Personalizar
Início arrow Anteriores arrow Ano VI, nº 39, janeiro de 2008 arrow O povo de Sucre derrota a Polícia e rechaça a “nova” Constituição
O povo de Sucre derrota a Polícia e rechaça a “nova” Constituição PDF Imprimir E-mail
Centro de estudos populares da Bolívia   

Os enfrentamentos de 24 e 25 de novembro (sábado e domingo) na cidade de Sucre deixaram quatro mortos e mais de 300 feridos devido à repressão policial. A população da cidade enfrentou os soldados da cidade e rechaçou a "nova" Constituição aprovada em um recinto militar. Este fato gerou um vazio de poder por causa da ausência das forças repressivas do Estado. Por isso a população se organizou para administrar a segurança da cidade.

http://anovademocracia.com.br/39/21.jpg
Sucre, 25 de novembro
Bolivia - A população de Sucre invadiu os batalhões policiais e expulsou os soldados da cidade, em protesto pelas mortes e ferimentos causados aos manifestantes que haviam questionado a última sessão da Assembléia Constituinte, realizada em um recinto militar. Em represália, os soldados soltaram os presos da prisão de San Roque e abandonaram a cidade com a advertência de que não poderiam proteger a cidade da delinquência.

Nos enfrentamentos de sábado, entre universitários e policiais, uma morte, a do advogado Gonzalo Durán — atingido por um tiro — deixou a população em alerta e preocupada. O governo minimizou o fato e insistiu em "celebrar" a aprovação pela maioria dos constituintes da nova Constituição Política do Estado.

No domingo a repressão continuou e o carpinteiro Juan Carlos Cerrudo — ferido no dia anterior — morreu atingido por uma granada de gás na cabeça, enquanto a população imobilizou um policial e o golpeou até matá-lo, isto segundo fontes policiais, mas o corpo ainda não foi encontrado.

Segundo notícias da imprensa, também faleceu o estudante de Construção Civil da Escola Técnica, José Luis Cardoso. Enquanto isso, o Presidente Evo Morales e seu vice-presidente Álvaro García Linera estavam concentrados em propagandear a entrega do bônus "Juancito Pinto" (Bs.200) em diferentes partes do país. Nenhum deles se referiu às mortes apesar da insistência dos jornalistas.

Às dez da manhã de domingo, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, disse na rádio Pátria Nova que os soldados já haviam retornado a seus quartéis. Ao mesmo tempo, estudantes denunciaram pela rádio Erbol que os policiais estavam agredindo grupos de jovens nas ruas. Uma enfermeira assegurou que os soldados recolhiam os feridos na praça Zudañes para levá-los a seus quartéis, sem permitir atenção médica e para agredí-los ainda mais. Os jornalistas reportavam, ao vivo, que os policiais estavam dispostos em cinco pontos da cidade, reprimindo a população. A jornalista Adriana Gutiérrez disse que ela e o cinegrafista Pablo Tudela foram jogados contra a parede, agredidos por policiais com socos no rosto e ameaçados de morte com fuzis apontados para eles. Com estes fatos, se desmentia a versão do Ministro.

Esse panorama indignou a população, que decidiu tomar os quartéis e batalhões policiais. Os policiais resistiram à investida popular com gases e balas, mas finalmente foram vencidos no Comando Departamental, no Batalhão de Trânsito, no de Inteligência e no Batalhão de Segurança Física, tomados por completo, segundo o coronel José Galván.

O comandante Geral da Polícia, Miguel Vásquez, disse que sua instituiçao foi "agredida selvagemente", qualificou como "desadaptados" e "delinquentes" aos estudantes, operários, camponeses e população em geral mobilizados e insistiu em dizer que os policiais não usaram armais letais nos enfrentamentos. Com a permissão do Governo, a ordem de retirada dos soldados foi dada. Os policiais não tardaram em sair fugindo da cidade e foram apedrejados pela população postada nos morros.

Mas os policiais não saíram tranquilos, as imagens da televisão mostraram como as tropas "anti-motim" estimulavam os presos da cadeia de São Roque a sair pelas janelas do lugar. As mulheres e homens abandonaram a prisão corrrendo, com mochilas, maletas e carregando seus filhos.

Inicialmente o general Vasquez informou que haviam fugido 102 reclusos, não há uma informação final, mas se sabe que ficaram apenas alguns que estavam a ponto de cumprir a pena. Com sua "missão cumprida", os soldados saíram da cidade gritando para a população que agora estavam sem policiais para resguardá-los da delinquência.

A Defensora do Povo interina opinou que "as ações repressivas da Polícia tem agredido de maneira massiva aos direitos humanos".

A única coisa que o presidente Evo Morales comentou é que esses grupos foram apoiados pela oligarquia e que "não aceitam que um camponês indígena seja Presidente", ao mesmo tempo que agradecia e justificava a brutalidade policial, dizendo que eles somente cumprem a lei.

Mas foi a população que se levantou contra a polícia, com mulheres que levavam alimentos e refrescos em bolsas para os manifestantes, moradores que fizeram vigílias desde a noite anterior, estudantes que estiveram à frente dos enfrentamentos, comerciantes que fecharam os mercados e lojas para se solidarizar, pessoas que socorriam os feridos, anciãos e mulheres que levavam bandeiras com tarjas negras e gente que ia aos hospitais para saber se podiam doar sangue e até medicamentos.


 
< Artigo Anterior   Próximo Artigo>
 

Aumentar / Diminuir

A+ | A- | Padrão

Receba as novidades por e-mail






Visitas: 2201332

Conheça nossos livros

A dominação do Terceiro Mundo

De Langstain Almeida

Um mergulho na essência da natureza humana, uma análise dos sentimentos, do caráter, dos interesses e da ideologia por trás do domínio político no mundo contemporâneo. Em linhas gerais é um livro sobre as forma que conduzem o destino dos homens em sua sociedade.
Um grito de protesto contra o sistema de domínio que tem explorado geração após geração os povos Meridionais.
(do prefácio de Agassiz Almeida Filho)