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Página 1 de 2 Durante a Segunda Guerra Mundial, a então União Soviética mostrou toda sua força e poder de combate e resistência. Sob a liderança do marechal Stalin, o Exército Vermelho e os grupamentos de guerrilha que atuavam atrás das linhas alemãs expulsaram o nazismo de sua pátria num grande esforço de guerra junto com toda a população soviética, e empurraram as hordas nazistas até o seu ninho, determinando o fim do segundo grande conflito imperialista, conforme a Ata de Capitulação Militar (sem condições) diante do Alto Comando do Exército Vermelho e do Alto Comando das forças expedicionárias aliadas, firmada em 8 de maio de 1945, em Berlim.
O Governo da União Soviética, durante toda guerra, não descuidou das artes, intensificando sua presença, inclusive nas frentes de combate. Esta experiência rende atos heróicos por parte de artistas e espectadores, assim como evidenciou uma forma de teatro que foi fruto das condições materiais da situação de guerra.
Neste número de A Nova Democracia, trazemos um trecho da obra de Joracy Camargo, O Teatro Soviético, Leitura, RJ, editado no início dos anos 50, e, notavelmente esclarecedora sobre o grande Povo Russo.
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Nina Shershneva era enfermeira
das linhas
de frente. Um dos tipos
de mulher das
peças de Simonov |
Afinoguenov profetizara a invasão nazista, e ele mesmo, dois ou três meses antes de ser estraçalhado em plena rua por uma bomba aérea de Hitler, escrevera a peça que determinava o momento da covarde agressão. Na véspera é o expressivo título da obra de Afinoguenov que registra o ambiente sugestivo da aproximação da catástrofe.
Nenhuma arte com mais propriedade do que o teatro poderia fixar, para os observadores políticos, o estado de espírito dos russos no dia anterior ao golpe traiçoeiro do mais digno aliado do Japão.
A primeira cena transcorre no dia 21 de junho de 1941, véspera da invasão. É noite alta, em um belo jardim à margem de um rio por onde navega um vapor fluvial e de onde se avistam, ao longe, as luzes de Moscou. Estão ali reunidos um general do Exército Vermelho, sua família e amigos, que discutem a possibilidade de uma invasão nazista. O general considera iminente a invasão, mas ninguém o leva a sério.
Desencadeia-se a discussão, que toma os caminhos mais imprevistos e assume diferentes aspectos. Uns citam Lermontov ou Tennyson; outros fazem referências a Charles Dickens; alguns aludem a passagens de A Guerra e a Paz, de Tolstói, e uma atriz declama as palavras que Chekhov colocou na boca de Olga na cena final de sua peça As três Irmãs: "A noite é curta como as noites de junho naquela região. Começa a amanhecer. Dizem alguns: — Amanhã será um belo dia!" "Amanhã?" — pergunta o general, acrescentando: "Quem sabe o que sucederá amanhã?" O Sol mete a cabeça no horizonte. Alguém propõe: "Saudemos o amanhecer com uma canção!" E começam todos a cantar em surdina, quando aparece, vindo do interior da casa, o irmão mais moço do general e o leva para um canto a fim de dizer-lhe, à parte: —"Do Quartel General estão pedindo a sua presença com urgência." O general retira-se em silêncio, enquanto os outros continuam a cantar. O Sol aparece em cheio. Dois dias depois já se ouvem os ruídos dos tanques que passam incessantemente. A família e os amigos unem-se pela defesa nacional, desprezando como por encanto, opiniões pessoais. Um outro irmão do general, André, agrônomo e descobridor de uma nova espécie vegetal, um grão nutritivo, incendeia as sementeiras para evitar que caiam nas mãos dos nazistas. Com o mesmo ânimo forte recebe a notícia da morte de sua mulher. O velho pai do general prepara-se para fazer voar a fábrica que está construindo, e diz: — Esta guerra não foi começada por nós, mas nós a terminaremos!"
Daí por diante a peça descreve os horrores da guerra e estimula a união nacional para combater os invasores.
