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Novamente a reportagem de A Nova Democracia esteve na cidade de Teodoro Sampaio, na região conhecida como Pontal do Paranapanema, estado de São Paulo, para acompanhar a situação do líder camponês José Rainha Junior. Assim como a outros quatro líderes do MST, que continuam refugiados e perseguidos por liderar a luta pela terra naquela região.
Para que os leitores pudessem entender melhor o porquê das perseguições, AND buscou informações na própria região do Paranapanema. Informações dos próprios camponeses pobres, dos comerciantes, e demais membros da sociedade na Região. Observando, porém, as relações que essas classes e setores contraem entre si, e, também, até que ponto a cidade depende dos camponeses.
Dessa forma, AND verificou vários dos crimes cometidos por José Rainha e sua gente, entre os anunciados e os sugeridos pelo latifúndio e oportunistas. Como, por exemplo, trazer prosperidade a uma região dominada pelo atraso do latifúndio e o de liderar mais de 5 mil famílias na luta por trabalho e vida dignos.
Isto revela também porque os latifundiários e seus jagunços estão cada vez mais isolados, apesar de ainda promoverem confrontos com os camponeses. Como o que ocorreu no dia 8 de setembro, no acampamento Margarida Alves, fazenda Santa Fé. Participaram, pessoalmente, um latifundiário, que se diz dono da área, seu neto e, segundo testemunhas, o próprio prefeito de Sandovalina, Divaldo Pereira de Oliveira, que, um dia antes, havia pilotado uma máquina da prefeitura para fazer benfeitorias gratuitas na fazenda.
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Seu Antônio (E) e dona Lourdes mostram
a roça bem cuidada
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Nada ilustra melhor o artigo A mistificação burguesa do campo e atualidade da Revolução Agrária, publicada em AND nº 1 (julho 2002, pp. 8 e 9), do que as categóricas revelações encontradas em todo trajeto rodoviário de Presidente Prudente (580 quilômetros da capital São Paulo) ao Pontal. Seguramente, a maioria da população brasileira encontra-se no campo — 49%, e não 19%, como afirmam as estatísticas oficiais. É o que explica Sérgio Paganini Martins, secretário adjunto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável, usando o critério da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que considera espaço urbano a concentração com mais de 150 habitantes por quilômetro quadrado.
No ônibus que sai de Prudente e percorre quase todo o Pontal, as conversas giram em torno de assuntos do campo, como venda de bois ou vacas, preços de mandioca, feijão, algodão, um novo planejamento de plantio em determinada época, etc. As cidades são pequenas e a economia é baseada na agricultura. Não possuem indústrias, ou, quando muito, agroindústrias que processam a produção local.
O Pontal do Paranapanema é uma grande região que faz divisa com os estados do Paraná e Mato Grosso do Sul. Compreende as cidades de Pirapózinho (com acento mesmo), Tarabai, Mirante do Paranapanema, Cuiabá Paulista, Teodoro Sampaio, Sandovalina, Rosana, Euclides da Cunha Paulista, Presidente Epitácio, Presidente Bernardes, Presidente Venceslau (onde José Rainha esteve preso), e outras. Todo esse território era tomado por latifúndios de criação de gado, formados a partir de terras públicas griladas com a conivência dos governos estadual e federal. Muitos improdutivos. Área de terra fértil, durante certo tempo serviu, também, para o cultivo de algodão.
A cidade de Teodoro Sampaio teve um boom desenvolvimentista durante a década de 80, quando ocorreram as obras de represamento das águas do Rio Paraná para as construções das usinas hidrelétricas de Taquaruçú, Rosana e Porto Primavera. O comércio se desenvolveu rapidamente devido ao grande movimento de operários, enge nheiros e outros, envolvidos com a construção das usinas. Também foram construídas, na cidade, as vilas para moradias dos operários e engenheiros, com marcante diferenciação de estilo e solidez das construções. Enquanto os primeiros moravam em casas de madeira, os outros habitavam casas de alvenaria espaçosas e bem construídas.
