Personalizar
Início
O povo de Sucre derrota a Polícia e rechaça a “nova” Constituição PDF Imprimir E-mail
Centro de estudos populares da Bolívia   

A "meia lua" organiza sua "resistência"

CEP-Bolívia
A imagem “http://anovademocracia.com.br/39/21b.jpg” contém erros e não pode ser exibida.
Os funerais de Juan Carlos Duran e Gonzalo Cerrudo
Bolivia - O projeto reformista do Movimento al Socialismo (MAS), introduzido através da Constituinte, e a proposta de "autonomia" da oposição tem o povo como campo de disputa. Em ambos, são das classes exploradas os mortos e feridos, os que marcham quilômetros em situações rigorosas para respaldar um governo que maquia o velho e podre Estado e os que saúdam os "cívicos", pedindo autonomia, quando isso somente consolidará a elite mais reacionária do país.

Os opositores do governo de Evo Morales se mostram nesses dias como os defensores da democracia, enquanto governam suas prefeituras de forma autoritária; condenam a repressão policial, mas estão acostumados a usar inclusive a força dos grupos de choque contra o povo. Eles se solidarizam com a população de Sucre, reprimida pela Polícia nos dias 24 e 25 de novembro, ainda que não titubeiem em pisotear o povo em suas regiões. Os empresários e latifundiários levantaram a cabeça e agora anunciam uma série de protestos em defesa de seus interesses.

No dia 24 de novembro (sábado), um grupo de choque obediente aos "cívicos" de Santa Cruz se apresentou como a "guarda de honra" da União Juvenil Cruzenha e partiu para derrubar as portas do Serviço de Impostos Internos da cidade, depois de saber que em Sucre, o governo havia reprimido a população usando a polícia.

No domingo, em Sucre, o resultado da investida policial foi de três mortos e mais de 300 feridos. Em Santa Cruz, os grupos de caráter fascista tentaram tomar outras instalações públicas, frente a uma tímida defesa do governo pela polícia. Os "cívicos" de outras regiões organizaram protestos no resto do país: Cochabamba, Beni, Tarija, Pando e Santa Cruz (autodenominados "meia lua") en "solidaridade" a Sucre.

Na realidade sua luta é contra o MAS e a nova Constituição, aprovada no dia 24 de novembro numa sessão em um recinto militar, na presença apenas dos assembleístas membros dos partidos que apóiam o governo. Os empresários e latifundiários, excluídos do manejo da administração pública desde a chegada de Evo Morales à Presidência, tem sustentado protestos nas regiões em que conseguiram mobilizar o povo, inclusive se valendo de agressões físicas a comerciantes e outros trabalhadores, efetuadas pelos grupos fascitas da União Juvenil Cruzenha.

Na "resistência"

Nesta conjuntura, a denominada "meia lua" — que pretende se lançar como a defensora da democracia, da paz e da não violência — considerando que seu passado está ligado a militares golpistas — tem enviado cartas às Nações Unidas, à Organização dos Estados Americanos, à Comunidade Andina de Nações e à Igreja Católica, denunciando o governo de "promover a passagem para um Estado totalitário, fazendo uso de uma violência somente vista em governos tiranos e fascistas".

Os "cívicos" da meia-lua convocaram, para o dia 27 de novembro, a população para uma paralisação de atividades contra a nova Constituição Política do Estado em suas regiões e anunciaram uma greve de fome para a próxima semana. Com esses protestos, nos quais praticamente obrigaram a população a participar, estes cívicos defendem interesses dos empresários e latifundiários nostálgicos do mais cru neoliberalismo e deliram agora, sentindo-se a vanguarda da "resistência". O texto da nova Constituição é desconhecido de quase todos na Bolívia, porque Evo Morales e seus apoiadores escondem o documento.

O governo não fica atrás e, através de seus dirigentes, tem mobilizado aos setores camponeses e urbanos para cercar o Congresso, onde a "meia-lua" tem seus representantes, para aprovar a Renda Dignidade, que dará uma pensão mensal aos idosos do país e outras leis que não são aprovadas, fato que o governo tem denunciado como obstrução a seu projeto reformista.

*O Centro de Estudos Populares da Bolívia (CEP) é uma organização sem fins lucrativos, que conta com uma equipe multidisciplinar, dedicada ao estudo e análise da realidade boliviana e comprometida com os setores explorados e que lutam permanentemente em defesa de seus direitos democráticos. O objetivo do CEP é lutar junto ao povo boliviano para construir uma verdadeira alternativa transformadora, através do conhecimento da realidade objetiva dos fatos que ocorrem no país.

Para entender os protestos

Semelhante ao que ocorre na Venezuela, com Hugo Chávez se esforçando na estruturação de um sistema que atenda ao imperialismo com cara popular e com o eufemístico nome de "socialismo do século XXI", Evo Morales na Bolívia tenta impulsionar seu projeto batizado de "capitalismo andino-amazônico".

Na verdade, se é correto afirmar que esses dois personagens sofrem duros ataques da extrema-direita de seus países, que recorrem aos mais fétido anticomunismo, os dois projetos não significam melhora nas condições de vida das massas nem a saída da condição de países dominados pelo imperialismo.

Morales ainda tem relativo apoio das massas que o elegeram para a gerência do Estado boliviano, mas dá mostras de que não se prenderá aos compromissos assumidos com elas.

Os incidentes em Sucre demonstram que Evo recorrerá aos mesmos métodos de repressão utilizados pelas velhas oligarquias que sempre dominaram o país e agora se encontram deslocadas do poder.

Assim, manifestações genuinamente populares contra Morales e aquelas convocadas pelos chamados "cívicos" da "meia lua" boliviana podem se confundir, mas revelam que o atual governo boliviano não está satisfazendo aos interesses das massas, nem tampouco os de um setor da grande burguesia. Assim, os reacionários de Santa Cruz de la Sierra reivindicam a democracia das manifestações em Sucre, que nada tinha de interesses semelhantes

A defesa de Morales segue sendo a de impingir a todos que se opõem a ele o rótulo de "direitistas" e atribuindo a si mesmo o título de vanguarda da esquerda latino-americana.

Os setores mais reacionários se mexem e acenam com constituições locais, que lhes dariam grande autonomia e poder de decisão sobre a utilização das terras e recursos naturais dos departamentos (estados) mais ricos do país, já que foram desalojados do centro do Estado.



 
< Artigo Anterior   Próximo Artigo>
 

Aumentar / Diminuir

A+ | A- | Padrão

Receba as novidades por e-mail






Visitas: 2312700

Conheça nossos livros

Da Mesopotâmia ao terceiro milênio: Iraque, a ressurreição de um povo

De Yasmim Anukit

Ao retraçar os caminhos do Oriente Médio e ao ressaltar o valor de suas contribuições para a humanidade, Yasmim mostra como o Iraque e o Islã têm sido estigmatizados por clichês e preconceitos redutivos.