Na véspera foi a primeira obra de propaganda da defesa do país e exerceu no espírito público a mesma influência de todas as peças que haviam transformado o teatro soviético em arma poderosa no combate à indiferença ou à incompreensão em massa. Iniciada a invasão, no dia 22 de junho de 1941, foi imediatamente mobilizado o Exército Teatral. Em seu documentado artigo sobre "A arte dramática na Rússia durante a guerra", Henry Wodsworth Longfellow Dana refere os fatos mais importantes. Servindo-se de uma descrição de Moskvin, o grande ator do povo, que dirige atualmente o Teatro de Arte de Moscou, Dana diz que quando os exércitos germânicos iniciaram a invasão da Rússia as cidades da fronteira, como Minsk, capital da República Soviética da Bielo-Rússia, sofreram os mais ferozes bombardeios dentro das primeiras vinte e quatro horas. Moskvin, que atuava nessa noite com a companhia do Teatro de Arte no principal teatro da cidade, pinta o quadro de horrores e barbaridades de que fora vítima a cidade indefesa. Mas diz que ao mesmo tempo em que as sinetas dos teatros de Minsk, anunciando a subida dos panos de boca, eram afogadas pelas sirenas de alarme e pelos gemidos dos primeiros feridos, a companhia do majestoso e novo Teatro da Ópera da Bielo-Rússia, incendiado pelas bombas nazistas, refugiava-se na cidade de Gorki, nas margens do Volga. Os espetáculos não foram interrompidos, e do Teatro de Gorki, a grande cantora Larissa Alexandrovskaia, Artista do Povo, cantava pelo rádio para seus conterrâneos uma canção que prometia a sua libertação no estribilho: — "Bielo-Rússia, estamos perto de ti!" Um grupo de jovens artistas abandonou o Teatro de Minsk em chamas, e iniciou uma turnê pelos bosques, aeródromos e hospitais de sangue da república invadida. Esse grupo, que passou a denominar-se de Atores das Primeiras Linhas passou a representar para as tropas e os feridos do Exército Vermelho, recuando ou avançando, de acordo com as circunstâncias.
Logo que os invasores atingiram a cidade de Kiev, capital da Ucrânia, o Artista do Povo, Gnat Yura, assumiu a direção desse setor, e mais tarde escreveu: — 'Hoje o nosso palco é constituído por dois auto-caminhões, sem paredes laterais, que se colocam um ao lado do outro'. Durante um espetáculo começaram a cair estilhaços de bombas sobre o palco improvisado, e o ruído da fuzilaria interrompeu a função, mas o comandante da guarnição local do Exército Vermelho ordenou a seus artilheiros que fizessem silenciar as baterias inimigas, dizendo-lhes sorridentemente: — 'Não consintam que os nazistas interrompam o drama!'.
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Fachada do teatro Central
do Exército Vermelho
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Os teatros de Kiev e de Karkov, assim como os de outras cidades ucranianas invadidas, passaram a constituir o chamado Teatro da Frente Sul-Ocidental que foi considerado como parte integrante do Exército, pois atuava atrás das linhas de batalha.
Essa incorporação das companhias teatrais às "companhias" do Exército fora deliberada nas reuniões da gente do teatro de toda a Rússia promovidas pelos teatros de Moscou e Leningrado, no mesmo dia em que foi iniciada a invasão, reuniões que tiveram por principal finalidade a mobilização do teatro para a defesa da União Soviética. A pouco e pouco iam-se reunindo a cada companhia militar uma companhia teatral, dirigidas todas por um comitê misto que se denominou shefstvo ou "patronato". Longfellow Dana diz então que "as brigadas de atores marcharam dos teatros do drama para os teatros de guerra"
Agora pode-se dizer que era perfeita a organização do teatro soviético como parte integrante da vida social e política da União, porque todos os teatros estavam preparados para a eventualidade da guerra. Bastará dizer que a invasão encontrava nada menos de cinquenta companhias aparelhadas e adestradas para atuar nas frentes de batalha. Essa circunstância também indica que os artistas de teatro não tinham a menor ilusão sobre a "lealdade" dos antigos e mais acirrados inimigos do regime soviético.
Desde o dia da invasão até a data em que Longfellow Dana colheu os dados para o seu artigo, publicado em Dialectica, Vol. IV, de março/abril deste ano, foram realizados cerca de 150.000 espetáculos para o Exército Vermelho, nos teatros de operações, nos hospitais militares, a bordo de navios de guerra e nas guarnições da retaguarda, cabendo aos teatros de Moscou 14.000 funções e aos de Leningrado 20.000.
Mas a contribuição do teatro para o esforço de guerra não se cingiu aos espetáculos, pois somente o Bolshoi, de Moscou, elaborou um plano para a "mobilização total" e entregou ao fundo de defesa mais de um milhão e oitocentos mil rublos.
Apesar de todo esforço despendido fora do teatro, os diretores não se descuidaram da parte artística, procurando manter ou elevar mesmo o nível das representações. Para isso, o pessoal do movimento interno, naturalmente convocado, foi substituído pelos próprios artistas, e até as celebridades, Artistas do Povo, Prêmios Stálin ou Ordem de Lenine, armam cenários e retiram móveis de cena. Olga Lepeshinskaia, uma das maiores bailarinas e talvez a mais popular da União Soviética, Prêmio Stalin, depois da função no Teatro de Ópera, vai todas as noites montar guarda como vigilante contra ataques aéreos no terraço de sua casa em Moscou.