Teodoro Sampaio viveu, durante 14 anos, dependente das grandes obras, que, quando foram concluídas, causaram uma grande queda no processo de desenvolvimento da economia da região, que, novamente, encontra ascendência na luta pela terra no Pontal do Paranapanema. As pessoas atraídas para a região, pelo sonho de possuir um pedaço de chão, assumem o lugar onde os operários e engenheiros foram expulsos, erguendo a produção. Na cidade, o comércio volta a florescer.
O Pontal tem mais de 5 mil famílias assentadas, em um processo que se iniciou em 1985 e intensificou-se no início da década de 90, com a chegada da organização MST e um dos seus mais sinceros e combativos líderes: José Rainha.
Comerciantes mudam de opinião
(...)O dono quer ver a terra plantada.
Ri de mim que vou pela grande estrada:
"Deixem-no morrer, não lhe dêem água
que ele é preguiçoso e não planta nada".
"O Plantador" (Geraldo Vandré – década de 60)
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Sidney: "90% do movimento provém dos camponeses"
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Visitando o comércio da cidade nota-se a simpatia dos comerciantes pelos sem terra. Alguns ficam reticentes. Outros dizem que "não são contra, nem a favor". Na verdade, a grande maioria concorda que, se não fossem eles, a cidade estaria "morta". Há alguns anos, devido à contra-propaganda dos latifundiários, era marcante a atitude hostil dispensada pelos habitantes do município aos camponeses que não dispunham de terras. Aos poucos, a intolerância se transformou em respeito e simpatia pelos que fizeram renascer a cidade que estava fadada à estagnação.
Os supermercados logo perceberam que os camponeses, em breve, poderiam comprar. Porque, ainda que pobres, se tornariam produtores livres. Além do mais, os trabalhadores sempre produzem para sobreviver, ao contrário das intrigas dos latifundiários.
Então, aproveitaram a oportunidade de vender gêneros alimentícios aos camponeses que haviam tomado a terra, regularizada ou não pelo Incra, o que incluía os acampados. Na data em que os camponeses recebem do laticínio, os supermercados mandam ônibus para trazer as pessoas à cidade, garantindo, assim, que elas façam suas compras nesses estabelecimentos.
Outro setor do comércio beneficiado com a chegada dos camponeses, foi o de produtos agropecuários. Existem inúmeras lojas de pequeno porte na cidade que sobrevivem, graças à venda em pequena quantidade aos camponeses. Antonio Gomes Sobrinho tem uma dessas lojas e diz: "Os latifundiários não fazem negócios com a gente. Em geral, eles nem abastecem suas caminhonetes aqui. Trazem todos os insumos e equipamentos dos grandes centros, além de não comercializarem os seus produtos na cidade". Seu funcionário Sídnei Aparecido Macedo concorda e emenda: "90% do faturamento da loja provém dos camponeses. A cidade deve muito a eles". Os camponeses também lotam os ônibus da única empresa que serve a cidade, que tem vários horários com destino a Presidente Prudente, o maior centro urbano da região.
A Avenida Cuiabá é a principal de Teodoro Sampaio. Nela, pululam vários tipos de pequenos comércios: bares, restaurantes, farmácias, açougues, supermercados, lojas de confecções e calçados, armarinhos, bazares, hotéis, etc. Todos com grande percentagem de venda para pequenos produtores.
Os comerciantes são unânimes em afirmar que José Rainha tem grande responsabilidade pelos assentamentos*. E atribuem a ele uma liderança inconteste, tendo bom relacionamento com quase todas as pessoas progressistas da cidade e da região do Pontal.
Desde a posse da terra
Munido dos depoimentos dos comerciantes de Teodoro Sampaio, AND foi conhecer algumas áreas. O Pontal conta hoje com 78 áreas de assentamento, onde cerca de 5.500 famílias produzem seu sustento e criam os filhos.
