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Página 1 de 2 Há quase duas décadas Luís Arce Borja tornou-se editor de elDiario Internacional, momento em que esse periódico inegavelmente passou a figurar entre as publicações de vanguarda da imprensa em todo mundo, inclusive nos momentos em que a repressão tentou empurrá-lo para a clandestinidade, conseguindo apenas torná-lo ilegal juridicamente. Mesmo exilado há vários anos na Europa, desde Bruxelas o corajoso jornalista segue editando as mais precisas e severas análises da situação internacional e peruana em particular.
Nesta oportunidade, AND publica trechos do artigo que aparece em elDiario de 29 de abril 2003, sob o título original de Critica a las negociaciones de paz, denunciando várias organizações capitulacionistas. Extraímos passagens referentes (ou mais próximas) à política de negociações de paz adotada pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e outros grupos.
Sua crítica é dirigida, portanto, às organizações criadas para manter uma constante confusão entre as massas nos países onde o confronto armado com as forças internas do império, e até diretamente com as forças armadas do imperialismo, tornou-se a única saída; um clamor nacional inquestionável.
No caso concreto da Colômbia, as FARC desfrutam do privilégio de constituir-se numa força armada de milhares de combatentes, mas seus dirigentes as utilizam para sustentar a política de negociação de paz como determinante para resolver a questão da guerra civil. A linha militar das FARC não passa de uma reprodução do oportunismo armado, cujas encenações remontam à primeira metade da década de 60 em vários países da América Latina. Com efeito, logo após a antiga URSS ter caído nas mãos do kruschovismo, passou a haver a combinação de pugnas e conluio entre o social-imperialismo russo e o imperialismo ianque. Muitos dos sacerdotes do revisionismo não vacilaram em criar "focos" guerrilheiros com o intuito de desgastar as correntes revolucionárias latino-americanas e consumir milhares de vidas humanas para deter o ímpeto das massas.
Não hesitaram em abastardar a teoria revolucionária ou a tática geral das lutas de massas, chegando a ponto de ressuscitar cães policiais como Trotsky e a denominar de progressista as instituições mais cruéis e secularmente repressoras, até mesmo convidando-as para intermediar negociações. O artigo de Luís Arce Borja, mais uma vez, nos remete à história dos movimentos armados na América Latina ao revelar os antecedentes e práticas atuais dos oportunistas — esses eternos aliados da reação, dedicados sabotadores da teoria, eternos desagregadores da unidade, da atenção, do ânimo e dos esforços que as massas produzem ao combater os seus inimigos.
Crítica às negociações de paz

O governo colombiano e as FARC mantêm
negociações de paz
Diversos grupos guerrilheiros estão envolvidos em diálogos e mesas redondas com os representantes do Estado. Lançam formidáveis ofensivas guerrilheiras, porém imediatamente pedem negociações de paz. Que há por detrás da solução política e pacífica ao conflito duradouro? Em termos gerais, é dito que mediante este caminho se pode resolver a guerra e pôr fim às sequelas sociais que originaram o conflito, inclusive com a alegação de que por esta via se vislumbram soluções sociais e políticas a favor dos oprimidos. Nepal e Colômbia nos servem de elementos para esta análise. Nesses países se desenvolvem dois dos mais importantes processos armados da atualidade. No primeiro caso, a luta armada é dirigida pelo Partido Comunista do Nepal (maoísta), e no segundo caso são as Forças Armadas Revolucionárias (FARC), da Colômbia, as que encabeçam as ações subversivas. Estes grupos armados, diferentes em suas concepções doutrinárias, coincidem em pretender resolver a guerra civil através das negociações de paz com os representantes do Estado.
(...) A luta armada dirigida pelas FARC tem início em abril de 1966 e, em 1983, iniciam sua longa peregrinação de paz quando, pela primeira vez, aceitam estabelecer um diálogo com o governo de Belisario Betancourt. Em março de 1984 firmam o primeiro documento de "cessar fogo e trégua". Desde então, não têm deixado de propor a pacificação da Colômbia através de negociações. Nas últimas duas décadas nenhum presidente colombiano tem escapado das propostas pacifistas desses guerrilheiros. Em agosto de 2002 dirigiram uma carta aberta a Álvaro Uribe Vélez (qualificado de mafioso e ultra-reacionário), flamejante presidente da Colômbia. Ali assinalam que as FARC reiteram ao povo colombiano e ao novo presidente sua profunda convicção na urgente necessidade da solução política ao conflito social armado de que padece a família colombiana."1 Porém, mais recentemente, e em plena agressão americana contra o Iraque (o governo colombiano é um dos países sul-americanos que apoiou os planos de guerra de Bush), repetiram sua proposta de resolver a guerra interna neste país através de negociações. Em 2 de abril, Raúl Reyes, alto dirigente das FARC anunciou não descartar "a solução do conflito sobre a base de abrir uma negociação de paz."2
As negociações de paz entre grupos subversivos e o Estado constituem uma velha história na luta social da humanidade. Espártacus, no ano de 71 a.C., intentou negociar com os generais romanos e seu movimento (histórica sublevação em que participaram mais de 100 mil escravos) foi exterminado. Não muito longe de nossos dias, em 1934, Augusto César Sandino, depois de dirigir uma vitoriosa guerra de guerrilhas contra os invasores americanos e o governo títere da Nicarágua, aceitou estabelecer conversações de paz. Foi assassinado depois de entregar as armas e firmar um "Convênio de paz". Em 1999, foi arrestado Abdullah Oçalan, chefe do Partido de Trabalhadores de Kurdistán (PKK), e dirigente da guerra de libertação do povo curdo, na Turquia. Desde a sua prisão, o líder curdo afirmou ser partidário de um acordo de paz com o Estado, e convocou seus seguidores a abandonar as armas. O chamado de paz de Ocalan não impediu que o Estado turco o condenasse à pena de morte (sanção não executada até o momento) e lançasse uma feroz repressão contra o povo de Kurdistán.