Suzana Zviagina, outra bailarina do Bolshoi de Moscou, dançou mais de novecentas vezes nas frentes de batalha, e numa das vezes encontrou seu marido em plena luta, sofrendo a desgraça de sua morte dias depois. Durante o cerco de Stalingrado, Suzana bailou no terraço de uma casa meio destruída, situada à pequena distância da linha de frente, e dançou com tal precisão e coragem, que deu a impressão de estar abrigada no palco de Bolshoi. Foi agraciada com a Ordem da Estrela Vermelha.
Todos os artistas foram mobilizados. Atores, atrizes, cantores, bailarinos, compositores, pintores, cenógrafos, escultores, e até conferencistas são enviados constantemente para as linhas de frente. Moscou envia semanalmente cento e cinquenta conferencistas e mil e quinhentos atores. Devido às dificuldades que tiveram que enfrentar os artistas de teatro, que muitas vezes se serviram de subterrâneos de defesa como camarins, e não dispunham de cenários, bastidores, refletores e até espelhos para caracterização, criaram uma nova modalidade de interpretação que demandava mais talento e menos artifícios. É bem verdade que não lhes faltava nunca um ambiente de bom humor, agradável, acolhimento e boa vontade por parte dos espectadores militares. Um soldado escreveu o seguinte, dirigindo-se a um grupo de atores: — "Depois de vossa função combateremos o inimigo com energia renovada. Quando vindes de Moscou para representar entre nós temos a sensação de que todo o nosso povo está unido, militares e civis, e que estão unidas a frente e a retaguarda".
Aos que descriam da utilidade das representações teatrais na linha de fogo um general do Exército Vermelho dirigiu essas palavras: — "Em tempos de paz estávamos acostumados a freqüentar os teatros. Os atores devem perseverar e melhorar sua arte. Algum dia a guerra terminará, e quando vier a paz duradoura, voltaremos aos nossos lares e iremos então verificar se os atores progrediram em teatros novos, mais amplos e espalhados por todo o país".
Dentre outras, essa foi uma das razões que levaram o governo soviético a isentar, do serviço militar propriamente dito, os comediógrafos, atores, cantores, bailarinos, etc. Só assim poderiam os artistas dedicar-se ao esforço de guerra com mais eficiência do que o fariam manejando armas. Essa política deu os melhores resultados, não só em relação à necessidade de oferecer aos soldados divertimentos ou repousos culturais, levantando-lhes o ânimo, como sobre outros aspectos. Um episódio interessante, por exemplo, é o que foi narrado pelo ator do Teatro do Exército Vermelho, Sergei Balashov. Esse grande ator, que havia representado cerca de quinhentas vezes em campos de batalha, conta que um jovem soldado de uma companhia de tanques produziu em seu espírito uma tal impressão, ao dizer-lhe que a sua atuação havia elevado o ânimo de luta e aumentado a energia das guarnições daquela arma, que no mesmo momento prometeu redobrar o seu esforço até reunir o dinheiro necessário para comprar uma possante máquina de guerra. E cumpriu a promessa. Embora necessitando de repouso, Balashov passou a representar durante três meses e meio quatro vezes por dia, até reunir o dinheiro necessário. Quando fez a entrega do tanque, o Comandante da Divisão escolheu para a nova unidade uma guarnição de bravos, e dentre eles, o jovem que havia inspirado a magnífica atitude do ator, que, por sinal, fez um discurso de agitação durante a solenidade da entrega. E ainda se ouviam as últimas palmas do orador, quando o tanque partiu para a frente com os seus quatro valentes tripulantes. Animado por essa esplêndida façanha, Balashov esqueceu-se de que precisava de repouso, e continuou a representar. Uma vez recitou os famosos versos futuristas de Maiakovski, intitulados A voz de colarinho, num subterrâneo de defesa, em voz baixa, para não ser ouvido pelos alemães. Outra vez representou a bordo de um dos couraçados da Frota do Báltico, utilizando como cenários as torres blindadas e as pontes. E chegou a dar um espetáculo no fundo do mar, no bojo do submarino que bombardeara o dreadnought alemão "Von Tirpitz". Disse ele que "para os atores, pelo menos"a representação foi muito interessante. E afirmou que todos trabalharam com o mesmo vigor a que estariam obrigados num teatro de Moscou. A prova disso é que os marinheiros ficaram tão entusiasmados que perguntaram aos atores o que poderiam fazer, para corresponder à gentileza.
