obscurantismo serão a sua justificativa. Durante muito tempo era atribuída a uma loucura de Hitler o desejo de dominar o mundo. Seguindo o raciocínio neurogenético, pode se alegar a presença de um gene ditador no führer. Mas, e os nazistas, como justificavam a guerra?
Da mesma forma, com intensa campanha de propaganda, teses pseudocientíficas assinadas por "conceituados doutores", vão tomando corpo e convencendo — ou se impondo — sobre outros cientistas, políticos e a população em geral. A eugenia no campo das ciências naturais e a filosofia de Nietzsche são exemplos disso. O mesmo contrabando
Após a guerra houve um notável aprimoramento da técnica, possibilitando veículos mais confortáveis e velozes, viagens no espaço próximo, computadores com crescente capacidade de memória, logicamente, máquinas e sistemas que acentuam a exploração do trabalho, a criação de armas cada vez mais sofisticadas, tanto para o extermínio de populações inteiras como para o trabalho policial, etc., etc. Pode-se agora afirmar com certeza quem é o pai de uma criança, e a mãe, antes óbvia, tornou-se incerta (com o advento da "barriga de aluguel") e necessita dos mesmos exames comprobatórios. Primeiro, embrulha-se num mesmo pacote todo o tipo de violência, deformando o próprio enunciado de forma permanente e crescente até transformá-lo em pânico: "A violência é a criminalidade", "A criminalidade é a violência maior". Nunca a exploração do homem pelo homem, a transferência de tributos e sítios inteiros de matéria-prima de um país para a metrópole, a destruição da vida material dos povos, a opressão nacional — que, inclusive, promovem a criminalidade — são considerados como violência. Simultaneamente, tem-se a guerra imperialista: a invasão do Iraque, a resistência daquele povo, a revolução peruana e o assassinato de presos de guerra naquele país, as atrocidades cometidas em Guantânamo, e particularmente, os crimes comuns. É feito então grande alarde em torno da questão. Seguem-se campanhas pela paz, pelo desarmamento do povo e a propaganda de que tudo isso nada tem a ver com problemas sociais, mas com a constituição biológica dos indivíduos, possível de ser curada pelos métodos citados acima.
O problema reside no aspecto subjetivo, na organização ideológica e política da sociedade, onde as classes dominantes se utilizam dos Galtons modernos para tentar reduzir todos os problemas a sequências de ADN, que podem ser manipuladas. É o recurso que encontram para — entre outras atitudes, como guerras e golpes de Estado — tentar retardar o inevitável fim do imperialismo. Somente uma classe revolucionária pode libertar a ciência das amarras que a prendem, somente uma cultura científica — e principalmente de massas — pode garantir que o avanço do conhecimento da natureza e da técnica sirva ao progresso, e não à opressão. |
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| Nº 49, janeiro de 2009 |
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