Entre 1824 a 1994, os Estados Unidos realizaram 73 invasões militares na América Latina, todas elas precedidas de artificiosas negociações de paz. Somente no período que compreende o início dos anos 50 até 1994, as tropas americanas interviram abertamente 14 vezes na América Latina. Para mencionar alguns exemplos, em 1954 invadem a Guatemala para derrotar o governo nacionalista de Jacob Arbenz. Em 1960, os marines desembarcam na Nicarágua para sustentar no poder a dinastia tirânica dos Somoza. Em 1964, é a vez de Cuba (durante a invasão americana a Cuba o governo USA negociava com os russos). Em 1965 é São Domingos. Em 1983 é a pequena ilha de Granada, e em 1989 os americanos executam o plano Just Cause, mediante o qual 28 mil marines invadem o Panamá.
A origem obscura da via não militar
Contrariamente ao que se acredita, a versão moderna das negociações, não surgiu de critérios políticos democráticos e pacifistas. Foi estruturada como parte de uma concepção estratégica dos Estados Unidos, cujo objetivo fundamental foi derrotar os grupos subversivos do continente. É sob a administração de Ronald Reagan (1981-1989) que se institucionaliza o emprego da negociação de paz como instrumento contra-revolucionário. O conceito da negociação se insere como elemento principal da estratégia contra-insurgente norte-americana conhecida com o nome de Conflito de Baixa Intensidade3, que os americanos estruturaram em 1981 para torná-la aplicável em todo Terceiro Mundo. A execução e desenvolvimento desta estratégia se sustenta em uma tática composta de duas opções para enfrentar a luta guerrilheira. Uma delas repousa exclusivamente no aspecto militar e a outra põe ênfase na gestão diplomática e negociadora. No primeiro caso, se refere a usar força militar e qualquer meio repressivo (invasões, envio de tropas, etc.) para destruir os movimentos revolucionários ou nacionalistas. Por outro lado, concebe um programa de negociações e "diálogo com a guerrilha", para "corroer as posições progressistas ou revolucionárias no seu interior, tentar desmobilizar as massas e ganhar tempo, com o objetivo de liquidar a subversão."4
A Nicarágua foi um laboratório onde se mostrou a eficácia e a dupla linha do Conflito de Baixa Intensidade. Ali se aplicou, simultaneamente, ações militares (abertas e encobertas) e a fórmula negociadora pacifista. O governo americano sustentou e financiou grupos armados contra o governo sandinista, porém, ao mesmo tempo, auspiciou negociações de paz como solução "pacífica e democrática" ao conflito nesse país.
As "saídas pacíficas aos conflitos armados",
ou "acordos de paz" com os agressores
são miragens políticas fabricadas
para derrotar os processos armados
Foi em janeiro de 1983 que os Estados Unidos formularam oficialmente o que se conhece como "solução negociada e política de conflito armado". Seu promotor na América Latina foi o general Antonio Noriega, conhecido traficante de drogas e um dos mais renomados agentes da C.I.A. na América Latina. A reunião onde se deu o nascimento deste engendro político foi na ilha de Contadora, no Panamá, e dela participaram, junto com Noriega, os presidentes do México, Venezuela e Colômbia, todos alinhados com a política de dominação norte-americana. Na época da reunião de Contadora, Noriega era presidente do Panamá. Havia assumido o poder após a morte do general Omar Torrijos, em 1981, um militar que reclamava a soberania sobre o Canal do Panamá, em poder dos americanos desde 1903. Torrijos morreu em um estranho acidente de aviação. Muitos analistas têm assinalado que Noriega, por ordem da C.I.A., planejou o assassinato de Torrijos.
Os acordos de paz, verdadeiros ou fictícios, têm sido mortíferos instrumentos da luta contra-insurgente. Sua eficácia tem sido provada em diferentes países da América Latina. Por exemplo, no Peru, Vladimiro Montesinos — outro agente da C.I.A., como Noriega — com o apoio norte-americano e a cumplicidade de um grupo de presos convertidos em assalariados do Serviço de Inteligência Nacional (SIN), fabricou em 1993 as "cartas de paz" que o governo adjudicou ao chefe da guerrilha maoísta, prisioneiro e isolado desde 19925.
Estas cartas foram amplamente difundidas pela polícia e os meios de comunicação do governo. Seus efeitos foram desastrosos no interior do Partido Comunista do Peru (PCP), e por essa razão o movimento revolucionário teve que se refugiar nos Andes e nas montanhas, como no início da luta armada em 1980. O retrocesso atual da guerra popular no Peru e a debilidade do PCP são consequência direta do que os maoístas peruanos denominaram desde o seu início por patranha contra-revolucionária fabricada pelos laboratórios de polícia no Peru.
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