Partindo em direção ao Paraná, o primeiro assentamento é Paulo Freire, seguido de Antônio Conselheiro. Esses assentamentos distam 12 quilômetros de Teodoro Sampaio. Os camponeses gostam de dizer que de lá até a cidade existem apenas duas fazendas e todo o restante é tomado por lotes de camponeses que começam a se libertar do latifúndio. A vista do ponto mais alto lembra um grande tabuleiro de xadrez, com quadrados mais escuros — são terras preparadas para o plantio e quadrados verdes, de pastagens. Tudo pontilhado por casas espalhadas conforme a disposição do terreno.
É no Antônio Conselheiro (que existe há três anos), que AND encontrou o senhor José Viana. Com os filhos, ele prepara a terra para o plantio do algodão, que, segundo dizem, é o produto que vai atingir o melhor preço esse ano. Com uma carroça, retiram raízes e outros enroscos que possam atrapalhar.
Perguntamos sobre a situação da área expropriada pelos camponeses pobres e ele nos dá um retrato revoltante: "O governo não está nem aí para os pequenos. Não há nenhuma política de preços. E quando há, não é cumprida. Fizemos um financiamento para o plantio de mandioca com um contrato de venda de 30 reais a tonelada, mas, chegou a hora e não conseguimos esse preço. O máximo que tivemos foi 12 reais, o que não compensa nem arrancar a mandioca do chão".
Mas, ele e sua família, não desistem e vão tentar de novo. Desta vez apostam em outro produto, o algodão, que em outras épocas foi o carro chefe da produção agrícola da região. O Sr. Viana também plantou milho, como faz todos os anos. Sobre José Rainha, o trabalhador Viana nos diz: "É um homem trabalhador e um grande líder. Quem me ouve falando, pode duvidar, mas ele trabalha conosco na enxada o dia inteiro. Quando fomos a Presidente Prudente, no último ano, ficamos impedidos de entrar na cidade. O Zé (Rainha) tomou chuva conosco dentro das barracas de lona preta, ao contrário do que disseram por aí." De fato, o prefeito de Presidente Prudente, representante dos latifundiários, impediu a entrada dos manifestantes na cidade, colocando máquinas da prefeitura na pista de acesso e disse que enquanto os trabalhadores estavam no "estrelado" (a céu aberto), José Rainha estava num "cinco estrelas" (hotel).
Esse grande volume de intrigas que os latifundiários despejam sobre a população — seja pela imprensa oficialista ou pelos caminhos mais sutis que os sacerdotes do oportunismo disseminam nos sindicatos, nos falsos partidos de esquerda, etc. —, faz parte do imenso aparato da estratégia da guerra de baixa intensidade. As contra-campanhas dirigidas para atordoar o povo, desorientar e dispersá-lo, são usadas como uma avalanche de intrigas e difamações. Outras vezes, em cargas de munição leve, de forma insidiosa e ininterrupta, com o intuito de desmoralizar, isolar e destruir as lideranças, no afã de aniquilar o movimento. As táticas moderadas se revezam com a repressão brutal, desfechadas contra os acampamentos, ou contra as verdadeiras lideranças.
José Viana ainda diz: "Rainha é quem faz as coisas andarem por aqui. Quando esteve fora, preso, deu uma paralisada; a gente ficou sem saber o que fazer. Depois que ele foi solto, fizemos uma festa de três dias para comemorar. Mas, ainda não conversamos sobre o rumo das coisas."
Realmente, o povo gosta muito de José Rainha, pessoa de conversa fácil e simples, entendido por todos. Homem do povo e ouvido por ele. Talvez, por isso, os magistrados, burocratas e tecnocratas, que não são capazes de se fazer seguir, nutram um ódio ainda maior por alguém que pode conduzir milhares de pessoas a uma vida mais decente.
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