'Isto: — responderam eles — afundar um submarino nazista, em nosso nome'.
Mais tarde, o grupo de Sergei Balashov recebeu esse telegrama da Marinha Vermelha: — 'Tal como nos pediram, despachamos um torpedo em nome de vocês, Atores, e acabamos de afundar um submarino fascista'.
Desse entendimento, ou afetuoso espírito de camaradagem que liga os artistas aos soldados, todos recebendo a mesma orientação e as mesmas inspirações do governo, é que surgiu o espírito de unidade nacional, e, mais do que isso, o sentido de continuidade desse espírito. Se nenhuma outra classe vive ou trabalha alheia aos destinos da União Soviética, a classe teatral é, entre todas, a que mais colabora e a que mais eficientemente conduz a opinião pública nesse sentido, quer ligando o passado ao presente, identificando os heróis de ontem com os heróis de hoje, quer debatendo e esclarecendo os mais graves problemas políticos, ou ainda assumindo atitudes desassombradas que influem nas decisões das autoridades políticas.
Já me referi, em outro capítulo, a algumas peças destinadas ao fortalecimento e ao esclarecimento da vontade do povo para a luta contra os invasores. Mas agora, graças às preciosas informações de Longfellow Dana, posso mostrar como essa campanha foi sábia e meticulosamente organizada pelos autores soviéticos. Os leitores já conhecem o grande dramaturgo Leonid Leonov, e algumas de suas peças, como Invasão, que obteve o Prêmio Stálin de teatro, no valor de cem mil rublos, e já conhecem a atuação do não menos célebre Afinogenov, assassinado pelos nazistas quatro meses e meio depois do início da agressão. Esse autor genial, prosseguindo no plano indicado em Na véspera, escreveu Mashenka, que trata da crescente simpatia de um velho homem de letras, pela nova geração soviética; Ponto distante, na qual demonstra o papel importante que podem desempenhar na defesa nacional as pequenas coletividades das aldeias mais afastadas, e tantas outras já examinadas. Vershinin e Ruderman chegaram a escrever uma peça cujo tema só seria lógico depois de deflagrada a guerra. É o caso do drama Vitória, escrito em 1937, ao qual já me referi na adaptação feita pelos autores americanos Janet e Philip Stevenson, que foi representada em Nova York com o título de Contra-ataque.
Kaverin produziu um trabalho notável, na mesma linha de Na Véspera, de Afinogenov. Trata-se de A casa da colina, cujas primeiras cenas se passam numa casa de campo, na noite da invasão. Nessa vivenda tranqüila, recentemente construída, à margem de um rio e rodeada de pinheiros, vive um professor de História com sua família: a esposa displicente e ineficaz, um filho de dezesseis anos e uma filha mais jovem, que aproveita a oportunidade para revelar um grande "segredo", isto é, o seu próximo casamento com um moço estudioso que está presente. Para festejar o acontecimento bebe-se champagne e fazem-se brindes. Um velho amigo da família, médico muito distraído, pronuncia um discurso alusivo ao contentamento da família e fixando o momento que estava vivendo, que seria maravilhoso...se fosse duradouro. Mas o irmão da noiva liga o rádio para alegrar ainda mais as comemorações com um pouco de musica, e capta a voz de um locutor difundindo a notícia que todos esperavam sem esperar: os exércitos alemães haviam invadido a Rússia. No segundo ato, dois meses depois, em agosto de 1941, a família feliz da casinha da colina está dispersa. O jovem estudante, noivo da mocinha, alistou-se no Exército Vermelho. O chefe da família é agora chefe de guerrilheiros que operam atrás das linhas alemãs. Mãe e filha haviam abandonado Leningrado. Apenas ficara o rapaz de dezesseis anos, para defender a casa, sendo afinal ferido pelos invasores no momento em que gritava: "Avante!". O ato seguinte transcorre em Leningrado, onde a mocinha encontra o noivo gravemente ferido e a mãe dá provas de insuspeitadas qualidades de bravura e coragem agitando-se no meio dos horrores produzidos pelos terríveis bombardeios. Por fim, o último ato leva novamente os espectadores para a casinha da colina, quase desabada. A luta havia serenado um pouco e a família voltou a reunir-se, menos o chefe, que todos suspeitam haver morrido, mas que aparece nas últimas cenas, são e salvo, a tempo de dizer ao jovem estudante já restabelecido e pronto para partir com o Exército Vermelho: — "Volte com a vitória!" Essa peça alcançou um grande sucesso no Teatro Gorki (antigo Aleksandrinski de Leningrado), quer diante de espectadores civis como de militares.
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